Greenwald diz que Trump atua a serviço de Israel
Jornalista afirma que ofensiva contra o Irã atende a interesses de Netanyahu e do neoconservadorismo
247 – O jornalista Glenn Greenwald afirmou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, atua a serviço de Israel ao lançar uma nova guerra de mudança de regime contra o Irã, em ofensiva conjunta com o governo de Benjamin Netanyahu. A análise foi publicada por Greenwald em seu site, onde ele sustenta que a escalada militar concretiza um antigo objetivo do primeiro-ministro israelense e de setores neoconservadores norte-americanos.
Segundo Greenwald, “por décadas, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e os neoconservadores americanos sonharam com apenas um objetivo de política externa: fazer com que os Estados Unidos travassem uma guerra de mudança de regime contra o Irã”. Para ele, com Trump na Casa Branca, esse plano “finalmente foi realizado”.
Bombardeios e retórica de guerra
Na madrugada de sábado, Estados Unidos e Israel iniciaram uma campanha de bombardeios de grande escala contra Teerã e outras cidades iranianas. Trump divulgou nas redes sociais um pronunciamento de oito minutos para justificar a operação, chamada “Operation Epic Fury”.
De acordo com Greenwald, o discurso repetiu argumentos tradicionais da política externa dos EUA, classificando o Irã como patrocinador do “terror”, acusando-o de buscar armas nucleares e relembrando a crise dos reféns de 1979. O presidente também resgatou a expressão “Eixo do Mal”, cunhada no governo George W. Bush no início da chamada Guerra ao Terror.
Trump declarou que o governo iraniano está determinado a “praticar o mal”, ecoando a formulação utilizada por Bush em 2002 ao se referir a Iraque, Irã e Coreia do Norte como parte de um “eixo do mal”.
Guerra ampla e mudança de regime
Greenwald sustenta que a nova ofensiva não se limita a ataques pontuais contra instalações nucleares. Segundo ele, trata-se de uma missão “massiva e contínua” de destruição e mudança de regime contra um país de 93 milhões de habitantes — quase quatro vezes a população do Iraque quando os Estados Unidos iniciaram a invasão de 2003.
O jornalista observa que, apenas oito meses antes, Trump havia afirmado ter “completamente e totalmente obliterado” o programa nuclear iraniano em outra operação militar. Agora, segundo Greenwald, o presidente sustenta que o Irã teria retomado suas atividades nucleares, sem detalhar evidências.
No novo anúncio de guerra, Trump prometeu “obliterar totalmente” o programa de mísseis balísticos iraniano e “aniquilar” a Marinha do país. Dirigindo-se aos iranianos, declarou: “a hora da sua liberdade está próxima… bombas estarão caindo por toda parte”.
Risco de baixas e ausência de estratégia clara
Trump também admitiu a possibilidade de mortes de militares norte-americanos. “As vidas de corajosos heróis americanos podem ser perdidas; podemos ter baixas”, afirmou, acrescentando que a morte em massa de soldados “frequentemente acontece na guerra”.
Para Greenwald, a ofensiva foi iniciada sem uma declaração clara de objetivos estratégicos nem plano de saída. Ele também ressalta que não houve autorização formal do Congresso, apesar de a Constituição dos Estados Unidos atribuir ao Legislativo o poder de declarar guerra.
O jornalista destaca que o ministro das Relações Exteriores do Irã, Seyed Abbas Araghchi, declarou recentemente: “O Irã, sob nenhuma circunstância, jamais desenvolverá uma arma nuclear”, contrariando a alegação de Trump de que Teerã se recusaria a assumir tal compromisso.
Escalada regional e consequências imprevisíveis
Após o início dos bombardeios, o Irã lançou mísseis balísticos contra Israel e atacou bases militares dos EUA nos Emirados Árabes Unidos, Catar, Bahrein e Kuwait. Greenwald afirma que as consequências do conflito são imprevisíveis e podem gerar um vácuo de poder em uma das regiões mais instáveis do planeta, exigindo presença militar prolongada dos Estados Unidos.
Ele lembra que o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair reconheceu que a invasão do Iraque contribuiu para o surgimento do grupo Estado Islâmico (ISIS), como exemplo de efeitos colaterais de intervenções militares.
Promessas de campanha e acusação de fraude política
Greenwald afirma que a nova guerra contradiz o discurso que Trump sustentou por mais de uma década contra guerras de mudança de regime e contra o neoconservadorismo. Durante a campanha de 2024, aliados como Tulsi Gabbard declararam que “um voto em Donald Trump é um voto para acabar com guerras, não iniciá-las”.
Segundo o jornalista, além da imigração, o compromisso de não iniciar novas guerras foi central na ascensão política de Trump. Ele também recorda que o presidente havia criticado o acordo nuclear firmado pelo governo Obama com o Irã — posteriormente abandonado por Trump em 2018.
Greenwald sustenta que não houve ataque iminente do Irã contra o território norte-americano e classifica o conflito como uma “guerra de escolha”. Ele observa que, ao contrário da campanha pública que antecedeu a invasão do Iraque em 2003, não houve esforço significativo para convencer a população dos EUA sobre a necessidade da nova guerra.
Apoio de setores pró-Israel
O jornalista aponta que bilionários e lideranças políticas alinhadas a Israel celebraram a ofensiva. Ele cita nomes como Bill Ackman, Lindsey Graham e Mark Levin como entusiastas da ação militar contra o principal adversário regional de Israel.
Para Greenwald, no entanto, trata-se fundamentalmente de uma guerra norte-americana, iniciada unilateralmente pelo presidente dos Estados Unidos. Ele ressalta que os custos humanos e financeiros recairão sobre a população, e não sobre as lideranças políticas que defendem a escalada militar.
Ao analisar o cenário político interno, Greenwald afirma que não se deve esperar oposição consistente do Partido Democrata. Embora alguns parlamentares critiquem a decisão, outros, como o senador John Fetterman, manifestaram apoio à nova ofensiva.
Na avaliação do jornalista, a guerra contra o Irã representa a continuidade da postura bipartidária de intervenções militares que, segundo ele, comprometeram a prosperidade e o futuro dos Estados Unidos nas últimas décadas.

