Chanceler iraniano diz estar pronto para enfrentar invasão terrestre dos EUA e rejeita negociações
Abbas Araghchi afirma que Teerã não pediu cessar-fogo, acusa EUA e Israel por ataque que matou crianças e descarta diálogo com Washington
247 - O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou nesta quinta-feira (5) que o país está preparado para enfrentar uma eventual invasão terrestre dos Estados Unidos, em meio à intensificação dos ataques conduzidos por forças americanas e israelenses contra território iraniano.
As declarações foram dadas durante uma entrevista concedida a um telejornal internacional, diretamente de Teerã, enquanto bombardeios continuam sendo registrados em diferentes regiões do país.
Irã afirma estar preparado para confronto militar
Questionado sobre a possibilidade de tropas americanas iniciarem uma ofensiva terrestre, Araghchi adotou um tom de desafio e disse que o Irã está pronto para responder militarmente.
“Não, estamos esperando por eles”, afirmou. Em seguida, acrescentou: “Porque estamos confiantes de que podemos enfrentá-los, e isso seria um grande desastre para eles.”
O chanceler também declarou que Teerã não solicitou um cessar-fogo diante da ofensiva militar recente.
“Não pedimos cessar-fogo nem da última vez. Na ocasião anterior, foi Israel quem pediu cessar-fogo. Eles pediram um cessar-fogo incondicional após 12 dias em que resistimos à agressão deles.”
A fala faz referência ao conflito de 12 dias ocorrido em junho, quando forças israelenses e americanas realizaram ataques contra instalações nucleares iranianas.
Acusação por ataque que matou crianças
Durante a entrevista, Araghchi também comentou um ataque ocorrido em uma escola primária na cidade de Minab, que resultou na morte de dezenas de crianças. Autoridades americanas afirmaram que o episódio está sendo investigado e levantaram a hipótese de que a explosão possa ter sido provocada por uma munição iraniana.
O chanceler rejeitou essa versão e atribuiu a responsabilidade aos bombardeios conduzidos pelos Estados Unidos e por Israel.
“Isso foi o que nossos militares disseram. Então foi ou os Estados Unidos ou Israel. Qual é a diferença?”, declarou.
Segundo ele, 171 crianças morreram no ataque.
Irã descarta novas negociações com Washington
Araghchi também afirmou que o atual conflito ocorreu enquanto negociações diplomáticas ainda estavam em andamento entre autoridades iranianas e representantes ligados ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
De acordo com o ministro, reuniões haviam sido realizadas recentemente em Genebra com o enviado de Trump, Steve Witkoff, e com Jared Kushner. Após os bombardeios, Teerã considera improvável qualquer retomada do diálogo.
“O fato é que não temos nenhuma experiência positiva de negociação com os Estados Unidos. Especialmente com este governo.”
Ele acrescentou: “Negociamos duas vezes no ano passado e neste ano, e no meio das negociações eles nos atacaram.”
Para o chanceler iraniano, essa sequência de acontecimentos compromete a confiança necessária para qualquer nova rodada diplomática.
“Não vemos motivo para nos envolver novamente com aqueles que não são honestos nas negociações e que não entram nelas de boa-fé.”
Chanceler vê guerra sem vencedores
Ao avaliar o cenário do conflito em curso, Araghchi afirmou que a guerra dificilmente produzirá vencedores claros.
“Não há vencedor nesta guerra”, declarou. “Nossa vitória é conseguir resistir a objetivos ilegais, e é isso que temos feito até agora.”
Processo de sucessão no Irã
A escalada militar ocorre após a morte do líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, durante ataques recentes. A situação abriu um vácuo de poder no país e alimentou especulações sobre quem poderá assumir a liderança.
Entre os nomes mencionados nos rumores está Mojtaba Khamenei, filho do antigo líder supremo. A possibilidade gerou debates internos por lembrar a lógica de sucessão familiar associada ao regime monárquico derrubado pela Revolução Islâmica de 1979.
Araghchi afirmou que a escolha seguirá o mecanismo institucional previsto na Constituição iraniana.
“Há muitos rumores, mas precisamos esperar que a Assembleia de Peritos escolha um novo líder supremo.”
O chanceler explicou que o processo pode demorar devido à guerra em andamento. A Assembleia de Peritos é um órgão composto por 88 membros responsável por eleger o líder supremo.
“Há muitos rumores, mas ninguém sabe exatamente quem poderá ser eleito no final.”
Ele também rejeitou especulações de que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, teria sugerido participar da escolha do novo líder.
“Isso é absolutamente um assunto do povo iraniano, e ninguém pode interferir.”


