"Até reis tinham mais controle do que Trump", diz Jeffrey Sachs
Economista afirma que a democracia acabou nos Estados Unidos, denuncia “guerra” contra a Venezuela e diz que não há mais ordem constitucional no país
247 – O economista Jeffrey Sachs afirmou que os Estados Unidos atravessam um colapso institucional tão profundo que já não é possível falar em ordem constitucional, com um presidente operando sem freios e sem qualquer controle efetivo do Congresso. Em entrevista ao juiz Andrew Napolitano, no programa Judging Freedom, Sachs também classificou como “guerra” o que chamou de ofensiva do governo de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, contra a Venezuela, denunciando uma violação grave e deliberada da Carta das Nações Unidas e da própria Constituição norte-americana.
A entrevista foi ao ar no YouTube do Judging Freedom na segunda-feira, 5 de janeiro de 2026, e ocorre após um fim de semana marcado por escalada de tensão envolvendo a Venezuela. Napolitano abre o diálogo com uma pergunta direta: como o governo dos EUA poderia justificar o que aconteceu “sob o direito internacional, sob a lei americana ou sob a Constituição dos Estados Unidos”? Sachs responde de forma categórica: “Na minha visão, não pode.”
“Isto é uma guerra”, afirma Sachs sobre a ação contra a Venezuela
Sachs sustenta que o episódio deve ser tratado com precisão, sem eufemismos.
“Isto é uma guerra. Os Estados Unidos lançaram uma guerra para comandar a Venezuela.”
Na avaliação do economista, a decisão teria sido tomada por Trump sem participação do Congresso, o que caracterizaria uma ruptura direta da arquitetura constitucional dos EUA.
“Na Constituição americana, apenas o Congresso tem o poder de declarar guerra. O Congresso não teve nenhum papel nisso.”
Ele afirma que o presidente teria agido por “ordem pessoal” e que nem monarquias do passado operavam com tamanho grau de arbitrariedade.
“O presidente Trump fez isso por ordem pessoal. Até reis no passado tinham mais controle e fiscalização do que o nosso presidente tem.”
“Não estamos mais em uma ordem constitucional”, diz o economista
A fala mais contundente de Sachs aparece quando ele descreve a crise política interna dos EUA como um processo de degradação que agora teria chegado ao ponto de ruptura.
“Não estamos em uma ordem constitucional sob a Constituição dos EUA.”
Em seguida, ele amplia o diagnóstico, descrevendo o Congresso como uma instituição praticamente inexistente diante da escalada militar decidida pelo Executivo.
“Chegou a um ponto em que, para todos os fins e propósitos, o Congresso não existe. Não há controles sobre o presidente.”
Sachs afirma que a ausência de freios institucionais não é recente, mas que teria se agravado a um nível extremo, configurando uma quebra do pacto democrático.
Carta da ONU e tratados: “violação grosseira do direito internacional”
Ao relatar que estava prestando depoimento no Conselho de Segurança da ONU, Sachs diz que o caso representa uma violação grave do direito internacional e das obrigações legais assumidas pelos próprios Estados Unidos.
“Isto é uma violação grosseira, imprudente e perigosa da Carta da ONU, do direito internacional, e como você disse, da lei americana e da Constituição americana.”
Ele explica que os EUA ratificaram a Carta da ONU em julho de 1945 e que o texto é explícito ao proibir ameaça ou uso da força contra a integridade territorial e a soberania de qualquer país.
“A Carta da ONU é absolutamente clara no artigo 2, seção 4: nenhum país pode usar força ou mesmo ameaça de força contra outro país que prejudique sua integridade territorial ou sua independência soberana.”
A conclusão de Sachs é que Trump e o governo norte-americano teriam feito exatamente o que o tratado proíbe.
“E, no entanto, o presidente Trump e o governo dos EUA fizeram exatamente isso.”
Bombardeios sem autorização e ameaça a vários países
Sachs afirma que a ofensiva contra a Venezuela se insere em um padrão mais amplo, marcado por ataques militares sem autorização do Congresso e sem respaldo da ONU.
“Os Estados Unidos bombardearam sete países no último ano. Nenhum deles teve autorização do Congresso, pelo que eu me lembro. Nenhum.”
Ele também relata que Trump teria ameaçado países com uso direto de força, citando Venezuela, Irã, Nigéria, México, Dinamarca e Colômbia, e acrescentando Cuba à lista após a lembrança do entrevistador.
“O mundo vê os Estados Unidos como um Estado fora da lei”
Napolitano pergunta se os EUA passaram a ser vistos como um “rogue state”, um Estado fora da lei que usa força bruta para impor hegemonia e capturar riquezas. Sachs responde dizendo que essa é a visão predominante no planeta.
“Essa é a visão predominante ao redor do mundo. Eu diria que é quase universal, se não universal.”
Ele observa que alguns países aplaudiriam esse comportamento, mas afirma que, para a maioria, Washington se tornou sinônimo de ilegalidade.
Sachs menciona ainda a existência de países que, por dependerem do poder militar e político dos EUA, evitariam criticar abertamente Washington.
“Há um número de Estados vassalos que não ousam dizer o que pensam, e eu colocaria a maior parte da Europa nessa categoria.”
Venezuela como “colônia” e o objetivo seria o petróleo
Em um trecho central, Napolitano relata a fala de uma autoridade venezuelana que teria afirmado: “Nós não somos colônia de ninguém.” O entrevistador diz que, pelas declarações de Trump, a impressão é de que a Venezuela seria tratada como colônia dos EUA. Sachs responde dizendo que o objetivo real seria econômico e estratégico.
“O que Trump quer, num sentido operacional, é controle sobre o petróleo da Venezuela.”
Ele afirma que a Casa Branca apostaria em coerção total — incluindo bloqueios, ameaças e operações encobertas — para controlar o destino do país.
“A teoria na Casa Branca é que, pela força, quarentenas, ameaças de mais força, ações encobertas, talvez assassinatos… eles podem determinar o que a Venezuela fará.”
Segundo Sachs, a meta seria transferir ativos venezuelanos a grandes corporações, citando empresas diretamente.
“Que a Venezuela entregará seus ativos à ExxonMobil, à Chevron e a quem mais Donald Trump e seu círculo queiram enriquecer.”
Ele acrescenta que, de acordo com notícias que ouviu, ações da Chevron teriam subido antes da abertura do mercado após os acontecimentos.
“Mudanças de regime raramente funcionam e geram caos”
Sachs afirma não acreditar que Trump consiga atingir o objetivo declarado ou implícito de comandar a Venezuela. Para ele, operações de mudança de regime fracassam na maioria das vezes e deixam um legado de instabilidade prolongada.
“A experiência típica de operações de mudança de regime é que elas não funcionam… Elas muito raramente alcançam esses fins.”
O resultado, segundo o economista, costuma ser um cenário permanente de desordem.
“Tipicamente, o resultado é caos contínuo.”
A escalada na Venezuela como sintoma de um colapso mais amplo
Na avaliação de Sachs, o episódio não se limita à Venezuela. Ele é apresentado como um símbolo do colapso do direito internacional e da erosão democrática interna, com o presidente dos Estados Unidos operando sem limites legais.
Ao final, Napolitano agradece e diz esperar que Sachs volte ao programa ao longo da semana, à medida que surgirem novas informações sobre o que foi feito e quais seriam os próximos passos do governo norte-americano.
“Vamos fazer isso.” responde Sachs, encerrando a entrevista.


