IA pode acelerar produtividade na América Latina
Estudo do Fórum Econômico Mundial aponta potencial de alta anual de até 3,2% com inteligência artificial
247 - A inteligência artificial pode acelerar a produtividade na América Latina e gerar um impacto econômico trilionário caso os países da região consigam avançar em qualificação profissional, infraestrutura digital e oferta de energia para sustentar novos modelos de inteligência artificial, segundo estudo do Fórum Econômico Mundial apresentado nesta terça-feira (9), no Rio de Janeiro, informa a Folha de São Paulo.
O relatório América Latina na Era Inteligente, elaborado pelo Fórum Econômico Mundial em parceria com a consultoria McKinsey & Company, afirma que a adoção estruturada da IA pode elevar a produtividade regional entre 1,9% e 2,3% ao ano até 2030. Em um cenário mais favorável, o ganho pode chegar a 3,2% ao ano, com potencial para acrescentar de US$ 1,1 trilhão a US$ 1,7 trilhão anualmente à economia latino-americana.
O estudo aponta que a América Latina historicamente sustentou parte relevante de seu crescimento pela ampliação da força de trabalho, e não por avanços consistentes de produtividade. Esse modelo, porém, perde força à medida que o chamado bônus demográfico, marcado pelo aumento da população em idade ativa, começa a se esgotar nos principais países da região.
Nesse contexto, a inteligência artificial aparece como uma oportunidade para alterar a trajetória de crescimento latino-americana. O relatório ressalta, no entanto, que os ganhos não serão automáticos. Para transformar o potencial tecnológico em aumento real de eficiência, governos e empresas terão de superar obstáculos ligados à formação de trabalhadores, à infraestrutura de dados e à capacidade energética.
Qualificação profissional é um dos principais desafios
Entre os pontos centrais destacados pelo estudo está a necessidade de preparar profissionais para operar novos sistemas de IA e integrar a tecnologia a estruturas já existentes nas empresas. A falta de mão de obra qualificada pode limitar a adoção da inteligência artificial, especialmente entre companhias nacionais de pequeno e médio porte.
O relatório observa que a América Latina vem se consolidando como polo de exportação de serviços tecnológicos para multinacionais. Esse movimento impulsiona salários e amplia a competição por talentos, o que dificulta a retenção de profissionais por empresas locais com menor capacidade de investimento.
A consequência, segundo o levantamento, pode ser uma concentração dos benefícios da IA em grandes centros urbanos, multinacionais e companhias com maior acesso a capital humano especializado. Sem políticas coordenadas de requalificação, a tecnologia corre o risco de ampliar disparidades já existentes no tecido produtivo regional.
Energia e infraestrutura podem limitar avanço da IA
Outro gargalo apontado pelo Fórum Econômico Mundial é a necessidade de ampliar a infraestrutura de processamento de dados e fortalecer o fornecimento de energia. Modelos avançados de IA exigem grande capacidade computacional e consumo elevado de eletricidade, especialmente quando aplicados a setores intensivos em dados, como mineração, agricultura industrial, manufatura e logística.
O estudo alerta que, caso esses obstáculos não sejam enfrentados, os ganhos de produtividade poderão ficar restritos a uma bolha geográfica e corporativa. Para evitar esse cenário, o relatório defende uma agenda articulada entre governos e iniciativa privada, com foco em democratizar o acesso à tecnologia e ampliar a capacitação da força de trabalho.
A pesquisa também chama atenção para o chamado paradoxo da sustentabilidade. Embora a América Latina tenha uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, a infraestrutura atual de transmissão ainda não está preparada para atender à demanda crescente por data centers necessários ao avanço da IA.
Segundo o estudo, os países que conseguirem conectar fontes renováveis diretamente aos centros de processamento de dados terão melhores condições de atrair investimentos globais em tecnologia nas próximas décadas. Esse ponto pode se tornar decisivo na disputa internacional por novos projetos ligados à inteligência artificial.
Uso da IA ainda é fragmentado nas empresas
Apesar do entusiasmo em torno da inteligência artificial, o retorno financeiro efetivo ainda é limitado na América Latina. De acordo com o relatório, apenas 23% das organizações da região conseguem gerar algum valor econômico com IA. O percentual cai para 6% quando se considera a criação de valor classificada como significativa.
O levantamento afirma que boa parte das empresas ainda utiliza a tecnologia de maneira fragmentada, com foco em ferramentas isoladas, como assistentes de texto e geradores de código. Essa abordagem, segundo o estudo, impede que a inteligência artificial seja incorporada de forma mais profunda aos modelos de negócios.
O setor financeiro aparece como exceção nesse cenário. Bancos e instituições financeiras têm usado IA para ampliar a análise de crédito de trabalhadores informais e aperfeiçoar sistemas de prevenção a fraudes. Essas aplicações já demonstram capacidade de gerar ganhos concretos em eficiência, segurança e inclusão financeira.
Indústria e logística despontam como novas fronteiras
Além dos serviços financeiros, o relatório aponta que a manufatura e a logística podem estar entre os próximos setores a obter ganhos relevantes com inteligência artificial na América Latina. A aplicação de IA preditiva em cadeias de suprimentos e na manutenção de máquinas pesadas pode reduzir custos operacionais em até 15%, segundo o documento.
Essas áreas são consideradas estratégicas porque concentram atividades de grande peso econômico e apresentam margens importantes para ganhos de eficiência. A automação de processos, a previsão de falhas e a otimização de rotas e estoques podem aumentar a competitividade de empresas regionais em mercados globais.
O estudo conclui que a América Latina reúne condições para transformar a IA em motor de produtividade, mas depende de decisões estruturais para capturar esse potencial. Sem investimentos em qualificação, infraestrutura digital e energia, a região poderá ver a inteligência artificial beneficiar apenas uma parcela limitada da economia, reforçando desigualdades produtivas entre empresas, setores e territórios.



