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Chefe da Patrulha de Fronteira dos EUA é acusado de zombar de procurador judeu de Minnesota

Gregory Bovino teria ironizado a fé judaica do procurador federal de Minnesota durante ligação com membros do Departamento de Justiça

Gregory Bovino durante coletiva de imprensa (Foto: Reuters)

247 - Um telefonema entre integrantes do Ministério Público federal de Minnesota e Gregory Bovino, chefe de campo da Patrulha de Fronteira dos Estados Unidos, gerou questionamentos internos no governo federal após relatos de comentários atribuídos ao comandante sobre a fé religiosa do procurador federal Daniel N. Rosen, que é judeu ortodoxo. A conversa ocorreu na segunda-feira (12) e foi acompanhada por procuradores do escritório federal no estado.

As informações foram publicadas pelo The New York Times, com base em relatos de pessoas com conhecimento direto da ligação. Segundo essas fontes, Bovino utilizou de forma irônica a expressão “povo escolhido” ao se referir a Rosen e questionou, em tom sarcástico, se o procurador compreendia que “criminosos judeus ortodoxos não tiram folga nos fins de semana”.

O telefonema foi solicitado por Bovino com o objetivo de pressionar o escritório do procurador federal a buscar acusações criminais contra pessoas que, segundo ele, estariam interferindo ilegalmente nas ações de agentes de imigração. Rosen não participou da conversa e delegou a participação a um procurador adjunto. Durante a ligação, Bovino reclamou de dificuldades para contatar Rosen em partes do fim de semana, período em que o procurador observa o Shabat, prática religiosa que inclui restrições ao uso de dispositivos eletrônicos entre a noite de sexta-feira e a noite de sábado.

As declarações atribuídas a Bovino levantaram preocupações jurídicas entre procuradores federais. Segundo o jornal, integrantes do Departamento de Justiça avaliam que o episódio pode se enquadrar nas obrigações previstas na decisão da Suprema Corte de 1972 no caso Giglio, que exige a divulgação à defesa de informações que possam colocar em dúvida a credibilidade ou o caráter de agentes da lei envolvidos como testemunhas em processos criminais.

Bovino não respondeu aos pedidos de comentário. Tricia McLaughlin, porta-voz do Departamento de Segurança Interna, ao qual a Patrulha de Fronteira está vinculada, não respondeu diretamente às perguntas sobre as falas atribuídas ao comandante e declarou: “Em vez de focar em fofoca, por que vocês não focam em algo realmente importante, como as vítimas de crimes cometidos por imigrantes ilegais ou os criminosos retirados das comunidades de Minneapolis?”. O Departamento de Justiça também não se manifestou. Rosen recusou comentar o episódio.

Daniel N. Rosen assumiu o cargo de procurador federal de Minnesota em outubro do ano passado e tem mantido perfil discreto desde então. Em entrevista concedida naquele mês ao site Jewish Insider, afirmou que uma de suas “principais motivações” para buscar a função foi a possibilidade de enfrentar o que classificou como a “rápida escalada do antissemitismo violento” nos Estados Unidos. “A história judaica nos diz que os judeus se dão mal em sociedades que se tornam polarizadas e onde essa polarização evolui para ódios faccionais nas sociedades não judaicas em que vivemos”, disse.

Gregory Bovino, baseado no sul da Califórnia, tornou-se uma figura de destaque nas operações migratórias conduzidas pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. No ano passado, sua atuação em cidades como Los Angeles e Chicago gerou atritos com autoridades locais. Em janeiro, ele passou várias semanas em Minnesota, onde participou da coordenação do envio de cerca de 3 mil agentes federais ao estado, operação que enfrentou oposição de moradores locais.

Durante esse período, Bovino foi frequentemente fotografado usando um sobretudo verde, descrito por autoridades federais como parte do uniforme de inverno da Patrulha de Fronteira. A vestimenta recebeu críticas nas redes sociais por sua semelhança com uniformes militares da Alemanha nazista. Bovino deixou Minneapolis na terça-feira (28), em meio à repercussão de um novo tiroteio fatal envolvendo agentes de imigração.

Agentes sob seu comando mataram Alex Pretti, morador de Minneapolis e enfermeiro de um hospital da rede de veteranos. Horas após o ocorrido, Bovino afirmou em entrevista coletiva: “Isso parece uma situação em que um indivíduo queria causar o máximo de dano e massacrar as forças de segurança”. Vídeos do episódio mostram agentes imobilizando Pretti no chão, retirando uma arma próxima ao seu quadril e efetuando disparos pelas costas.

Em Chicago, Bovino também foi alvo de decisões judiciais que impuseram restrições às suas ações e às de agentes sob sua supervisão. Em novembro, a juíza federal Sara L. Ellis concluiu que Bovino havia prestado informações falsas sobre táticas da Patrulha de Fronteira e sobre a conduta de manifestantes durante operações anteriores.

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