Cônsul dos EUA sugere que empresas chinesas não podem vencer leilão de megaterminal em Santos
Diplomata norte-americano afirma que megaterminal Tecon 10 tem importância estratégica e cita preocupações com participação de empresas chinesas
247 - A possível participação de empresas chinesas no leilão do megaterminal Tecon 10, no porto de Santos (SP), tornou-se tema de tensão geopolítica após declarações do cônsul-geral dos Estados Unidos em São Paulo, Kevin Murakami, durante um evento com empresários do setor portuário. O diplomata indicou que o empreendimento não deveria “cair em mãos indesejadas”, numa referência interpretada por participantes como um recado contra a vitória de grupos chineses na futura disputa, segundo a Folha de São Paulo.
A declaração foi dada durante palestra realizada em Santos no dia 5 de março, em evento promovido pelo Grupo A Tribuna, principal conglomerado de comunicação da Baixada Santista.
Segundo três empresários do setor portuário que acompanharam o encontro, o discurso de Murakami incluiu a avaliação de que o porto de Santos possui importância estratégica para os Estados Unidos, especialmente em temas relacionados à geopolítica e ao combate ao crime organizado. Essa análise, afirmam os presentes, era esperada. O que chamou atenção foi a menção direta ao leilão do Tecon 10, considerado um dos maiores projetos de infraestrutura portuária previstos no Brasil.
O megaterminal ainda não tem data definida para licitação, após sucessivos adiamentos no cronograma do governo federal. A disputa deve atrair grandes operadores internacionais, mas até o momento nenhuma empresa norte-americana aparece entre as favoritas.
De acordo com os relatos dos empresários presentes ao evento, a fala do cônsul transmitiu a mensagem de que não seria do interesse do governo dos Estados Unidos que companhias chinesas vençam o certame. O posicionamento ocorre em meio à disputa global por influência econômica e estratégica entre Washington e Pequim, intensificada durante o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Após a publicação da coluna, o consulado norte-americano em São Paulo enviou um comunicado por e-mail reconhecendo a existência de preocupações relacionadas à participação de empresas chinesas no leilão. Segundo a representação diplomática, o governo dos Estados Unidos tem “preocupações em relação à participação de empresas chinesas no leilão, relacionadas à soberania, segurança, competição e alavancagem estratégica.”
O consulado acrescentou que, durante o evento, também foram abordados temas como a atuação do crime organizado e o comércio bilateral entre Brasil e Estados Unidos. Na avaliação da representação diplomática, o porto de Santos tem papel relevante nessa relação econômica “uma vez que parte significativa desse comércio passa pelo porto.”
Apesar disso, o consulado afirmou que Murakami não fez pressão direta sobre o resultado do futuro leilão.
Disputa pelo modelo do leilão
Além da disputa geopolítica, o projeto do Tecon 10 também enfrenta divergências internas no Brasil sobre o modelo de concessão. Uma recomendação do Tribunal de Contas da União (TCU) sugere que o processo ocorra em duas fases e sem a participação de armadores na etapa inicial.
Na prática, especialistas do setor avaliam que essa regra poderia excluir armadores da disputa, já que uma concessão desse porte dificilmente avançaria além da primeira fase.
A proposta do TCU é considerada ainda mais restritiva que a defendida pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). O órgão regulador também propôs um modelo em fases, porém com exclusão apenas dos armadores incumbentes — empresas que já operam terminais no porto de Santos.
Essa restrição afetaria especialmente dois gigantes do transporte marítimo global: a dinamarquesa Maersk e a suíça MSC, que já possuem operações no porto paulista.
As duas companhias defendem um leilão em fase única e sem restrições à participação de armadores. Segundo a coluna da Folha, elas contam com apoio do Parlamento Europeu e de setores do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, embora não tenham respaldo do ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho.
Ao mesmo tempo, empresas chinesas também têm intensificado articulações políticas em Brasília. Armadores do país asiático fazem lobby junto a ministros e integrantes do governo federal para garantir o direito de participar da licitação — movimento que está no centro das preocupações manifestadas pelo cônsul norte-americano.