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Arquivos revelam que Jeffrey Epstein buscou por anos contato com Vladimir Putin

Jeffrey Epstein tentou, por anos, se aproximar do presidente russo Vladimir Putin e de integrantes do alto escalão do Kremlin

Jeffrey Epstein e Kremlin em Moscou (Foto: REUTERS/Evgenia Novozhenina e divulgação)

247 - Documentos recém-divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos indicam que o financista Jeffrey Epstein tentou, por anos, se aproximar do presidente russo Vladimir Putin e de integrantes do alto escalão do Kremlin. As informações foram reveladas em reportagem da CNN e da Sputnik. 

Segundo os registros, em junho de 2018, Epstein queria enviar uma mensagem a Putin e tentou abrir caminho por meio do então secretário-geral do Conselho da Europa, o político norueguês Thorbjørn Jagland. Em um e-mail de 24 de junho daquele ano, Epstein escreveu: “Acho que você poderia sugerir a Putin que Lavrov pode obter informações sobre como conversar comigo. Vitaly Churkin costumava fazer isso, mas ele morreu?!”. Jagland respondeu que se encontraria com o assistente do chanceler russo, Sergei Lavrov, na semana seguinte e faria a sugestão.

Churkin, ex-embaixador da Rússia na ONU, havia morrido repentinamente em 2017 e, de acordo com os documentos, mantinha contatos regulares com Epstein em Nova York. 

O financista chegou a se oferecer para ajudar o filho do diplomata, Maxim, a conseguir um emprego no setor financeiro. Após a troca de mensagens com Jagland, Epstein comentou: “Churkin foi ótimo. Ele entendeu Trump depois das nossas conversas. Não é complexo. Ele precisa demonstrar que entendeu algo, é simples assim.”O novo conjunto de arquivos reforça que Epstein buscava se posicionar como uma figura influente no tabuleiro geopolítico. Embora seu interesse em recrutar modelos da Rússia e do Leste Europeu já fosse conhecido, os documentos trazem mais detalhes sobre tentativas repetidas de contato com o Kremlin, incluindo o próprio Putin. Não há, contudo, confirmação de que esses encontros tenham de fato ocorrido.A divulgação reacendeu especulações sobre os objetivos do financista e provocou reações políticas na Europa.

 O primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk, afirmou que seu governo abrirá uma investigação sobre possíveis vínculos de Epstein com a inteligência russa. “Cada vez mais pistas, mais informações e mais comentários na imprensa internacional apontam para a suspeita de que este escândalo de pedofilia sem precedentes foi coorganizado pelos serviços de inteligência russos”, disse Tusk. 

Em seguida, acrescentou: “Não preciso dizer o quão séria é a possibilidade, cada vez mais provável, de que os serviços de inteligência russos tenham coorganizado esta operação para a segurança do Estado polonês. Isso só pode significar que eles também possuem material comprometedor contra muitos líderes ainda em atividade.”O governo russo rejeitou as suspeitas. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que “a teoria de que Epstein era controlado pelos serviços de inteligência russos pode ser interpretada de diversas maneiras, mas não é levada a sério”, e disse que os jornalistas “não deveriam perder tempo” com essas alegações.

Os arquivos também revelam contatos anteriores. Em 9 de maio de 2013, Epstein escreveu ao então primeiro-ministro israelense Ehud Barak dizendo que Jagland “iria se encontrar com Putin em Sochi” e perguntou se ele estaria disponível para explicar “como a Rússia pode estruturar acordos a fim de incentivar o investimento ocidental”. “Nunca o conheci, queria que você soubesse”, acrescentou Epstein no e-mail. Dias depois, Jagland informou que transmitiria uma mensagem ao presidente russo em nome de Epstein, sugerindo que ele poderia ser útil.

Em outra resposta, Epstein afirmou: “Ele está numa posição única para fazer algo grandioso, como o Sputnik fez pela corrida espacial. Você pode dizer a ele que somos próximos e que eu aconselho Gates. Isso é confidencial. Eu ficaria feliz em encontrá-lo, mas por no mínimo duas ou três horas, não menos.” Por meio de um porta-voz, Bill Gates já descreveu o encontro com Epstein como um “grave erro de julgamento”, negando qualquer conduta imprópria.

Em e-mails posteriores, Epstein chegou a afirmar, sem apresentar provas, que teria recusado um pedido de encontro de Putin durante uma conferência econômica em São Petersburgo, alegando que o presidente precisaria “reservar tempo e privacidade”. Não está claro se o líder russo realmente fez esse convite. Já em julho de 2014, uma mensagem sugere que Epstein teria uma reunião marcada com Putin e convidara o fundador do LinkedIn para participar. “Não consegui convencer Reid a mudar sua agenda para ir se encontrar com Putin com você. ;-)”, escreveu Joi Ito, então diretor do MIT Media Lab.

Os documentos também apontam para relações com figuras russas com histórico em órgãos de segurança. Epstein chamou Sergey Belyakov, que se formou na Academia do FSB, de “meu grande amigo” em um e-mail de 2015 para o investidor Peter Thiel e se ofereceu para apresentá-lo ao executivo, então ligado ao Fórum Econômico de São Petersburgo. Em outra troca de mensagens, Epstein chegou a pedir “Sugestões?” a Belyakov ao relatar um caso de suposta chantagem envolvendo uma mulher russa em Nova York.

Há ainda registros de contatos envolvendo o ex-primeiro-ministro israelense Ehud Barak, que agradeceu a Epstein por organizar encontros com autoridades russas durante o Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo. Em comunicado à CNN, o gabinete de Barak afirmou que essas visitas “sempre ocorreram a convite” do Kremlin e que, embora Epstein demonstrasse interesse em assuntos russos, seu nome “nunca foi mencionado” oficialmente às autoridades de Moscou.

No conjunto, os arquivos não comprovam que Epstein tenha conseguido estabelecer relações diretas com Putin, mas desenham um padrão de tentativas persistentes de aproximação com líderes e formuladores de política internacional. 

O que diz o Kremilin 

As diferentes versões sobre uma possível ligação do caso do financista e criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein com os serviços secretos da Rússia podem ser comentadas o quanto se quiser, mas não de forma séria, afirmou na quinta-feira (5) o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov.

Mais cedo, diversas reportagens foram publicadas na mídia apontando supostos indícios de que Epstein teria intermediado acordos de segurança de Israel com a Rússia, Mongólia e Costa do Marfim. As supostas ligações surgiram após o dia 30 de janeiro, quando o vice-procurador-geral dos Estados Unidos, Todd Blanche, anunciou a conclusão da publicação de materiais relacionados ao caso Epstein.

“Tudo, menos sério. Muitas piadas vêm à mente sobre esse tipo de versão”, disse Peskov a jornalistas, ao comentar como o Kremlin poderia reagir a reportagens de meios de comunicação ocidentais, que também divulgaram que os serviços de inteligência russos estariam por trás das atividades de Epstein. A declaração foi divulgada pela agência Sputnik.

Com a divulgação mais recente dos arquivos Epstein, o volume total de dados tornados públicos supera 3,5 milhões de documentos e inclui menções a diversas figuras poderosas, entre elas o presidente dos EUA, Donald Trump, os empresários bilionários Elon Musk e Bill Gates e o ex-presidente dos EUA Bill Clinton, entre outros.

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