Cardeais católicos dos EUA questionam política externa do país após ataques à Venezuela
Líderes da Igreja citam sequestro de Nicolás Maduro e cobram política internacional baseada no diálogo
247 - Três dos mais altos representantes da Igreja Católica à frente de arquidioceses nos Estados Unidos divulgaram nesta segunda-feira (19) uma declaração conjunta na qual colocam em xeque o papel moral dos Estados Unidos na política internacional, citando diretamente episódios recentes na Venezuela, na Ucrânia e na Groenlândia. As informações são do jornal estadunidense The New York Times.
O documento foi assinado pelo cardeal Blase Cupich, arcebispo de Chicago, pelo cardeal Robert McElroy, arcebispo de Washington, e pelo cardeal Joseph Tobin, arcebispo de Newark.
Debate sobre fundamento moral da política externa
No texto, os cardeais afirmam que, em 2026, o país entrou "no debate mais profundo e doloroso sobre o fundamento moral das ações dos Estados Unidos no mundo desde o fim da Guerra Fria". A declaração, embora não cite Donald Trump nominalmente, é direcionada às diretrizes do atual governo dos EUA.
Os líderes religiosos associam esse debate a eventos recentes que, segundo eles, levantaram questões centrais sobre o uso da força militar. Entre os exemplos citados está a Venezuela, onde o governo Trump ordenou ataques a embarcações, além do sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa por militares dos EUA, sem autorização do Congresso.
Na avaliação dos cardeais, esses episódios evidenciam a necessidade de uma "política externa genuinamente moral", na qual "a ação militar deve ser vista apenas como último recurso em situações extremas, e não como instrumento normal da política nacional".
Ameaças à soberania e ao direito internacional
A declaração também menciona ameaças feitas pelo governo estadunidense de assumir o controle da Groenlândia "pela força", além da continuidade da guerra na Ucrânia, como parte de um cenário mais amplo de questionamentos sobre soberania e direito internacional.
Influência do papa Leão XIV
O posicionamento dos cardeais foi inspirado por conversas realizadas no início do mês, em Roma, durante um encontro reservado convocado pelo papa Leão XIV, que reuniu todos os cardeais do mundo. Segundo o cardeal Cupich, houve entre os participantes "um sentimento de alarme sobre os rumos do mundo e sobre algumas das ações que estavam sendo tomadas nos Estados Unidos".
Pouco depois desse encontro, o papa Leão XIV, primeiro pontífice estadunidense, fez um discurso ao corpo diplomático do Vaticano, no início de janeiro, no qual condenou "uma diplomacia baseada na força" e o que chamou de "ímpeto pela guerra", sem mencionar líderes ou países específicos.
O papa tem reiterado publicamente a defesa da soberania da Venezuela e o apelo ao diálogo em vez da violência. Também tem defendido a paz na Ucrânia e afirmou que o plano de paz apresentado por Donald Trump representaria uma "mudança enorme" na relação entre Europa e Estados Unidos.
Críticas à lógica da força
Em entrevistas concedidas ao The New York Times, os cardeais manifestaram preocupação com a consolidação de uma ordem global baseada na força e na dominação, em detrimento de princípios como paz, liberdade e cooperação entre nações.
"O consenso do pós-Segunda Guerra Mundial, baseado no diálogo entre países, nos direitos soberanos das nações e na recusa do uso da guerra para buscar dominação e ganhos nacionais, está se afastando", afirmou o cardeal McElroy.
Preocupação com ajuda externa e política migratória
O texto também menciona a inquietação de lideranças católicas com o desmonte da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional no ano passado, decisão que interrompeu fluxos de ajuda externa destinados a países mais pobres.
Embora Leão XIV tenha evitado confrontos diretos com Donald Trump, sua atuação tem sido observada de perto. Em outubro, diante da intensificação das deportações em Chicago, sua cidade natal, o papa pediu que bispos estadunidenses apoiassem firmemente os imigrantes e incentivou a leitura de uma nota episcopal crítica à política migratória do governo.
A nova declaração dos cardeais apresenta essa visão como uma interpretação do papel do papa Leão XIV na construção de um "compasso ético duradouro" para orientar a política externa dos Estados Unidos nos próximos anos.


