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Após acusar enfermeiro assassinado pelo ICE de "terrorismo doméstico", Casa Branca recua e trata caso como "tragédia"

Governo Trump havia classificado Alex Pretti como "assassino" e "terrorista doméstico" após ação do ICE em Minneapolis

Alex Pretti foi assassinado no sábado (24) por agentes do ICE, em Minneapolis (Foto: Reprodução)

247 - A Casa Branca passou a se referir como "tragédia" à morte do enfermeiro Alex Pretti, assassinado no sábado (24) por agentes do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos, o ICE, em Minneapolis. A mudança de tom ocorre após integrantes do governo Donald Trump terem classificado a vítima como "terrorista doméstico" e "assassino" antes mesmo da confirmação de sua identidade. As informações são do UOL.

Governo Trump acusou vítima antes da identificação

No dia da morte, antes de Pretti ser identificado, o chefe de gabinete adjunto da Casa Branca e conselheiro de Segurança Interna de Trump, Stephen Miller, chamou o homem morto de "assassino" e "terrorista doméstico". Na mesma ocasião, Gregory Bovino, comandante da Patrulha Fronteiriça dos Estados Unidos, afirmou, sem provas, que a vítima pretendia "massacrar policiais".

O Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos divulgou, logo após a confirmação da morte, que "tudo indica que o indivíduo queria causar o máximo de danos e massacrar policiais". O órgão federal sustentou ainda que os disparos do agente do ICE ocorreram "em legítima defesa", alegando que o oficial "temia por sua vida e pela vida e segurança de seus colegas".

Trump publicou foto de suposta arma de Pretti

Trump também se manifestou nas redes sociais no sábado. O presidente publicou a imagem de uma suposta arma que, segundo ele, teria sido portada por Pretti durante a ação e o chamou de "atirador". "Esta é a arma do atirador, carregada (com dois carregadores extras cheios!), e pronta para uso", escreveu Trump. "O ICE teve que se proteger — o que não é fácil!", acrescentou na publicação feita na Truth Social.

Casa Branca muda tom e passa a chamar caso de "tragédia"

Após a divulgação da identidade de Alex Pretti e diante da repercussão negativa do caso nos Estados Unidos, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, passou a classificar o episódio como "tragédia". A declaração foi dada em resposta a questionamentos de jornalistas sobre o motivo de o governo Trump ter classificado o enfermeiro como terrorista.

"O presidente Trump não quer que qualquer um dos americanos perca suas vidas nas ruas da América e nas comunidades americanas em todo o país. Ele acredita que o que aconteceu no sábado foi uma tragédia", afirmou Leavitt em coletiva de imprensa.

Porta-voz culpa democratas e acusa imprensa de sensacionalismo

Apesar da mudança de tom, a porta-voz atribuiu a responsabilidade pelo tiroteio a líderes do Partido Democrata em Minnesota e acusou os veículos de imprensa de "sensacionalismo". "Essa tragédia ocorreu como resultado de uma resistência deliberada e hostilizada pelos líderes democratas de Minnesota", disse. Em seguida, acrescentou que "não há dúvidas de que houve uma fúria seletiva pelas mídias liberais em escolher vítimas e destacar suas histórias".

Karoline Leavitt também afirmou que o governo Trump irá "esclarecer as circunstâncias" da morte. Vídeos que registraram o momento da abordagem, no entanto, contradizem a versão apresentada pelas autoridades federais. As imagens mostram Pretti segurando um telefone celular, e não uma arma, enquanto é derrubado por um grupo de agentes do ICE.

Vídeos contradizem versão oficial do governo

As gravações foram verificadas por agências de notícias internacionais e por veículos estadunidenses, como o The New York Times. Segundo essas verificações, não há indícios de que o enfermeiro tenha sacado uma arma ou ameaçado os agentes antes de ser baleado.

Durante a coletiva, Leavitt também pediu que autoridades de Minnesota e de Minneapolis entreguem imigrantes em situação irregular às autoridades federais para "deportação imediata". "Um país incapaz de deportar criminosos que entram ilegalmente não é um país", declarou. Segundo ela, Trump "nunca desistirá da sua promessa de deportar imigrantes criminosos e ilícitos e fazer com que a América esteja segura de novo".

Segundo assassinato em operações do ICE em Minneapolis

O assassinato de Alex Pretti foi o segundo registrado em Minneapolis em menos de um mês em operações envolvendo agentes federais. No dia 7 de janeiro, a cidadã estadunidense Renee Nicole Good, de 37 anos, foi atingida por um disparo fatal na cabeça por um agente do ICE.

Desde que o governo Trump enviou milhares de agentes para intensificar a repressão à imigração na cidade, moradores passaram a organizar protestos em escala crescente contra a atuação do ICE.

Quem era Alex Pretti

Alex Pretti tinha 37 anos, era cidadão estadunidense, nascido no estado de Illinois e morava em Minneapolis, segundo informações repassadas por familiares à Associated Press. Ele trabalhava como enfermeiro de terapia intensiva em um hospital local.

O pai de Alex afirmou que o filho "se importava profundamente" com as pessoas e estava indignado com a repressão a imigrantes promovida pelo governo Trump. A Associação Americana de Enfermeiros, da qual Pretti era associado, lamentou "profundamente" a morte do profissional e cobrou transparência. "A gravidade deste incidente e de outros exige transparência e responsabilização", informou a entidade em nota.

Vizinhos descrevem enfermeiro como "homem amável"

Vizinhos relataram que Pretti era um "homem amável", conhecido por passear com seu cachorro pelo bairro e cumprimentar as pessoas. "Ele não é uma pessoa violenta", disse uma moradora ao jornal.

Segundo familiares, Alex havia participado de protestos contra a morte de Renee Good no início do mês. "Ele se importava profundamente com as pessoas e estava muito chateado com o que estava acontecendo em Minneapolis e em todos os Estados Unidos com o ICE", afirmou Michael Pretti, pai do enfermeiro. "Ele achava terrível sequestrar crianças e simplesmente pegar pessoas na rua."

Assim como Renee Good, registros judiciais indicam que Alex Pretti não tinha antecedentes criminais. A família informou ainda que ele nunca teve contato relevante com a polícia, além de multas de trânsito.

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