Após assassinato de civis, política de recrutamento do ICE vira alvo de críticas nos EUA
Violência do Serviço de Imigração e Alfândega sob Trump reacende debate sobre perfil e preparo de agentes
247 - O reforço acelerado do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês) passou a ser alvo de críticas após o assassinato de dois civis durante operações federais recentes em Minneapolis. Os episódios reacenderam questionamentos sobre o perfil dos novos agentes, os métodos de recrutamento e a redução do tempo de treinamento, em meio à expansão do órgão sob o governo do presidente Donald Trump.
Segundo a RFI, as críticas ganharam força após os assassinatos de Alex Pretti, em Minneapolis, no sábado (24), e de Renee Good, algumas semanas antes, na mesma cidade. Ambos eram cidadãos estadunidenses mortos a tiros por agentes federais durante ações ligadas à política imigratória agressiva anunciada por Trump como "o maior programa de deportações da história" do país.
Alex Pretti, de 37 anos, foi morto por agentes da Patrulha de Fronteiras enquanto filmava uma abordagem policial. As imagens circularam internacionalmente. Já Renee Good foi baleada dentro do carro por um agente do ICE, em 7 de janeiro. Os dois casos ocorreram no contexto de operações federais intensificadas no início de 2026.
Expansão sem precedentes e campanha massiva de recrutamento
Para viabilizar o plano de deportações em larga escala, o governo Trump promoveu uma expansão sem precedentes do ICE, órgão que até então tinha atuação menos visível. O orçamento da agência passou de US$ 10 bilhões antes da posse de Trump para US$ 85 bilhões, valor que pode ser utilizado ao longo de até quatro anos.
Com os novos recursos, o ICE lançou a maior campanha de recrutamento de sua história. Em 3 de janeiro, a agência anunciou um "aumento histórico de 120% do efetivo", com a contratação de 12 mil oficiais e agentes. O número total de funcionários, antes em torno de 10 mil, passou a contar com mais novatos do que agentes experientes.
O ritmo acelerado do recrutamento levantou dúvidas sobre os critérios de seleção. Para o professor Lauric Henneton, da Universidade de Versailles Saint-Quentin-en-Yvelines, especialista em Estados Unidos, o problema está na combinação entre metas elevadas e falta de pessoal. "Há metas de deportação gigantescas, que não são realistas com o efetivo atual, então eles precisam recrutar. E recrutam de qualquer jeito, pessoas com disposição para o confronto, com um perfil meio hooligan, colocando armas nas mãos delas", afirmou.
Campanha institucional com linguagem bélica e estratégia de guerra
A própria campanha institucional do ICE sugere o tipo de agente buscado. No site oficial, a imagem do Tio Sam convoca os interessados a defender uma nação descrita como "invadida por criminosos e predadores". A mensagem diz: "Precisamos de VOCÊ para caçá-los".
Documentos revelados pelo Washington Post indicam que o ICE adotou uma estratégia chamada internamente de "recrutamento em tempo de guerra". A campanha se espalhou pelas redes sociais com apelos ao "dever sagrado" de "defender a pátria" contra "invasores estrangeiros".
Entre os materiais divulgados, há vídeos inspirados em jogos de tiro em primeira pessoa, como Call of Duty, e anúncios que retratam migrantes como pokémons a serem capturados. Para alcançar mais de 10 mil novos recrutas, a agência utilizou técnicas de georreferenciamento, direcionando anúncios a usuários próximos de bases militares, campus universitários, feiras de armas e eventos esportivos.
Perfil do público-alvo
O plano previa ainda focar pessoas interessadas em assuntos militares, treinamento físico, política conservadora e perfis associados a um estilo de vida descrito como patriótico. O alvo incluía ouvintes de programas de rádio conservadores, fãs de música country, podcasts ligados ao patriotismo e seguidores de entidades pró-armas e marcas de equipamentos táticos.
Ações presenciais de recrutamento também passaram a ocorrer em estádios, corridas da Nascar, eventos do UFC e rodeios. Além disso, o governo Trump busca atrair agentes aposentados, oferecendo bônus de retorno e a possibilidade de acumular salário e aposentadoria. O site do ICE afirma: "Você serviu os Estados Unidos da América com distinção e honra. Hoje, seu país volta a chamá-lo".
Para facilitar o alistamento, o ICE passou a oferecer bônus de contratação de até US$ 50 mil, reembolso de dívidas estudantis e eliminou o limite máximo de idade, permitindo candidaturas a partir dos 18 anos. A historiadora Nicole Bacharan, especialista em Estados Unidos, avalia que o perfil dos recrutados é heterogêneo. "Há pessoas experientes entre os recrutados, mas também jovens que podem ter o dedo fácil no gatilho", alertou.
Redução drástica no tempo de treinamento gera preocupação
A principal preocupação, segundo críticos, está na redução do tempo de formação. John Sandweg, ex-diretor do ICE durante o governo Barack Obama, afirmou que o período de treinamento caiu de cerca de cinco meses para apenas 42 dias. "O problema não é só onde e como eles foram recrutados, mas o rebaixamento dos critérios de seleção. Os padrões de treinamento também foram reduzidos para colocar rapidamente esses agentes nas ruas, basicamente para aumentar o número de prisões", disse.
Ao comentar as mortes ocorridas em Minneapolis, Sandweg avaliou que os agentes "se viram em situações nas quais nunca deveriam ter estado. Não é para isso que são treinados". Segundo ele, "cada caso é diferente, mas, no fundo, todos revelam um problema de inexperiência e de falta de treinamento".
Em nota, o governo Trump afirmou ter "otimizado a formação para eliminar redundâncias e incorporar avanços tecnológicos, sem sacrificar o conteúdo essencial do programa". Apesar disso, episódios envolvendo o uso excessivo da força por agentes do ICE têm provocado crescente indignação pública.
Para Nicole Bacharan, ainda não há sinais claros de mudança. "Resta saber se haverá algum controle sobre a qualificação dos membros do ICE. É possível imaginar que isso aconteça, mas por enquanto não há nenhum anúncio nesse sentido", afirmou.


