Brasil mantém embarques ao Golfo mesmo com restrições em Ormuz
Marinha monitora riscos e orienta empresas sobre segurança marítima
247 - A guerra no Irã e as restrições de tráfego no Estreito de Ormuz não interromperam completamente o fluxo comercial entre o Brasil e países do Golfo Pérsico. Desde o início do conflito, 12 navios cargueiros partiram de portos brasileiros com destino à região, apesar das dificuldades logísticas e dos riscos crescentes à navegação.
As informações foram divulgadas pelo jornal Valor Econômico, com base em dados da Marinha do Brasil. Segundo a Força, oito embarcações deixaram o país em março, primeiro mês do conflito iniciado em 28 de fevereiro, enquanto outras quatro partiram desde o início de abril. A Marinha não detalhou os destinos exatos dentro do Golfo.
O Estreito de Ormuz, principal rota de acesso aos portos da região, tem enfrentado limitações há mais de 50 dias. A situação se agravou após ações militares envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã, seguidas por bloqueios e restrições impostas por diferentes atores no conflito.
De acordo com o embaixador do Brasil no Irã, André Veras, há indícios de que navios com cargas destinadas ao país persa continuam operando. “Eu entendo que navios de interesse do Irã devem estar passando”, afirmou o diplomata, antes da intensificação dos bloqueios americanos a embarcações ligadas ao país.
Apesar do cenário adverso, as exportações brasileiras ao Irã cresceram em termos de valor. Em março, a receita alcançou US$ 134,8 milhões, acima dos US$ 128,6 milhões registrados no mesmo mês de 2025, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Por outro lado, houve retração nas vendas para os dois principais parceiros comerciais do Brasil no Golfo: Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. As exportações para os sauditas somaram US$ 248 milhões em março, abaixo dos US$ 255,6 milhões de um ano antes. Para os Emirados, a queda foi mais acentuada, passando de US$ 248,3 milhões para US$ 207 milhões.
O Irã permanece como um dos principais destinos do milho brasileiro, sendo responsável por cerca de 23% das exportações do cereal em 2025, o equivalente a mais de 9 milhões de toneladas, segundo a Associação Nacional de Exportadores de Cereais. Ainda assim, as operações comerciais enfrentam obstáculos antigos, como o receio de bancos e empresas em relação a sanções internacionais, mesmo quando se trata de alimentos.
Veras destacou que os números reais das exportações podem ser maiores do que os oficialmente registrados. “Possivelmente, muitas dessas cargas estejam sendo levadas para outros países e depois trazidas para cá, ainda que alimentos estejam fora das sanções”, disse.
Para contornar as dificuldades logísticas, o Brasil firmou em março um acordo com a Turquia, permitindo o uso de portos turcos como rota alternativa para o escoamento de mercadorias ao Golfo Pérsico.
Mesmo com os entraves no Estreito de Ormuz, o fluxo de milho brasileiro ao Irã continuou, especialmente pelo porto de Bandar Imam Khomeini. Ao fim da segunda semana de abril, cerca de 500 mil toneladas aguardavam descarregamento no local, enquanto outras 560 mil já estavam sendo processadas. Além disso, aproximadamente 675 mil toneladas chegaram ao país na segunda quinzena de março.
No entanto, o volume total de milho descarregado no Irã — considerando todas as origens — caiu. Em março, foram cerca de 1,1 milhão de toneladas, 200 mil a menos que no mesmo período de 2025. Também há relatos de atrasos nas operações portuárias e nos pagamentos aos exportadores.
A escalada das tensões no estreito se intensificou recentemente. Na semana passada, os Estados Unidos anunciaram o bloqueio de navios que atendem ao Irã, o que levou o país a impor novas restrições ao tráfego no sábado (18).
Diante desse cenário, a Marinha do Brasil informou que segue acompanhando a situação. “A Marinha mantém o monitoramento da situação e difunde análises de risco e orientações de segurança marítima às empresas do setor, especialmente em relação às áreas consideradas sensíveis”, comunicou a instituição.


