Com dificuldade para fazer amizades, adolescentes transformam IA em companhia no Brasil
Estudo aponta que 19% dos jovens usam inteligência artificial como companhia, enquanto 52% relatam dificuldade para criar novos vínculos
247 - Quase um em cada cinco adolescentes brasileiros já recorre à inteligência artificial como companhia quando se sente sozinho ou precisa conversar, em um cenário marcado por dificuldades para criar novas amizades e fortalecer vínculos sociais. O dado aparece em pesquisa da Arco Educação com 936 estudantes da rede privada, do 6º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio, informa o jornal O Globo.
O levantamento indica que 52% dos adolescentes afirmam ter alguma ou muita dificuldade para fazer novas amizades. Outros 17% dizem sentir solidão com frequência. Para os pesquisadores, os dados revelam um quadro de isolamento emocional entre jovens, especialmente diante da dificuldade de aprofundar relações ou ampliar círculos de convivência.
A pesquisa aponta que 19% dos estudantes já usaram ferramentas de IA como forma de companhia. O fenômeno preocupa especialistas porque a tecnologia, embora seja responsiva e acessível, não oferece a complexidade das relações humanas, marcada por divergências, escuta, negociação, empatia e reciprocidade.
“Há um deslocamento das relações humanas entre adolescentes, que desenvolvem um maior apego e relações de confiança com ferramentas de IA do que com pessoas. Isso reduz o engajamento em relações interpessoais e pode, inclusive, aumentar a sensação de solidão”, afirmou Francila Novaes, gerente de estratégia pedagógica socioemocional da Arco Educação e líder do estudo.

IA não substitui relações humanas, alerta especialista
Segundo Francila Novaes, uma ferramenta de inteligência artificial tende a responder sem atrito, o que pode tornar a interação mais confortável para o adolescente. O problema, segundo ela, é que esse tipo de relação não reproduz as experiências fundamentais para o amadurecimento emocional e social.
A especialista afirma que a convivência com outras pessoas envolve lidar com conflitos, frustrações, diferenças de opinião e situações de reciprocidade. Esses elementos são essenciais para desenvolver habilidades como autorregulação, comunicação, escuta e empatia.
“Em outras palavras: aprender a lidar com um amigo de mau humor, com mal-entendidos e com reciprocidade é parte do crescimento e é mais difícil do que conversar com uma ferramenta que tende a concordar e bajular o usuário”, disse Novaes.
O estudo também comparou os dados brasileiros com a escala global de solidão da Universidade da Califórnia em Los Angeles, a UCLA. Os estudantes avaliados no Brasil ficaram no limite superior da faixa considerada “moderada”, muito próximos da classificação “moderadamente alta”.
Um dos indicadores que mais chamaram a atenção foi a dificuldade para renovar ou ampliar o círculo de amizades. No Brasil, 28,7% dos estudantes disseram “sempre” sentir dificuldade para fazer novos amigos. Em outros países, segundo a comparação apresentada no levantamento, o percentual de jovens com o mesmo problema não passa de 25%.
Meninas relatam mais solidão e usam mais IA como companhia
A pesquisa identificou diferenças relevantes entre meninos e meninas. Entre as estudantes, 33,4% relataram dificuldade para formar amizades, contra 20,1% dos meninos. A sensação de distância social também foi maior entre elas: 23,8%, diante de 11,8% entre eles.
As meninas também aparecem como o grupo que mais conversa com inteligências artificiais por solidão. O índice é de 23,8% entre elas, enquanto entre os meninos fica em 12,3%.
O tema já preocupa famílias com crianças e adolescentes em fase de crescimento. Psicóloga e mãe de um menino de 9 anos, Kathlin Coelho afirmou que não permite que o filho acesse sozinho esse tipo de ferramenta.
“A IA responde, e as pessoas têm a falsa ilusão de que estão sendo correspondidas. Não deixo meu filho acessar sozinho essa ferramenta. Se adultos estão tendo problemas com isso, imagine o potencial danoso para crianças”, afirmou Coelho.
