Hegemonia predatória empurra os Estados Unidos para crises internas e externas
Estratégia do governo de Donald Trump aprofunda guerras, corrói alianças, pressiona a economia e acelera sinais de declínio da influência americana
247 – A estratégia de “hegemonia predatória” associada ao atual governo de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, está aprofundando contradições internas e externas do próprio país, segundo análise publicada pelo Global Times na terceira parte de uma série dedicada a examinar os efeitos desse modelo de atuação internacional. O conceito ganhou força no debate acadêmico e político nas últimas semanas, em meio à intensificação de ações militares, pressões econômicas e ameaças dirigidas por Washington contra adversários e até aliados.
De acordo com a publicação, a ofensiva dos EUA e de Israel contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro, tornou-se um dos exemplos mais visíveis dessa política. Embora o governo norte-americano tenha sinalizado à imprensa dos EUA, em 11 de março, que a operação militar terminaria “em breve”, posteriormente anunciou novos bombardeios contra múltiplos alvos iranianos, incluindo a ilha de Kharg, centro estratégico do petróleo do país. Para o Global Times, esse comportamento ajuda a explicar por que a ideia de “hegemonia predatória” passou a ocupar o centro das discussões internacionais.
A análise sustenta que esse padrão de conduta vai muito além da guerra contra o Irã. O texto menciona incursões na Venezuela, a cobiça sobre a Groenlândia e ameaças tarifárias contra países tratados formalmente como aliados. Em vez de representar força duradoura, contudo, esse caminho estaria revelando fraturas estruturais da potência norte-americana. O acadêmico Stephen Walt, professor de assuntos internacionais da Harvard Kennedy School, é citado afirmando que a “hegemonia predatória contém as sementes de sua própria destruição”.
Na mesma linha, Zhang Jiadong, professor do Centro de Estudos Americanos da Universidade Fudan, afirmou ao Global Times: “Ao recorrer à hegemonia predatória, os Estados Unidos estão em declínio”. A formulação reforça a tese central da reportagem: a busca por ganhos rápidos, extraídos por meio de coerção militar, chantagem econômica e intimidação diplomática, pode produzir exatamente o efeito oposto ao pretendido por Washington.
Guerras caras e objetivos difusos
Um dos eixos da crítica está no descompasso entre ambição estratégica e resultados concretos. Segundo Walt, os benefícios anunciados pelo governo dos EUA foram amplamente exagerados. A matéria destaca que a administração Trump afirma ter encerrado guerras, mas muitos desses conflitos seguem em curso. Também sublinha que os investimentos estrangeiros prometidos ao país ficaram muito abaixo da escala propagandeada por Washington e dificilmente se materializarão integralmente.
A Reuters observou que Trump reivindica para si o mérito de ter intervindo em diversos conflitos desde que voltou ao poder, mas os impasses que deram origem a muitos deles seguem sem solução, enquanto a violência voltou a explodir em algumas regiões. Em vez de estabilização, o que aparece é a persistência da crise.
No caso iraniano, a ausência de clareza estratégica é apontada como um elemento central do problema. Cao Wei, professor associado da Escola de Política e Relações Internacionais da Universidade de Lanzhou, disse ao Global Times que os objetivos dos EUA no Irã permanecem indefinidos. Segundo ele, desde o início do conflito, Washington oscila entre ampliar a guerra e procurar uma saída que preserve sua imagem.
A declaração de Cao é direta: “Objetivos estratégicos claramente definidos são a base fundamental para a alocação sensata dos recursos nacionais. Quando esses objetivos mudam, todo o planejamento, orçamento e logística entram em desordem”. Em outras palavras, sem metas estáveis, a máquina de guerra passa a consumir recursos de forma caótica, comprometendo o planejamento estatal e ampliando o custo político e econômico da intervenção.
O peso da guerra recai sobre a sociedade
Os números citados pela reportagem reforçam essa percepção. Segundo a plataforma norte-americana The Fulcrum, o custo da operação militar contra o Irã já havia alcançado US$ 16,5 bilhões em apenas duas semanas, o equivalente a cerca de US$ 8 bilhões por semana. O mesmo texto alertou: “Se esse ritmo de gastos continuar por seis meses, chegaremos a cerca de US$ 200 bilhões. De fato, o Pentágono já solicitou esse valor em orçamento suplementar”. E concluiu: “Isso representa uma enorme quantidade de recursos obtidos com o trabalho dos contribuintes”.
