Ruy Castro implode o mito do "Flávio Bolsonaro moderado"
“Flávio Bolsonaro apresenta-se ao eleitorado como um ‘Bolsonaro moderado’. Equivale ao círculo quadrado e ao fato imaginário", diz ele
247 – O jornalista e escritor Ruy Castro publicou uma análise contundente sobre o senador Flávio Bolsonaro, desmontando a tentativa de construção de uma imagem moderada do parlamentar. O artigo foi publicado pelo jornal Folha de S.Paulo e examina, com tom crítico, as inconsistências entre o discurso atual e o histórico político da família Bolsonaro.
Logo na abertura, Castro ironiza a estratégia de reposicionamento: “Flávio Bolsonaro apresenta-se ao eleitorado como um ‘Bolsonaro moderado’. Equivale ao círculo quadrado e ao fato imaginário, especialidades da família Bolsonaro.” A frase sintetiza o argumento central do texto, que questiona a viabilidade dessa imagem diante das práticas associadas ao bolsonarismo.
Pandemia expõe contradições
Um dos principais pontos da crítica recai sobre a atuação durante a pandemia de Covid-19. Segundo o colunista, o fato de Flávio Bolsonaro ter se vacinado não sustenta a tese de moderação.
“Um de seus argumentos é que se vacinou contra a Covid. E daí?”, escreve Castro, antes de aprofundar: “Se achava a vacina tão importante a ponto de tomá-la, o que fez para sustar a política omnicida de seu pai?”
O texto relembra a condução do governo federal durante a crise sanitária, marcada por ataques às vacinas e promoção de tratamentos ineficazes, e associa esse contexto ao elevado número de mortes no país. “Dos 700 mil brasileiros mortos pela Covid, quantos não terão sido crédulos bolsonaristas?”, questiona.
Subordinação política e risco institucional
Castro também levanta dúvidas sobre a autonomia política de Flávio Bolsonaro em um eventual cenário eleitoral. Para ele, o senador não representaria uma ruptura com o passado recente.
“Flávio Bolsonaro no Planalto será um boneco de engonço do Bolsonaro titular”, afirma, sugerindo que Jair Bolsonaro manteria influência direta sobre um possível governo do filho.
O colunista ainda critica a relação da família com as instituições democráticas: “A desfaçatez com que acham normal passar de moto por cima das instituições [...] permite qualquer conjetura.”
Discurso conservador sob questionamento
O artigo também aborda o lema “Deus, pátria e família”, frequentemente associado ao bolsonarismo. Castro questiona a coerência desse discurso no caso do senador.
“Não se conhecem as relações de Flávio Bolsonaro com Deus. Será religioso o suficiente para merecer os votos dos evangélicos?”, escreve. Ele também menciona homenagens concedidas a indivíduos acusados de crimes graves, colocando em dúvida a consistência do discurso de segurança pública.
Alinhamento externo e críticas a Trump
No campo internacional, o colunista critica o alinhamento com os Estados Unidos, especialmente com Donald Trump, atual presidente norte-americano.
Segundo Castro, Flávio Bolsonaro “planeja abertamente entregar [a pátria] a Donald Trump”. O autor também menciona o custo da política externa dos EUA, destacando que a guerra contra o Irã consumiria bilhões de dólares diariamente, com impactos humanitários significativos.
Silêncio estratégico sobre corrupção
Encerrando o texto, Castro faz uma crítica irônica ao posicionamento do senador sobre corrupção: “Numa coisa Flávio Bolsonaro será, com razão, moderado. Não dará um pio sobre corrupção.”
Debate sobre moderação na direita brasileira
A análise se insere em um momento de disputa de narrativas dentro da direita brasileira, em que figuras associadas ao bolsonarismo buscam reposicionamento político. O artigo de Ruy Castro aponta que essa tentativa encontra resistência diante de fatos recentes e do legado político da família.
O debate sobre o que significa ser “moderado” no cenário atual permanece aberto, especialmente quando confrontado com episódios como a gestão da pandemia, a relação com instituições democráticas e o alinhamento internacional.


