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Apostador anônimo lucra mais de US$ 410 mil ao prever sequestro de Nicolás Maduro

Apostas na Polymarket dispararam após operação militar dos EUA, reacendendo debate sobre insider trading

Nicolás Maduro (Foto: Reuters/Adam Gray)

247 – Um apostador anônimo obteve um ganho de cerca de US$ 410 mil ao apostar que o presidente venezuelano Nicolás Maduro seria removido do poder, após o sequestro do líder venezuelano por forças militares dos Estados Unidos. A informação foi revelada em reportagem da Reuters, publicada nesta segunda-feira, 5 de janeiro de 2026, e gerou forte repercussão por levantar suspeitas de possível uso de informação privilegiada em plataformas de “mercados de previsão”.

Segundo dados da plataforma citados pela Reuters, o investidor utilizou a Polymarket para montar posições em contratos que pagariam caso Maduro fosse retirado do poder. As apostas, que somavam cerca de US$ 34 mil antes do sequestro, dispararam de valor depois que vieram a público as notícias sobre a operação militar realizada durante o fim de semana, gerando um lucro estimado em US$ 410 mil.

A movimentação chamou atenção pela precisão temporal. A conta anônima foi criada no mês passado e começou com uma aposta de US$ 96 em 27 de dezembro, prevendo que os EUA invadiriam a Venezuela até 31 de janeiro. Nos dias seguintes, o usuário realizou várias novas apostas na mesma direção, aumentando gradualmente a exposição ao evento. Quando o sequestro de Maduro foi confirmado, os contratos — antes precificados como improváveis — passaram a valer muito mais, garantindo o prêmio excepcional ao apostador.

O episódio teve efeitos imediatos nos mercados. A Reuters relata que, na segunda-feira, os principais índices acionários subiram, o petróleo avançou e ações do setor de energia registraram ganhos relevantes após a notícia do sequestro do presidente venezuelano. No mercado de dívida, títulos venezuelanos, já pressionados por anos de calote, tiveram valorização expressiva, impulsionados pela expectativa de que o sequestro abriria caminho para uma reconfiguração profunda do poder no país e, eventualmente, para uma reestruturação da dívida soberana.

Os papéis emitidos pelo governo venezuelano e pela estatal PDVSA chegaram a subir até 10 centavos por dólar, o que representa valorização próxima de 30%, numa forte reação de investidores que enxergam uma possibilidade de reorganização política e financeira. Em situações como essa, o mercado costuma antecipar mudanças relevantes na condução do Estado, principalmente em países com histórico de instabilidade institucional.

A dimensão política do caso, porém, foi ainda mais explosiva. A Reuters destaca que o episódio deve intensificar o debate em torno de insider trading e do uso de informação privilegiada em plataformas de apostas que tratam eventos políticos como ativos financeiros. Logo após o caso vir à tona, o deputado democrata Ritchie Torres afirmou que pretende apresentar, ainda nesta semana, um projeto de lei para proibir que autoridades eleitas, parlamentares e funcionários federais participem de apostas em mercados de previsão — justamente por haver risco de acesso a informações sensíveis e não públicas.

A preocupação é que agentes do Estado, por estarem próximos de decisões estratégicas, possam se beneficiar de conhecimento reservado e transformar fatos de alta relevância geopolítica em ganhos pessoais. “Mercados de previsão” como a Polymarket permitem a compra de contratos do tipo sim/não, com preços que refletem a probabilidade percebida do evento. Quando um contrato custando poucos centavos passa a pagar US$ 1, a multiplicação do investimento pode ser enorme, criando incentivo econômico para apostas com base em informações sigilosas.

A Polymarket já vinha sendo alvo de questionamentos semelhantes. A Reuters lembra que a plataforma enfrenta histórico de suspeitas sobre operações com potencial insider trading. Embora o acesso ao serviço principal seja proibido para americanos, a reportagem destaca que muitos usuários usam VPN para driblar restrições.

Em setembro, a Polymarket obteve autorização da Commodity Futures Trading Commission (CFTC) para retomar operações nos Estados Unidos, após adquirir por US$ 112 milhões a QCEX, uma bolsa e câmara de compensação licenciada pela comissão. Procurada pela Reuters para comentar se investigaria as apostas relacionadas ao sequestro de Maduro, a CFTC não respondeu.

A Polymarket também não se manifestou imediatamente, segundo a Reuters.

O caso expõe, ao mesmo tempo, o avanço das plataformas de apostas ligadas a acontecimentos reais e um dilema regulatório crescente: quando a política vira mercado e eventos geopolíticos viram contratos negociáveis, a fronteira entre previsão legítima e exploração indevida de informação sensível se torna cada vez mais tênue — sobretudo em episódios que envolvem diretamente ações militares e decisões estratégicas de Estado.

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