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Após ameaças, Trump recebe Petro na Casa Branca

Reunião marca primeiro encontro entre EUA e Colômbia após meses de tensão, sanções e discursos agressivos

Gustavo Petro e Donald Trump (Foto: Divulgação/Presidência da Colômbia)

247 - Depois de um longo período de atritos diplomáticos, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recebeu nesta terça-feira o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, na Casa Branca. O encontro foi o primeiro entre os dois líderes desde o início do atual mandato de Trump e ocorre semanas após declarações do presidente dos Estados Unidos que colocaram a Colômbia como possível alvo de ações militares.

Pouco antes de entrar na Casa Branca, Petro fez uma publicação na rede social X destacando o tom que pretendia adotar na visita oficial. “Hoje (terça-feira) inicio minha agenda em Washington como chefe de Estado, pronto para continuar fortalecendo a relação entre duas nações que compartilham um objetivo comum: a luta contra o narcotráfico, com uma abordagem que prioriza a vida e a paz em nossos territórios”, escreveu. Em outra mensagem, acrescentou: “Minha família está comigo, me oferecendo seu carinho, antes do meu encontro com o presidente Trump.”

A aproximação ocorre após meses de deterioração nas relações bilaterais. Logo após a vitória eleitoral de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, Petro enviou uma mensagem de felicitação acompanhada de críticas às posições do republicano sobre mudanças climáticas, imigração e ao apoio dos EUA a Israel na guerra em Gaza. A relação se agravou ainda mais depois da posse, quando o governo colombiano barrou a entrada de dois aviões que transportavam deportados, decisão revertida após ameaças de tarifas por parte de Washington.

O combate ao narcotráfico tornou-se o principal foco de embate entre os dois governos, apesar de historicamente ser um eixo de cooperação entre EUA e Colômbia. No ano passado, a secretária de Segurança Interna dos Estados Unidos, Kristi Noem, afirmou que Petro era “amigo” da organização criminosa Tren de Aragua, com base na Venezuela. Meses depois, a Casa Branca retirou a certificação da Colômbia como parceira no combate ao narcotráfico, embora tenha mantido a promessa de continuidade do financiamento.

Petro reagiu à decisão afirmando que seu governo havia intensificado o enfrentamento aos cartéis, com aumento nas apreensões de drogas e prisões. Também declarou que o consumo de entorpecentes era um problema da sociedade norte-americana, e não da Colômbia. Em um discurso posterior, o presidente colombiano acusou os Estados Unidos de apoiarem o genocídio em Gaza e defendeu que soldados americanos descumprissem ordens de Trump. Como resposta, teve seu visto cancelado e foi incluído em uma lista de sanções do Departamento do Tesouro, sob a alegação de cumplicidade com o narcotráfico.

A crise atingiu seu ponto mais sensível em dezembro, durante o maior deslocamento militar dos Estados Unidos no Caribe em décadas, voltado principalmente à Venezuela. Em uma reunião de gabinete, Trump afirmou que poderia atacar qualquer país que enviasse drogas aos Estados Unidos e citou diretamente a Colômbia. Na ocasião, declarou que “era melhor ele (Petro) se ligar, ou será o próximo”. O presidente colombiano respondeu dizendo que Trump estava “desinformado”.

Após o ataque a Caracas e o sequestro do presidente Nicolás Maduro, o risco de uma ação contra a Colômbia passou a ser tratado como concreto. Trump voltou a atacar verbalmente Petro, chamando-o de “doente que gosta de produzir cocaína e vendê-la para os Estados Unidos, e ele não vai continuar fazendo isso por muito tempo”. Inicialmente, Petro e integrantes das Forças Armadas colombianas afirmaram estar prontos para “pegar em armas”, mas negociações diplomáticas nos bastidores buscaram reduzir a tensão.

Autoridades colombianas mobilizaram contatos em Washington, incluindo o senador republicano Rand Paul, que havia se posicionado contra o ataque à Venezuela. Esse esforço abriu caminho para um telefonema entre os dois presidentes em 7 de janeiro e, posteriormente, para a reunião presencial desta semana.

Apesar do gesto diplomático, as divergências permanecem. Petro segue crítico a pontos centrais da política externa de Trump e vê com preocupação a retomada da Doutrina Monroe, que reforça a influência dos Estados Unidos na América Latina e busca conter a presença de potências como a China. Embora os EUA sejam o principal parceiro comercial da Colômbia, Pequim tem ampliado sua participação nas trocas comerciais com o país.

Do ponto de vista norte-americano, a cooperação colombiana é considerada estratégica para a estabilidade regional no cenário pós-Maduro, especialmente no controle de fronteiras e de grupos armados. Já Petro também tem interesses internos ao tentar reduzir tensões com Washington antes da eleição presidencial de maio. Aliados temem que um conflito prolongado com os Estados Unidos seja explorado por adversários para enfraquecer a candidatura de Iván Cepeda, apoiado pelo presidente.

Como gesto simbólico durante a visita, Petro levou a Washington uma cesta com produtos tradicionais colombianos, como café e chocolate, produzidos por famílias que substituíram o cultivo da coca por alimentos por meio de programas governamentais, em uma tentativa de reforçar sua narrativa sobre desenvolvimento e combate ao narcotráfico.

 

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