"Trump presta enorme serviço à humanidade ao enfraquecer o Império americano", afirma Paulo Nogueira Batista Jr.
Economista avalia que conflito fortalece países exportadores como o Brasil, pressiona o dólar e expõe limites da estratégia imperial dos Estados Unidos
247 – O economista Paulo Nogueira Batista Jr. afirmou que a guerra contra o Irã, iniciada por Israel e Estados Unidos, tende a acelerar o declínio dos Estados Unidos como potência hegemônica mundial. Em entrevista ao canal Tutameia, concedida em 1º de maio de 2026, o ex-diretor executivo do FMI e ex-vice-presidente do Banco dos BRICS avaliou que o conflito altera o equilíbrio geopolítico internacional, enfraquece o império americano e pode abrir novas oportunidades para o Brasil.
Segundo ele, "essa guerra, a coisa mais importante do ponto de vista geopolítico, é que ela vai acelerar o declínio dos Estados Unidos como potência hegemônica".
Paulo Nogueira Batista Jr. afirmou que esse declínio já estava em curso, mas ganhou velocidade com o que classificou como um erro grave de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, ao seguir a orientação de Benjamin Netanyahu e atacar o Irã.
"Trump está prestando serviço à humanidade. Ele está enfraquecendo enormemente o império americano", disse.
Choque do petróleo e impacto sobre o Brasil
O economista explicou que a resposta iraniana ao ataque teve efeitos econômicos profundos, especialmente com o fechamento virtual do Estreito de Ormuz, por onde passava parcela relevante das exportações mundiais de petróleo e gás liquefeito.
Segundo Paulo Nogueira Batista Jr., a guerra provocou um choque de oferta de grande magnitude, pressionando os preços do petróleo, dos derivados, dos fertilizantes, dos alimentos e dos custos de transporte.
Apesar dos riscos inflacionários, ele destacou que o Brasil pode ser beneficiado no curto prazo por ser exportador líquido de petróleo e não depender do Estreito de Ormuz para escoar sua produção.
"O Brasil ganha porque se tornou, graças à Petrobras, graças ao pré-sal, um exportador líquido de petróleo em grande escala", afirmou.
De acordo com ele, o país pode se beneficiar tanto pela alta dos preços internacionais quanto pelo aumento da demanda por petróleo de países que não dependem da rota bloqueada.
Real valorizado e instrumentos contra a inflação
Paulo Nogueira Batista Jr. também afirmou que a valorização recente do real estaria ligada à percepção dos mercados internacionais de que o Brasil pode ganhar com o choque externo.
Ele reconheceu, porém, que a crise traz pressões sobre alimentos, fertilizantes e combustíveis.
Para conter os efeitos internos, o economista defendeu medidas como retirada de tributos sobre petróleo e derivados, crédito subsidiado a setores afetados, tributação sobre exportações brutas de petróleo e reforço na fiscalização de preços.
"É perfeitamente possível, no meu modo de ver, que o Brasil saia ganhando dessa crise, ainda que com um certo custo inflacionário", avaliou.
China, Rússia e a disputa pela hegemonia
Na entrevista, Paulo Nogueira Batista Jr. afirmou que a China é um alvo estratégico dos Estados Unidos. Segundo ele, a política americana de contenção da China não começou com Trump, mas atravessa governos democratas e republicanos.
O economista disse que Washington vê Pequim como a principal ameaça à sua posição hegemônica.
"Existe uma competição geopolítica em que os Estados Unidos gostariam de minar a China", afirmou.
Ele também avaliou que China e Rússia não estão apenas observando a guerra, mas ajudando o Irã com equipamentos, inteligência e tecnologia, por compreenderem que também são alvos da estratégia americana.
BRICS, Índia e desdolarização
Paulo Nogueira Batista Jr. fez críticas à atuação da Índia dentro dos BRICS, afirmando que o país, sob o governo de Narendra Modi, tornou-se um obstáculo a iniciativas mais ousadas do bloco.
Ele afirmou que a Índia mantém alianças fortes com Estados Unidos e Israel e atua contra medidas que possam ameaçar os interesses americanos ou o dólar.
"Hoje a Índia se comporta como uma espécie de cavalo de Troia, talvez, dentro dos BRICS", disse.
O economista também criticou a presidência brasileira dos BRICS em 2025, que classificou como tímida e de resultados praticamente nulos.
Sobre a desdolarização, ele afirmou que o processo já está avançando no comércio bilateral entre vários países, inclusive no comércio Brasil-China, mas ainda falta o passo mais importante: a criação de mecanismos plurilaterais alternativos ao dólar.
Pix e soberania financeira
Outro tema abordado foi o ataque de Trump ao Pix. Paulo Nogueira Batista Jr. afirmou que há um motivo econômico claro: o sistema brasileiro reduziu o espaço de bandeiras americanas como Mastercard e Visa no mercado nacional.
"O Pix é um sucesso brasileiro", disse.
Segundo ele, o sistema é mais eficiente do que mecanismos existentes na Europa e em outros países, e representa uma inovação importante da máquina do Banco Central.
Trump em uma enrascada
Ao avaliar os rumos da guerra, Paulo Nogueira Batista Jr. disse que Trump não tem saída fácil. Prosseguir no conflito prolongaria os efeitos políticos internos adversos, enquanto uma invasão terrestre do Irã seria extremamente difícil e custosa.
Ele afirmou que a guerra se tornou impopular nos Estados Unidos porque cresce a percepção de que se trata de uma guerra de Israel, e não dos americanos.
"Os Estados Unidos acompanharam a guerra que interessa a outro país", afirmou.
Para o economista, o lobby israelense tem forte influência sobre a política externa americana e subordina parte das decisões de Washington aos interesses de Israel.
Brasil precisa se defender
No encerramento, Paulo Nogueira Batista Jr. afirmou que os brasileiros estão mais interessados em geopolítica e que isso é fundamental para o país compreender seu papel no mundo.
Ele defendeu que o Brasil se prepare melhor para um cenário internacional marcado pela agressividade imperial dos Estados Unidos.
"O Brasil precisa se defender, se armar. Se armar para ter capacidade de se defender. Não contra os vizinhos, que nós não temos nenhum problema com os vizinhos, mas contra potências internacionais como os Estados Unidos", afirmou.
Segundo ele, a guerra no Oriente Médio dá ao Brasil um “tempo de respiro”, pois os Estados Unidos estão atolados na região e tendem a adiar planos imperiais na América Latina.

