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Varoufakis critica “imperialismo tradicional” de Trump e diz que ação contra a Venezuela legitima Putin e fragiliza a Europa

Ex-ministro grego afirma que presidente dos EUA abandonou o verniz “liberal” das guerras anteriores e empurra UE para o papel de vassala

Varoufakis: Brasil se tornou o prenúncio de um futuro distópico (Foto: REUTERS/Francois Lenoir)

247 – Em entrevista ao canal do professor Glenn Diesen no YouTube “Yanis Varoufakis: From Liberal Wars to Traditional Imperialism”, o economista e ex-ministro das Finanças da Grécia Yanis Varoufakis avaliou que a mais recente ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela marca uma transição simbólica e perigosa: a passagem das chamadas “guerras liberais”, justificadas com retórica democrática, para um imperialismo explícito, sem qualquer esforço de legitimação moral.

Logo no início da conversa, Varoufakis ironiza o efeito internacional do que descreve como uma ação de força liderada por Donald Trump — lembrando que Trump é o atual presidente dos Estados Unidos — e sustenta que o episódio funciona como um “presente” para Vladimir Putin ao normalizar a violação aberta do direito internacional.

A primeira coisa que pensei foi: ‘Meu Deus, Putin agora está no Kremlin tendo uma introdução maravilhosamente boa para 2026’”, disse Varoufakis, ao comentar a escalada contra a Venezuela. Na sequência, ele afirma que o gesto norte-americano reforça a lógica que Putin já aplicou na Ucrânia: “Putin simplesmente disse: ‘Eu quero a Ucrânia’. Então ele entrou lá para pegá-la. E é exatamente isso que Trump está fazendo”.

“Putinizar o Ocidente” e destruir o direito internacional

Para o economista, a mudança central não é que os EUA tenham passado a violar leis internacionais — segundo ele, isso ocorre “desde o século 19” —, mas sim o abandono do discurso que tentava “embrulhar” tais ações em justificativas democráticas.

Varoufakis compara Trump a Putin no método: a recusa da retórica liberal como disfarce. “O que mudou é que… presidentes americanos sempre foram muito empenhados em tentar encontrar alguma justificativa… embrulhar suas violações do direito internacional numa embalagem de respeitabilidade, de respeito pela democracia”, afirma. E acrescenta: “Trump está fazendo como Putin: ‘Eu só queria isso’”.

Na visão do ex-ministro grego, essa franqueza brutal tem um efeito devastador: legitima também outras investidas no tabuleiro global. Ele cita a possibilidade de que isso seja usado como argumento por potências como a China em relação a Taiwan. “É uma legitimação impressionante de qualquer movimento potencial da China para tomar Taiwan”, afirmou, entre risos.

Petróleo, Doutrina Monroe e… política interna dos EUA

Embora reconheça camadas estratégicas — como petróleo e a lógica da Doutrina Monroe — Varoufakis sustenta que o motivo central é doméstico: Trump estaria usando aventuras externas como instrumento de coesão política interna, especialmente diante do risco de fragmentação da base MAGA.

Se você colocar uma arma na minha cabeça e me pedir um motivo, é porque isso é o que Donald Trump entende como estratégia doméstica”, disse. Para ele, o maior perigo para Trump seria um racha interno no próprio movimento: “A maior ameaça a Donald Trump no momento é o cisma dentro do movimento MAGA… há uma divisão enorme ali”.

Varoufakis cita o conflito entre populistas ligados a Steve Bannon, setores neoconservadores ainda dentro do Partido Republicano e os “senhores da tecnologia”, como Elon Musk. E conclui: “Nada mantém uma base republicana mais unificada do que algum tipo de vitória militar rápida e suja no exterior”.

“Inundar a zona”: Venezuela para apagar Gaza, depois Groenlândia e Canadá

Um dos pontos mais fortes da entrevista é quando Varoufakis associa a escalada a uma tática de comunicação e domínio de agenda. Ele retoma a expressão de Steve Bannon — “flooding the zone” — para dizer que Trump cria sucessivas crises para ocupar o debate público e impedir que outras pautas ganhem espaço.

Ele entra em Gaza, reivindica como dele… cria um caos… e nós passamos a falar de Venezuela e não falamos de Gaza”, disse. Varoufakis descreve um padrão: “Acho que ele vai se mover para a Groenlândia… depois você vai fazer um movimento no Canadá… é o padrão”.

E completa: “Criar muito barulho para que ninguém mais tenha perspectiva. Acho que é isso que ele está fazendo”.

“Ele despreza a democracia liberal”: o fim do disfarce

Questionado sobre por que Trump não tenta seguir a linha europeia de “guerras liberais” (como Kosovo, quando se dizia “não é legal, mas é legítimo”), Varoufakis é direto: “Ele despreza a própria noção de democracia liberal”.

Na avaliação dele, esse discurso perdeu força após a destruição do Iraque e da Líbia. “A narrativa liberal-democrata foi totalmente desacreditada… você fala a palavra ‘democracia’ no Iraque e as pessoas se escondem debaixo da mesa porque acham que vão ser bombardeadas”, afirma.