O levantamento também analisou o grupo de estudantes que preferiu não declarar gênero, equivalente a 4,9% dos entrevistados. Segundo o estudo, esse recorte apresentou um perfil de maior vulnerabilidade: 50% relataram passividade social, esperando que outras pessoas os procurem para formar vínculos, e 39% disseram sentir solidão frequente. Apenas 28% afirmaram se sentir queridos pelas pessoas ao redor.
Isolamento cresce no ensino médio
A sensação de solidão se intensifica entre estudantes do ensino médio, segundo a pesquisa. O índice de solidão frequente passa de 16% nos anos finais do ensino fundamental para 25,7% na etapa seguinte.
Outro dado destacado pelos pesquisadores mostra que 32% dos adolescentes entrevistados sentem que as pessoas raramente ou nunca demonstram interesse pelo que eles dizem. Ao mesmo tempo, o estudo registra um ponto positivo: 65% dos jovens afirmam ser tratados com respeito e gentileza pelos colegas de classe na maior parte do tempo ou sempre.
Para os responsáveis pelo levantamento, o conjunto de dados sugere que o problema central não está apenas na ausência total de convivência, mas na fragilidade dos vínculos e na dificuldade de estabelecer relações mais profundas e constantes.
Educação socioemocional reduz indicadores de solidão
A pesquisa aponta que programas estruturados de educação socioemocional podem atuar como fator de proteção para a saúde mental dos adolescentes. Entre as escolas avaliadas, aquelas que adotam iniciativas desse tipo tiveram desempenho melhor em cinco das dez dimensões analisadas.
Segundo o levantamento, 41,3% dos entrevistados estudam em colégios com programas ativos de educação socioemocional. Nessas instituições, houve redução de 5,3 pontos percentuais no sentimento de falta de pertencimento e queda de 2,8 pontos percentuais na solidão frequente.
Já as escolas sem projetos estruturados nessa área apresentaram os maiores índices de falta de pertencimento, com 21,1%, e o uso mais elevado de IA como refúgio social, chegando a 20%.
Uma das instituições que adotam esse tipo de programa é o colégio Educar Guarulhos, em São Paulo. Para Renata Batista, diretora da escola, o acolhimento e o sentimento de pertencimento são fundamentais para o aprendizado.
“Aprendizagem acontece de forma mais significativa quando o estudante se sente acolhido, respeitado e pertencente ao ambiente escolar”, afirmou Batista.
“Por isso, promovemos, em nossa rotina, momentos de escuta, acompanhamento individual, mediação de conflitos, programas de convivência e ações que desenvolvem a empatia, a autonomia e o protagonismo. Buscamos olhar para cada estudante de forma integral, considerando não apenas seu desempenho acadêmico, mas também seu desenvolvimento emocional e social”, disse a diretora.
Famílias devem tratar IA como ferramenta, não como amiga
Francila Novaes afirma que o diálogo permanente é a melhor estratégia para famílias lidarem com o uso da IA por adolescentes. Segundo ela, proibir ou vigiar pode não produzir os efeitos esperados.
“Proibir e espionar podem não gerar os resultados esperados. É importante que as famílias conversem sobre o uso da IA sem julgamento, ajudando os adolescentes a perceberem que as IAs são programadas para concordar e não substituem amigos reais com pontos de vista divergentes e genuínos”, afirmou.
Para a especialista, a recomendação mais consistente é tratar a inteligência artificial como uma ferramenta, e não como um amigo. O uso deve ser acompanhado por famílias e escolas, com limites e regras, mas também com abertura para conversa e negociação com os adolescentes.
“É importante não tratar a ferramenta como um suporte de apoio às questões de saúde mental. Ao observar sinais de alertas é importante consultar um profissional de saúde especializado”, reforçou Novaes.



