Jeffrey Sachs denuncia “fim da ordem constitucional” nos Estados Unidos após agressão à Venezuela
Economista afirma que sequestro de Maduro pode abrir período de instabilidade prolongada na América Latina
247 – O economista Jeffrey Sachs afirmou que a ação dos Estados Unidos contra a Venezuela — incluindo a captura do presidente Nicolás Maduro — representa um “ato escancaradamente ilegal” e um marco grave do que ele descreve como a transformação dos EUA em um “Estado militar” que já não respeita limites constitucionais. As declarações foram feitas em entrevista ao professor Glenn Diesen.
Logo no início da conversa, Sachs classifica o episódio como uma agressão direta e sem provocação: “Isso foi um ataque de fato sem provocação, um ataque ilegal também”. Para ele, a prisão do presidente venezuelano — que parte da mídia norte-americana chama de “captura” ou “prisão” — deve ser entendida como parte de uma longa sequência de intervenções dos EUA no mundo, agora intensificadas sob o governo de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos.
“Ato ilegal” e sequência de ameaças diárias
Sachs argumenta que a ofensiva contra a Venezuela não é um episódio isolado, mas o auge de uma escalada recente de ameaças e ações militares. “Trump tem ameaçado um novo país todos os dias”, disse, enumerando medidas que, segundo ele, incluem bombardeios, ameaças de intervenção e até declarações expansionistas.
Ele descreve um cenário em que decisões estratégicas são tomadas sem qualquer controle institucional: “Nós não estamos em uma ordem constitucional nos Estados Unidos. Estamos em uma ordem liderada por um Estado militar”. E acrescenta que o país opera “por decreto executivo”, enquanto o Congresso, na prática, estaria ausente: “Nosso Congresso é mais abundante. Ele não existe, de fato, em qualquer sentido operacional”.
Sachs também critica o comportamento da grande imprensa norte-americana diante da crise. Segundo ele, não haveria sequer questionamento sobre a legalidade ou o risco de uma invasão. O economista menciona diretamente o jornal The New York Times, que, de acordo com sua avaliação, teria mantido silêncio editorial diante do episódio.
Europa “patética” e a crise do direito internacional
Outro ponto central da entrevista é a reação europeia. Sachs afirma que os líderes do continente, ao apoiarem a narrativa de ilegitimidade do governo Maduro e alinharem-se aos EUA, demonstraram submissão política. “A resposta europeia tem sido patética. Absolutamente patética”, declarou.
Em tom ainda mais duro, ele diz que instituições e governos que antes defendiam o direito internacional hoje se mostram incapazes de reagir a uma violação direta da Carta da ONU. “Não há diplomacia, não há paz e não há apego ao multilateralismo ou à Carta da ONU. Você não vê isso em lugar nenhum”, afirmou.
Sachs chega a comparar o atual enfraquecimento da ONU ao colapso da Liga das Nações antes da Segunda Guerra Mundial. “A ONU está na mesma situação hoje que a Liga das Nações esteve em seu período defunto no fim dos anos 1930 e início dos anos 1940. Ela é essencialmente inútil agora”, disse, lamentando a condição da organização, à qual afirma ter dedicado 25 anos de trabalho.
A disputa pelo petróleo e a lógica imperial
Ao analisar os objetivos dos EUA, Sachs foi direto: a ofensiva teria como motor a disputa por recursos, em especial o petróleo. Ele afirmou ter visto relatos de que Trump teria dito algo como “o petróleo é nosso”, apontando a invasão como uma tentativa explícita de controle energético. “Isso é uma tomada do petróleo venezuelano”, declarou. “Ele disse que nossas empresas voltarão e farão negócios na Venezuela. Não poderia ser mais grosseiro”.
Na entrevista, Sachs reforça que a Venezuela é um alvo histórico da política externa norte-americana justamente por defender soberania sobre seus recursos. “Venezuela acredita que seus recursos pertencem à Venezuela e que ela não precisa seguir os ditames dos EUA sobre quem controla o petróleo”, afirmou, apontando essa tensão como o eixo de mais de duas décadas de tentativas de mudança de regime.
