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Lula discute com CEO do Google "os riscos da IA, especialmente para meninas e mulheres"

Presidente discute com Sundar Pichai regulação e investimentos e defende governança multilateral para evitar desigualdades e abusos no uso da tecnologia

Lula e Sundar Pichai (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta quinta-feira (19), em Nova Déli, na Índia, que discutiu diretamente com o CEO do Google, Sundar Pichai, os impactos e perigos associados ao avanço da inteligência artificial, com atenção especial aos riscos enfrentados por meninas e mulheres. O encontro ocorreu durante a Cúpula sobre o Impacto da Inteligência Artificial, evento promovido pelo governo indiano para debater os rumos da tecnologia no cenário global.

A informação foi divulgada pelo próprio presidente em postagem nas redes sociais, na qual relatou que a reunião foi solicitada por Pichai e abordou tanto investimentos da big tech no Brasil quanto temas sensíveis ligados à regulamentação e ao uso ético da IA.

Segundo Lula, o CEO do Google ressaltou a importância estratégica do Brasil para a empresa, destacando investimentos no país, a abertura do Centro de Engenharia em São Paulo e ações voltadas à infraestrutura digital e parcerias com o setor público. O presidente afirmou ainda que, durante a conversa, o governo brasileiro apresentou sua visão para o desenvolvimento da inteligência artificial e detalhou iniciativas já em curso na área de serviços públicos digitais.

Entre os pontos discutidos, Lula citou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial e a estratégia do governo para atrair investimentos em datacenters. Também entrou na pauta o debate em andamento no Congresso Nacional sobre um marco regulatório para o setor, incluindo medidas de proteção à indústria criativa brasileira diante do avanço de ferramentas capazes de reproduzir e manipular conteúdos de forma automatizada.

O presidente destacou que manifestou preocupação com os riscos da tecnologia, “especialmente para meninas e mulheres”, tema que vem ganhando relevância em discussões internacionais devido ao uso da IA em práticas de violência digital e exploração. Ao final do encontro, Lula afirmou que o Google sinalizou compromisso em aprofundar a parceria com o governo brasileiro e ampliar ações com o setor privado no país.

Lula alerta para concentração de poder digital

Mais cedo, durante discurso na Cúpula de Impacto de Inteligência Artificial, Lula fez um alerta contundente sobre a concentração de poder no setor digital, afirmando que a tecnologia pode tanto impulsionar o desenvolvimento quanto aprofundar desigualdades históricas se não houver regras claras e participação internacional equilibrada.

O presidente afirmou que a humanidade vive uma “encruzilhada”, marcada pelo avanço acelerado da Quarta Revolução Industrial enquanto o multilateralismo “recua perigosamente”. Para Lula, essa combinação torna urgente a criação de normas internacionais para o uso da inteligência artificial, com uma governança global multilateral capaz de evitar que poucos países e empresas dominem os rumos tecnológicos do planeta.

Ele ressaltou que a Revolução Digital e a IA podem gerar ganhos expressivos em produtividade industrial, ampliar a eficiência dos serviços públicos e fortalecer áreas como medicina, segurança alimentar e segurança energética. No entanto, advertiu que as mesmas ferramentas podem ser empregadas para fins destrutivos.

Riscos incluem violência e ataques à democracia

Em seu pronunciamento, Lula citou ameaças associadas ao uso da inteligência artificial em armas autônomas, discursos de ódio, desinformação, pornografia infantil e violência contra mulheres e meninas. O presidente também mencionou feminicídio como um dos riscos relacionados ao uso indevido dessas tecnologias, além da precarização do trabalho em meio à automação crescente.

Outro ponto destacado foi o impacto dos conteúdos falsos gerados ou manipulados por IA. Lula afirmou que essas ferramentas têm potencial para distorcer processos eleitorais e ameaçar a democracia, ao espalhar narrativas fabricadas em escala massiva.

Para o presidente, algoritmos não devem ser tratados como códigos matemáticos neutros, mas como elementos inseridos em uma estrutura de poder que, sem ação coletiva, tende a reforçar desigualdades e ampliar a exploração econômica.

"Não estamos falando de inovação, mas de dominação", diz Lula

Um dos trechos mais enfáticos do discurso foi a crítica à concentração de infraestrutura computacional e de dados em poucos conglomerados globais. Lula afirmou que informações produzidas por cidadãos, empresas e governos estariam sendo apropriadas sem retorno proporcional em geração de renda e valor para os territórios de origem.

Citando dados da União Internacional de Telecomunicações, o presidente lembrou que bilhões de pessoas ainda permanecem fora do universo digital e alertou que, mesmo em 2030, centenas de milhões poderão continuar sem acesso à eletricidade.

Nesse contexto, Lula declarou: “quando poucos controlam os algoritmos e as infraestruturas digitais, não estamos falando de inovação, mas de dominação".

Defesa de regulação e proteção de direitos humanos

O presidente também relacionou a regulamentação das big techs à necessidade de proteger direitos humanos, assegurar a integridade da informação e defender as indústrias criativas. Segundo Lula, o modelo de negócios dessas empresas estaria baseado na exploração de dados pessoais, na renúncia à privacidade e na monetização de conteúdos sensacionalistas que alimentam processos de radicalização política.

No plano interno, Lula afirmou que o Congresso Nacional discute políticas para atração de investimentos em centros de dados e um marco regulatório para Inteligência Artificial. Ele também citou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, anunciado para 2025, como uma estratégia voltada à modernização de serviços públicos e à geração de emprego e renda.

ONU deve liderar governança global da IA

Ao abordar o cenário internacional, Lula mencionou iniciativas em diferentes fóruns, como os BRICS, a Parceria Global em Inteligência Artificial surgida no G7 e a proposta chinesa de criação de uma Organização Internacional para Cooperação em IA voltada a países em desenvolvimento. Apesar dessas iniciativas, defendeu que nenhuma delas substitui o papel universal das Nações Unidas na construção de uma governança global efetivamente multilateral.

O presidente também destacou o Pacto Digital Global aprovado em 2024, em Nova York, e citou como avanço relevante a criação do Painel Científico Internacional Independente sobre Inteligência Artificial, apontado como passo importante para consolidar um organismo científico global sobre o tema.

Ao final do discurso, Lula elogiou a tradição intelectual e filosófica da Índia, afirmando que o país oferece referências importantes para enfrentar os dilemas éticos e sociais colocados pela inteligência artificial, especialmente em temas como justiça, diversidade, inclusão e resiliência.

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