Crise na OTAN se agrava após irritação de Trump com aliados europeus sobre guerra contra o Irã
Presidente dos EUA ameaça rever compromisso com a aliança militar, enquanto europeus passam a considerar como cenário real uma OTAN sem apoio efetivo
247 – A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) enfrenta um de seus momentos mais delicados desde a fundação, em 1949, após a escalada das tensões entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e governos europeus em meio à guerra travada por EUA e Israel contra o Irã. A nova crise, segundo reportagem da Reuters publicada nesta sexta-feira, aprofunda dúvidas sobre o compromisso de Washington com a defesa coletiva do bloco e amplia o pessimismo em capitais europeias sobre o futuro da aliança.
De acordo com a Reuters, a irritação de Trump aumentou depois que países europeus se recusaram a enviar suas marinhas para ajudar a reabrir o Estreito de Ormuz ao transporte marítimo global, após o início da guerra aérea em 28 de fevereiro. Em entrevista à própria agência, o presidente dos Estados Unidos indicou que considera retirar seu país da OTAN. “Você não faria isso se estivesse no meu lugar?”, perguntou Trump à Reuters na quarta-feira.
A declaração acendeu um alerta inédito entre diplomatas e analistas. Ainda que Trump não tenha formalizado uma ruptura com a aliança, cresce na Europa o temor de que os Estados Unidos possam simplesmente se recusar a defender parceiros do bloco em caso de ataque, esvaziando na prática o princípio de defesa mútua que sustenta a OTAN desde a Guerra Fria.
Europa vê erosão do pacto de defesa coletiva
A preocupação central entre autoridades europeias não é apenas a possibilidade de uma retirada formal de Washington, mas o enfraquecimento político e operacional do Artigo 5º, a cláusula que estabelece que um ataque contra um membro da OTAN deve ser tratado como um ataque contra todos.
Para Max Bergmann, ex-integrante do Departamento de Estado dos EUA e atual diretor do programa para Europa, Rússia e Eurásia do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, a situação é histórica pela gravidade. “Este é o pior momento em que a OTAN se encontra desde que foi fundada”, afirmou. Em seguida, reforçou o diagnóstico sombrio: “É realmente difícil pensar em qualquer coisa que sequer se aproxime disso”.
A avaliação reflete uma mudança perceptível no ambiente político europeu. Se, até pouco tempo atrás, muitos líderes do continente ainda apostavam que Trump poderia ser contido com gestos diplomáticos, solenidades e concessões retóricas, essa esperança vem se desfazendo rapidamente. A percepção agora é a de que a relação transatlântica entrou em uma fase de desgaste estrutural.
Essa mudança aparece também nas declarações de figuras militares e diplomáticas da Europa. O general François Lecointre, que comandou as Forças Armadas da França entre 2017 e 2021, sintetizou a nova mentalidade que ganha espaço no continente: “A OTAN continua necessária, mas precisamos ser capazes de pensar a OTAN sem os americanos”. Ele foi além, ao levantar uma dúvida que até recentemente soaria impensável: “Se ela deveria continuar a se chamar OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte – é uma questão válida”.
Guerra com o Irã leva a choque entre Washington e aliados
A crise atual difere de episódios anteriores de tensão porque não decorre diretamente da guerra na Ucrânia nem de disputas internas da aliança sobre gastos militares. Desta vez, o gatilho foi a pressão de Washington para que aliados europeus se envolvessem mais diretamente em uma operação ligada ao conflito com o Irã, milhares de quilômetros distante da Europa.
Integrantes do governo Trump manifestaram frustração com o que consideram falta de apoio da OTAN em um momento de necessidade para os Estados Unidos. Segundo a Reuters, autoridades americanas reclamam que os aliados não ajudaram de forma direta na questão do Estreito de Ormuz e ainda impuseram restrições ao uso, pelos EUA, de algumas bases aéreas e espaços aéreos.
A posição da Casa Branca foi resumida pela porta-voz Anna Kelly, que reforçou a insatisfação do presidente norte-americano. “O presidente Trump deixou clara sua decepção com a OTAN e outros aliados e, como o presidente enfatizou, ‘os Estados Unidos vão se lembrar’”, declarou.
Do lado europeu, porém, a leitura é distinta. Autoridades do continente argumentam que não receberam pedidos concretos dos Estados Unidos sobre quais meios militares deveriam ser fornecidos para uma eventual missão de abertura do estreito. Além disso, reclamam de falta de clareza de Washington sobre se a operação deveria ocorrer durante a guerra ou apenas após o conflito.
Para Jamie Shea, ex-alto funcionário da OTAN e atualmente pesquisador sênior do centro Friends of Europe, o momento representa um duro golpe justamente para os países que tentaram demonstrar maior responsabilidade militar desde a volta de Trump à Casa Branca. “É uma situação terrível para a OTAN”, disse. E acrescentou: “É um golpe para os aliados que, desde o retorno de Trump à Casa Branca, trabalharam arduamente para mostrar que estão dispostos e são capazes de assumir mais responsabilidade”.
Relação transatlântica já vinha se deteriorando
As ameaças mais recentes de Trump não surgem no vazio. Elas se somam a uma sequência de episódios que já vinham corroendo a confiança europeia na liderança dos Estados Unidos dentro da aliança atlântica.