Ele lembra que os EUA tentam derrubar governos venezuelanos “há 23 anos”, citando a tentativa de golpe contra Hugo Chávez e reiterando que a ideia de uma invasão já vinha sendo discutida desde o primeiro mandato de Trump. “Em 2017, no primeiro ano do mandato, ele disse a líderes latino-americanos num jantar: ‘Por que eu não invado a Venezuela?’”, contou Sachs, dizendo ter ouvido a história de dois presidentes presentes ao encontro.
Marco Rubio e “projeto de longo prazo” contra Caracas
Sachs também atribui papel central ao atual secretário de Estado, Marco Rubio, apontado como “líder cheerleader” das pressões por uma intervenção. “O principal incentivador de invadir a Venezuela foi o senador Marco Rubio e agora secretário de Estado Marco Rubio”, afirmou.
O economista diz que esse tipo de operação é planejado como “projeto de longo prazo”, sustentado por narrativas variáveis conforme a conveniência política. “A política externa dos EUA opera no longo prazo e conta quaisquer mentiras, histórias ou narrativas que queira contar a qualquer momento para manter a narrativa de longo prazo”, declarou.
Ele cita justificativas apresentadas para legitimar a ofensiva, como acusações de “narcoterrorismo” e alegações de presença de diversos atores internacionais na Venezuela. Para Sachs, essas justificativas não passam de improvisos. “Todas as explicações dadas são blá, blá, blá”, disse. “É qualquer piada ou improvisação que os Estados Unidos queiram usar no momento”.
“Fim da ordem constitucional” e analogia com Roma
Um dos trechos mais incisivos da entrevista ocorre quando Sachs afirma que os Estados Unidos já entraram em um período “pós-constitucional”, comparando a situação ao colapso da República Romana. “Eu diria que estamos em algum ponto do reinado de Tibério agora”, disse, sugerindo que a transição para um modelo autoritário já ocorreu, embora a aparência institucional permaneça.
Ele descreve um presidente que “enriquece a si mesmo e aos seus amigos”, governa por decretos e conduz guerras sem debate público. “Estamos em uma ordem pós-constitucional nos Estados Unidos”, afirmou. Para ele, esse cenário torna o mundo “extraordinariamente perigoso”, sobretudo no contexto nuclear.
Venezuela: instabilidade, armas e risco de guerra civil
Apesar do impacto do sequestro de Maduro, Sachs considera improvável que isso, por si só, derrube o regime. “Isso foi uma decapitação de um presidente e de sua esposa, não do regime”, disse. “É difícil ver como o regime cai por isso em si”.
Ele alerta para o risco de o país mergulhar em um ciclo prolongado de violência. “A história dessas operações é que elas são seguidas por longos períodos de agitação, golpes, instabilidade, insurreições, guerra civil”, afirmou, sugerindo que a Venezuela pode entrar em um cenário semelhante.
Sachs também enfatiza que a Venezuela não é um alvo simples. “Há um governo em vigor. Há um Exército. Há uma parte mobilizada da sociedade. Há muitas armas por aí”, afirmou. “Isso não é uma tomada simples e suave pelos Estados Unidos, por mais que Donald Trump possa acreditar”.
O mundo diante do “contágio” da ilegalidade
Nos minutos finais, Sachs amplia o alerta para uma deterioração global. Ele diz que a “ilegalidade completa” pode ter efeito contagioso e abrir caminho para novos ataques, especialmente contra o Irã. “Se isso for seguido por violência dentro da Venezuela e um ataque de Israel ao Irã, então estaremos realmente caminhando para uma explosão potencial completa e um desastre”, advertiu.
Sachs sustenta que o problema não é apenas a Venezuela, mas a consolidação de uma prática imperial sem freios. “A rasgação da Carta da ONU pelos EUA não leva a bons resultados”, afirmou, pedindo uma reação internacional mais firme — ainda que admita que, até o momento, não vê mobilização efetiva.
Ao encerrar, o economista volta ao diagnóstico central da entrevista: a ação contra a Venezuela seria apenas mais um capítulo de um padrão histórico de intervenções, agora agravado por um governo que, segundo ele, opera sem limites constitucionais e sem respeito ao direito internacional. “Quando vemos Ucrânia e Venezuela, estamos vendo o mesmo fenômeno: projetos de longo prazo do aspirante a hegemon global, realizados de maneiras diferentes”, afirmou.


