Apple aumenta preços de MacBooks e iPads em meio à disparada global dos chips de memória
Demanda de data centers de inteligência artificial pressiona oferta de componentes e encarece eletrônicos em todo o mundo
247 – A Apple anunciou aumento nos preços de MacBooks, iPads e outros produtos, em meio à disparada dos custos de chips de memória e armazenamento provocada pela expansão acelerada de data centers voltados à inteligência artificial. A informação foi divulgada pela agência Reuters, em reportagem assinada por Stephen Nellis, em San Francisco, e Aditya Soni, em Bengaluru.
A decisão mostra que nem mesmo a empresa de eletrônicos de consumo mais valiosa do mundo, conhecida por sua força na cadeia global de fornecedores, conseguiu se proteger integralmente da escalada de preços dos componentes. O reajuste não atinge, por ora, o iPhone, principal fonte de receita da companhia, mas afeta linhas importantes como MacBook, iPad, HomePod e Apple TV.
O impacto mais simbólico aparece no MacBook Neo, laptop de entrada lançado pela Apple com o objetivo de disputar mercado com notebooks Windows mais baratos e Chromebooks. O preço inicial do modelo subiu de US$ 599 para US$ 699, meses após o lançamento.
Em comunicado, a Apple afirmou que chegou ao limite de sua capacidade de absorver os aumentos de custo. “Nunca vimos um aumento de preço de componentes tão grande, tão rapidamente”, disse a empresa. “Até agora, protegemos nossos clientes desses aumentos, mas chegamos a um ponto em que precisamos começar a elevar os preços de vários produtos, incluindo os aumentos de hoje para iPad e Mac.”
MacBooks e iPads ficam mais caros
Segundo os preços atualizados no site da Apple, o MacBook Air com 512 gigabytes de armazenamento passou de US$ 1.099 para US$ 1.299. Já o MacBook Pro com 1 terabyte de armazenamento subiu de US$ 1.699 para US$ 1.999.
No caso dos tablets, o iPad Air com 128 gigabytes de armazenamento aumentou de US$ 599 para US$ 749. A empresa também elevou os preços das duas versões do HomePod, sua caixa de som inteligente, e da Apple TV, dispositivo usado para streaming e integração com o ecossistema da marca.
A reação do mercado foi negativa. As ações da Apple caíram quase 5% após o anúncio, enquanto os papéis da Dell recuaram mais de 8%. Analistas avaliam que fabricantes rivais podem ser obrigados a realizar aumentos ainda mais fortes, já que a Apple conta com contratos e relações de fornecimento mais robustas do que a maior parte da indústria.
Alta da memória pressiona toda a indústria de eletrônicos
A origem do problema está na disputa por chips de memória, especialmente os usados em equipamentos de inteligência artificial. Fabricantes como a Micron têm priorizado encomendas de empresas ligadas ao setor de IA, incluindo a Nvidia, que depende de grande volume desses componentes para abastecer data centers e sistemas avançados de processamento.
Esse movimento tem favorecido os produtores de memória, que vêm registrando lucros recordes, mas reduziu a oferta disponível para fabricantes de smartphones, computadores e outros dispositivos eletrônicos.
“O ambiente de memória é difícil e permanece estruturalmente difícil no futuro previsível”, afirmou Ben Bajarin, CEO da consultoria de tecnologia Creative Strategies, à Reuters.
A Apple já havia sinalizado, em abril, que seus estoques ajudaram a preservar margens acima das expectativas de Wall Street, mas que a alta dos custos começaria a afetar mais fortemente a companhia a partir do fim de junho.
“Esperamos custos de memória significativamente mais altos”, disse o CEO Tim Cook, em teleconferência com analistas no fim de abril. “Embora não forneçamos detalhes além de junho, posso dizer que, depois do trimestre de junho, acreditamos que os custos de memória terão um impacto crescente sobre os nossos negócios.”
Demanda por inteligência artificial encarece computadores e tablets
De acordo com a Reuters, os preços da memória dinâmica de acesso aleatório, conhecida como DRAM e presente praticamente em todos os aparelhos tecnológicos modernos, subiram até 98% no primeiro trimestre de 2026. A consultoria TrendForce projeta novo salto de 58% a 63% no trimestre atual.
A escalada já vem sendo chamada por alguns especialistas de “RAMageddon”, numa referência ao impacto da alta da memória RAM sobre toda a indústria. O fenômeno é impulsionado pela corrida global por infraestrutura de inteligência artificial, com empresas como Nvidia fechando contratos de longo prazo para garantir fornecimento.
A Micron informou na quarta-feira que já assegurou US$ 22 bilhões em compromissos de longo prazo com clientes interessados em reservar capacidade de produção de memória.
No comunicado desta quinta-feira, a Apple reconheceu o desconforto causado pelos reajustes. “Sabemos que esta não é uma notícia bem-vinda, e estamos trabalhando incansavelmente para encontrar soluções”, afirmou a empresa.
iPhone pode ser o próximo afetado
Embora o iPhone não tenha sido incluído nesta rodada de aumentos, analistas ouvidos pela Reuters acreditam que o smartphone da Apple poderá ser atingido nos próximos meses. A expectativa é que a companhia tente separar o anúncio dos reajustes da apresentação dos novos modelos, prevista para o outono no hemisfério norte.
“O iPhone não está poupado; o aumento dele está chegando”, afirmou Nabila Popal, diretora sênior de pesquisa da IDC. “Foi incrivelmente estratégico para a Apple fazer os anúncios de aumento de preços antes do lançamento do iPhone no outono, para que as manchetes no lançamento não sejam sobre os reajustes, mas sobre o valor que os novos telefones oferecem.”
A alta dos custos de memória deve pesar sobre as vendas globais de eletrônicos em 2026. A IDC estima que o mercado de smartphones poderá registrar a maior queda anual de sua história, com recuo de quase 14%. O mercado de PCs também deve encolher 11,3%.
MacBook Neo perde vantagem competitiva
Um dos pontos de maior atenção é o efeito do reajuste sobre o MacBook Neo. Lançado em março, o modelo vinha sendo apontado como um dos destaques positivos da Apple e ajudou a sustentar as projeções de vendas da empresa para o trimestre encerrado em junho.
Com o novo preço de US$ 699, porém, o MacBook Neo perde a vantagem de US$ 100 que tinha em relação ao XPS 13, laptop da Dell apresentado no mês passado justamente para competir com o modelo da Apple. O reajuste também torna o notebook mais caro do que alguns Chromebooks vendidos por marcas como Lenovo e Asus.
O movimento da Apple reforça uma tendência mais ampla: a inteligência artificial, ao impulsionar uma corrida global por data centers e chips especializados, começa a encarecer também produtos de consumo tradicionais, como notebooks, tablets e dispositivos domésticos conectados.
Para consumidores, o efeito imediato é a pressão sobre os preços. Para fabricantes, o desafio será equilibrar margens de lucro, competitividade e demanda num ambiente em que componentes essenciais se tornaram mais caros e disputados.



