Aramco alerta para “consequências catastróficas” no mercado global de petróleo se Ormuz seguir bloqueado
Conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã interrompe fluxo de petróleo no Golfo e ameaça economia mundial
247 - A interrupção do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz, uma das rotas energéticas mais estratégicas do planeta, ampliou as preocupações sobre uma possível crise global de abastecimento de petróleo. O bloqueio ocorreu após a escalada militar envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, que levou à paralisação do transporte de milhões de barris de petróleo provenientes do Oriente Médio.
A companhia estatal saudita Aramco alertou que a continuidade dessa situação pode provocar impactos severos nos mercados internacionais de energia e na economia mundial. Segundo a empresa, cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia deixaram de chegar ao mercado global desde o início da crise, há 11 dias.
O diretor-executivo da Aramco, Amin Nasser, classificou o momento como o mais grave já enfrentado pelo setor energético da região. “Embora tenhamos enfrentado interrupções no passado, esta é de longe a maior crise que a indústria de petróleo e gás da região já enfrentou”, afirmou.
O estreito de Ormuz, localizado ao sul do território iraniano, é responsável por escoar aproximadamente um quinto de todo o petróleo e gás natural liquefeito transportados no mundo. Em condições normais, cerca de 100 petroleiros atravessam diariamente essa passagem marítima.
Após os ataques liderados pelos Estados Unidos contra o Irã, no entanto, embarcações passaram a evitar a região. A Guarda Revolucionária Islâmica iraniana chegou a ameaçar “incendiar” navios que utilizassem a rota, o que reduziu drasticamente o fluxo de embarcações para apenas alguns navios por dia.
Apesar das dificuldades logísticas, a Aramco afirma que ainda consegue atender parte relevante da demanda internacional. A empresa estima conseguir fornecer cerca de 70% de suas exportações habituais de petróleo bruto.
Para isso, a companhia está redirecionando o petróleo por meio de um oleoduto que liga o leste ao oeste da Arábia Saudita, permitindo o envio do produto até o porto de Yanbu, no mar Vermelho, de onde ele pode ser embarcado para compradores internacionais.
A Aramco planeja elevar rapidamente o volume transportado por esse oleoduto até atingir sua capacidade máxima de 7 milhões de barris por dia. Desse total, aproximadamente 2 milhões de barris serão destinados às refinarias sauditas, enquanto cerca de 5 milhões de barris seguirão para exportação.
A empresa também passou a utilizar reservas estratégicas armazenadas fora da região do Golfo para manter o fornecimento aos clientes. Amin Nasser ressaltou, porém, que essa alternativa tem limites. “Esses estoques não podem ser utilizados por um período prolongado, mas, por enquanto, estamos nos apoiando neles”, explicou.
Mesmo com essas medidas emergenciais, o executivo advertiu que os riscos permanecem elevados caso o bloqueio persista. “Haveria consequências catastróficas para os mercados mundiais de petróleo, e quanto mais tempo durar a interrupção, mais drásticas serão as consequências para a economia global”, afirmou.
A crise provocou forte volatilidade nos preços da energia. O barril do petróleo Brent, referência internacional, chegou a atingir US$ 119 nesta semana, o valor mais alto desde 2022, quando a guerra na Ucrânia gerou temores sobre o abastecimento global.
Na terça-feira (10), os preços recuaram após declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, indicando que o conflito poderia terminar “muito em breve”. O Brent passou a ser negociado próximo de US$ 85 por barril, uma queda de cerca de 14%, embora ainda acima do patamar de US$ 72 registrado antes do início da ofensiva militar contra o Irã.
A redução das tensões também trouxe alívio parcial aos mercados financeiros internacionais. Bolsas europeias registraram ganhos na mesma terça-feira (10), com alta de 1,6% no índice FTSE 100 de Londres, avanço de 2,4% no DAX alemão e valorização de 1,8% no CAC francês. Nos Estados Unidos, os mercados também operaram em alta durante a tarde.
Diante da instabilidade, líderes do G7 solicitaram que a Agência Internacional de Energia prepare cenários para uma possível liberação de estoques emergenciais de petróleo, medida utilizada apenas cinco vezes na história do mercado.
Os países integrantes da agência mantêm reservas estratégicas equivalentes a 90 dias de importações, totalizando mais de 1,2 bilhão de barris em estoques públicos, além de cerca de 600 milhões de barris mantidos pela indústria sob obrigação governamental.
A China, maior importadora de energia do mundo e que não integra a agência, também possui volumes expressivos armazenados. Estimativas indicam que o país pode ter até 1,4 bilhão de barris em reservas.
A possibilidade de uma intervenção internacional para conter a volatilidade ajudou a reduzir a pressão sobre os preços do petróleo após os picos registrados no início da semana.