Ele sustenta que Trump se apresenta como o herdeiro do “anti-hipocrisia”, oferecendo um cinismo que parte do público passa a interpretar como sinceridade política: “Ele vai ser honesto. Eles vão dizer que estou simplesmente pegando porque eu quero. Só isso”.

Europa humilhada: “hipocrisia, impotência e incompetência”

O diagnóstico de Varoufakis sobre a União Europeia é devastador. Segundo ele, a UE projeta hoje “a imagem da mais absoluta hipocrisia, incompetência e impotência”.

Hipocrisia, impotência e incompetência — essa tríade de desastres que se abateu sobre a União Europeia”, afirmou. Ele critica a ausência de condenação firme diante de ações que, segundo ele, normalizam a destruição do direito internacional.

E lembra que Trump nunca escondeu sua hostilidade ao bloco: “Donald Trump nunca perdeu uma oportunidade de dizer que odeia a União Europeia… que quer que ela seja desmembrada”. Ainda assim, diz ele, líderes europeus se comportam “como crianças diante do pai” e cita explicitamente: “Mark Rutte… chamou ele de ‘daddy’ e disse: ‘Daddy está certo’”.

A consequência, alerta, é uma Europa incapaz de reagir quando Trump ameaça avançar sobre territórios como a Groenlândia: “Se eu tomo a Venezuela, por que não posso tomar a Groenlândia? Por que não posso tomar a Escócia se eu quiser? Quem vai me impedir?

China e um mundo dividido em duas zonas

Ao contrário do que muitos imaginam, Varoufakis diz não ver a ofensiva contra a Venezuela como um golpe primariamente voltado contra a China. Para ele, Trump é “transacional” e pode preferir acordos a confrontos militares diretos com Pequim.

Podemos encontrar algum consolo no fato de que ele não parece interessado em intensificar as tensões com a China”, disse. E propõe uma leitura inquietante: Trump estaria sinalizando uma divisão do planeta em áreas de influência.

Estou feliz que você tenha sua esfera… eu vou ter controle completo sobre as Américas… a Europa se voluntaria para ser minha escrava, minha vassala… então vamos dividir o mundo em dois”, afirmou.

Ele admite que essa perspectiva é “terrível”, mas avalia que poderia reduzir o risco de confronto direto no Mar do Sul da China: “As chances de uma confrontação entre militares americanos e chineses estão recuando como resultado disso”.

Continuidade histórica: “mudança de estilo, não de substância”

Apesar da dramaticidade do momento, Varoufakis insiste que o fenômeno tem raízes profundas. O que Trump faz — segundo ele — não é novidade em termos históricos, e sim uma mudança de linguagem e de exposição.

O que Trump está fazendo é uma mudança de estilo, não de substância”, afirmou. Ele cita episódios de interferência norte-americana no Irã, no Chile e na própria Grécia, onde diz ter crescido sob uma ditadura “imposta pela CIA”.

O que seria novo, repete, é a ausência do verniz liberal: “O principal é que o véu liberal do imperialismo está sendo jogado fora”.

Um alerta: o mundo pós-1945 já terminou

Ao final, a entrevista se amplia para o pano de fundo histórico da economia global. Varoufakis observa que a erosão do modelo pós-1945 não começou com Trump nem com a Venezuela: começou, segundo ele, com a crise de 2008 e com um processo de desglobalização que chama de “tecnofeudalismo”.

Ele também relembra a ruptura de 1971, quando Richard Nixon desmontou unilateralmente o sistema de Bretton Woods, impondo um regime de hegemonia sustentado por déficits e pelo papel central do dólar.

Para Varoufakis, os EUA sobrevivem como potência dominante não porque mantêm um sistema estável, mas porque periodicamente “viram a mesa” e criam uma nova ordem funcional aos seus interesses: “A única forma de um país cuja produção industrial é uma porção decrescente da produção global continuar no controle é derrubando continuamente o sistema que ele mesmo criou e estabelecendo outro”.

Uma entrevista que ecoa o debate sobre soberania na América Latina

Ao colocar a Venezuela no centro, Varoufakis reabre uma discussão clássica para a América Latina: soberania, recursos naturais, pressões externas e o custo humano das intervenções. Ele também expõe, com crueza, como as disputas imperiais podem ser instrumentalizadas para fins domésticos — e como a Europa, sem projeto autônomo, tende a ser tragada pela lógica do poder.

A entrevista ainda levanta uma dimensão adicional: se o direito internacional já vinha sendo corroído há décadas, a ruptura aberta com qualquer disfarce pode acelerar um cenário de mundo fraturado, com “zonas” de influência e regras cada vez mais ditadas pela força.

Em resumo, Varoufakis não descreve apenas um episódio: ele aponta um método — e alerta para suas consequências. E faz isso com uma frase que sintetiza seu diagnóstico sobre a era Trump: “É colonialismo. Não há outra palavra melhor”.

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