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Mortes e desaparecimentos de cientistas nos EUA atraem investigações

Casos cercados de dúvidas e coincidências levantam suspeitas, desafiam explicações oficiais e alimentam teorias que intrigam autoridades e famílias

Mortes e desaparecimentos de cientistas nos EUA atraem investigações (Foto: Gerada por IA/DALL-E)

247 - O desaparecimento e a morte de ao menos dez pessoas associadas a pesquisas sensíveis nos Estados Unidos vêm alimentando teorias da conspiração na internet, enquanto familiares das vítimas denunciam a disseminação de desinformação e sofrimento adicional diante das especulações, segundo reportagem da BBC News Brasil.

Apesar da circulação de hipóteses que sugerem conexões ocultas entre os casos, investigações oficiais e relatos das famílias apontam para explicações concretas e independentes, contrariando a narrativa conspiratória que ganhou força nas redes.

Entre os episódios mais citados está a morte do astrônomo Carl Grillmair, de 67 anos, assassinado a tiros em fevereiro em sua residência na Califórnia. O suspeito, Freddy Snyder, de 29 anos, foi acusado de homicídio e invasão de propriedade e deve responder à Justiça. Ainda assim, o caso passou a integrar listas difundidas online que alegam uma suposta eliminação de cientistas ligados a informações sigilosas.

A viúva do pesquisador, Louise Grillmair, rejeita veementemente essas interpretações. “Acho que é um absurdo completo. Quero dizer, há fatos, e eles estão disponíveis”, afirmou. Segundo ela, o crime teria sido motivado por um equívoco pessoal. “Achamos que [ele] veio para se vingar, acreditando que Carl havia feito a ligação para o 911”, disse, referindo-se a um histórico de conflitos com o suspeito.

Louise relatou episódios anteriores envolvendo o homem acusado, que teria invadido propriedades vizinhas armado e causado transtornos na região. Para ela, o assassinato não tem qualquer relação com a carreira científica do marido, descrito como “provavelmente a pessoa mais gentil que já pisou na face da Terra”.

Mesmo com explicações como essa, teorias conspiratórias continuam a circular, sugerindo conexões entre casos distintos. O fenômeno chamou a atenção do Comitê de Supervisão da Câmara dos Representantes dos EUA e do FBI, que anunciaram investigações, embora especialistas apontem que não há evidências de um padrão coordenado.

O jornalista científico Mick West contestou essas narrativas ao destacar dados estatísticos. Segundo ele, o número de mortes citadas nas listas conspiratórias é compatível com a taxa esperada em um universo de cerca de 700 mil profissionais com acesso a informações sensíveis. “As mortes são reais. O luto das famílias é real. O padrão não é”, escreveu.

Outro caso que gerou repercussão foi o desaparecimento do general reformado William Neil McCasland, no Novo México. Sua esposa, Susan McCasland Wilkerson, afirmou que há indícios de que ele planejou desaparecer. Em ligação ao serviço de emergência, relatou que o marido havia deixado o celular em casa e levado uma arma, comportamento incomum para ele.

Posteriormente, Susan utilizou as redes sociais para esclarecer rumores. Ela destacou que, embora o marido tivesse tido acesso a informações sigilosas durante a carreira, estava aposentado há mais de uma década. “Parece bastante improvável que ele tenha sido levado para que lhe extraíssem segredos muito desatualizados”, escreveu.

Em tom irônico, ela comentou as teorias mais fantasiosas: “A esta altura, sem absolutamente nenhum sinal dele, talvez a melhor hipótese seja a de que os alienígenas o teleportaram para a nave-mãe. No entanto, não houve nenhum registro de uma nave pairando sobre as montanhas Sandia".

Casos adicionais reforçam a ausência de ligação entre os episódios. A assistente administrativa Melissa Casias, ligada ao Laboratório Nacional de Los Alamos, também desapareceu, e sua família indicou que a saída pode ter sido voluntária. Já o físico Nuno Loureiro, do MIT, foi assassinado por um ex-colega que confessou o crime.

Outras mortes tiveram causas médicas ou circunstâncias pessoais, como um pesquisador encontrado morto após sofrer forte abalo emocional pela perda recente dos pais. Em outro caso, o laudo apontou doença cardiovascular como causa do óbito.

Para os familiares, a insistência em teorias conspiratórias agrava a dor. Louise Grillmair afirma que chegou a ser procurada por pessoas em busca de validação das especulações. “Eu disse: ‘Bem, posso fazer melhor do que dar uma opinião’. Eu tenho os fatos”, declarou.

Ela classifica as teorias como “desrespeitosas com a memória deles”, sentimento compartilhado por outros parentes ouvidos pela BBC, que consideram as narrativas “terríveis” e “repugnantes”.

Ao lembrar do marido, Louise destaca não apenas sua relevância científica, mas também seu caráter. Segundo ela, Grillmair evitava conflitos e ajudava quem precisava. “Ele tinha um padrão moral muito elevado… ele praticava o que pregava”, afirmou.

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