Entre os pontos citados pela Reuters estão as ameaças intensificadas por Trump, em janeiro, de tomar a Groenlândia da Dinamarca, além de movimentos recentes da política externa norte-americana considerados excessivamente complacentes com a Rússia, que a própria OTAN define como sua principal ameaça de segurança.
Outro elemento que aumentou o mal-estar entre europeus foi o silêncio da administração Trump diante de relatos segundo os quais Moscou teria fornecido dados de mira para que o Irã atacasse ativos americanos no Oriente Médio. Também causou desconforto a decisão dos Estados Unidos de suspender sanções sobre o petróleo russo em uma tentativa de aliviar os preços globais da energia, pressionados pela guerra.
A deterioração do diálogo ficou evidente, segundo a Reuters, em uma reunião de chanceleres do G7 nas proximidades de Paris na semana passada. Na ocasião, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e a chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, tiveram uma troca tensa. De acordo com cinco pessoas familiarizadas com o episódio, Kallas perguntou quando a paciência dos Estados Unidos com o presidente russo, Vladimir Putin, se esgotaria diante das negociações sobre a Ucrânia. Rubio teria reagido com irritação, afirmando que Washington buscava encerrar a guerra ao mesmo tempo em que seguia apoiando Kiev, e que a União Europeia poderia atuar como mediadora se quisesse.
Mesmo sem saída formal, Trump pode enfraquecer a OTAN
Um dos pontos mais sensíveis do debate atual é que Trump talvez nem precise retirar oficialmente os Estados Unidos da OTAN para provocar uma ruptura prática no funcionamento da aliança.
A Reuters destaca que uma lei aprovada em 2023 impede que um presidente norte-americano abandone o bloco sem o consentimento de dois terços do Senado dos EUA, um patamar politicamente quase inalcançável. Mas especialistas observam que, na condição de comandante-em-chefe, Trump pode decidir se as Forças Armadas americanas sairão ou não em defesa de países-membros em uma situação de ataque.
Ou seja: mesmo sem uma retirada formal, a simples recusa em agir militarmente em defesa de aliados já seria suficiente para esvaziar a credibilidade da OTAN e colocar em xeque sua razão de existir.
Esse cenário ajuda a explicar por que tantos governos europeus passaram a tratar como hipótese concreta a necessidade de reorganizar sua segurança sem depender integralmente de Washington. Até poucos meses atrás, essa possibilidade era considerada remota. Em fevereiro, o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, havia descartado a ideia de uma defesa europeia sem os Estados Unidos como um “pensamento tolo”. Agora, segundo a Reuters, muitos diplomatas e autoridades já enxergam isso como pressuposto básico do novo ambiente estratégico.
Sem volta ao modelo anterior
Ainda há quem relativize a gravidade da crise. Um diplomata francês ouvido pela Reuters descreveu a retórica de Trump como uma explosão passageira de temperamento. Também se recorda que o presidente dos Estados Unidos já mudou de posição sobre a OTAN em outros momentos.
Durante a campanha de 2024, Trump afirmou que encorajaria Putin a atacar membros da OTAN que não gastassem o suficiente em defesa. No entanto, na cúpula anual da aliança, em junho de 2025, ele adotou tom completamente distinto e chegou a elogiar efusivamente líderes europeus como pessoas que “amam seus países”.
Na próxima semana, Mark Rutte deve viajar a Washington com a missão de tentar, mais uma vez, reverter a visão de Trump sobre a aliança. O esforço mostra que, apesar do aprofundamento das divergências, os europeus ainda veem fortes razões para manter os Estados Unidos engajados na estrutura atlântica. Entre elas está a superioridade militar americana em áreas que os demais membros da OTAN não conseguem substituir facilmente, como inteligência por satélite.
Ainda assim, cresce a convicção de que a relação transatlântica entrou em um ponto de inflexão. Mesmo que a OTAN sobreviva formalmente, o sistema político-militar construído no pós-Segunda Guerra Mundial pode não voltar a ser o mesmo.
Julianne Smith, embaixadora dos Estados Unidos na OTAN durante o governo do ex-presidente Joe Biden, resumiu essa percepção com um alerta contundente. “Eu realmente acho que estamos virando a página de 80 anos de trabalho conjunto”, disse. Em seguida, acrescentou: “Não acho que isso signifique o fim da relação transatlântica, mas estamos à beira de algo que terá uma aparência e uma natureza diferentes”.
Aliança militar entra em fase de incerteza histórica
O que está em jogo, portanto, não é apenas mais uma divergência diplomática entre Washington e capitais europeias. Trata-se de uma crise sobre os próprios fundamentos da OTAN, em um momento em que a Europa se sente pressionada por uma Rússia mais assertiva e por um cenário geopolítico cada vez mais instável.
A reportagem da Reuters sugere que o continente começa a admitir, com crescente realismo, a possibilidade de um futuro em que os Estados Unidos deixem de ser o eixo automático da segurança europeia. Esse reposicionamento mental, por si só, já representa uma transformação histórica.
Se a aliança militar mais poderosa do Ocidente continuará existindo nos moldes em que foi concebida, ainda é uma pergunta em aberto. Mas o diagnóstico em ambos os lados do Atlântico é que a crise atual abriu uma fissura profunda e talvez irreversível na arquitetura estratégica que definiu a ordem internacional nas últimas oito décadas.