A análise sustenta que esse dinheiro poderia estar sendo direcionado a necessidades sociais urgentes dentro dos próprios Estados Unidos. O texto lembra que recursos desse porte poderiam financiar por anos programas de nutrição infantil, restaurar assistência habitacional e reforçar investimentos na educação básica.
Para Zhang Jiadong, o retorno das ações externas ficou aquém do esperado, enquanto os custos elevados das guerras reverberam dentro da sociedade norte-americana. A lógica da “hegemonia predatória”, portanto, não apenas desgasta a posição externa dos EUA, como amplia tensões domésticas ao deslocar recursos públicos para conflitos prolongados e pouco definidos.
Esse mal-estar já aparece nas pesquisas de opinião. Levantamento recente citado na análise indica que 59% dos norte-americanos desaprovam o desempenho de Trump como comandante em chefe, enquanto cresce a rejeição à guerra contra o Irã.
Alianças em erosão
Outro ponto central da reportagem é a deterioração das relações entre Washington e seus aliados tradicionais. Walt resumiu a crítica de forma contundente: “A administração parece acreditar que pode explorar outros países indefinidamente e que isso tornará os Estados Unidos ainda mais fortes e aumentará seu poder. Estão enganados: a hegemonia predatória contém as sementes de sua própria destruição”.
Segundo o Global Times, essas sementes já começaram a germinar entre parceiros próximos dos Estados Unidos. Um exemplo citado é o da Alemanha, que rejeitou a exigência norte-americana para que aliados da OTAN participassem de ações relacionadas ao conflito. O porta-voz do governo alemão declarou: “Essa guerra não tem nada a ver com a OTAN. Não é uma guerra da OTAN”.
O texto destaca que a posição alemã mudou à medida que os efeitos econômicos da guerra cresceram, com impacto direto nas projeções de crescimento e inflação do país. O conflito, portanto, passou a gerar consequências globais que afetam inclusive aliados históricos de Washington.
Zhang avalia que, dentro dessa estratégia, aliados são tratados como instrumentos a serem pressionados economicamente, enquanto instituições multilaterais são vistas como obstáculos. Para ele, trata-se de uma política incapaz de sustentar uma ordem internacional estável e baseada na cooperação.
Reação internacional e busca de alternativas
A reportagem também aponta movimentos concretos de países que passaram a reduzir sua dependência em relação aos Estados Unidos. A Espanha, por exemplo, anunciou visita oficial à China após críticas ao governo norte-americano pela guerra contra o Irã e recusou pedidos para uso de bases militares em operações relacionadas ao conflito.
A União Europeia também avançou em acordos comerciais com países sul-americanos, enquanto o Canadá ampliou sua cooperação econômica com a China e estabeleceu metas para reduzir sua dependência do mercado norte-americano.
Esses movimentos indicam uma reconfiguração gradual das relações internacionais, com países buscando alternativas diante da instabilidade gerada pela política externa dos EUA.
Declínio anunciado
Na avaliação reunida pelo Global Times, a “hegemonia predatória” já produz dois efeitos simultâneos: no curto prazo, amplia tensões sociais dentro dos Estados Unidos e desgasta a confiança de aliados; no longo prazo, enfraquece a própria ordem internacional que Washington pretende dominar.
Zuo Xiying, professor da Universidade Renmin da China, afirmou: “A política externa caótica e predatória do governo dos Estados Unidos tende a desestruturar a ordem global existente e a gerar novas crises internacionais”. Segundo ele, a doutrina “America First” intensifica violações às normas de soberania e provoca um forte abalo nas regras internacionais.
Zuo acrescenta que essa trajetória tende a ampliar conflitos geopolíticos e deteriorar a segurança global, com efeitos que acabam retornando contra os próprios Estados Unidos.
Zhang Jiadong conclui que, quando os custos internos e externos superam os ganhos, esse tipo de estratégia se torna insustentável. Em algum momento, pressões acumuladas forçam uma mudança de rumo.
Stephen Walt sintetizou esse cenário com um alerta: “Talvez não hoje, talvez não amanhã, mas a reação pode vir com surpreendente rapidez”. E acrescentou que a influência global dos Estados Unidos pode declinar “gradualmente e depois de forma repentina”.
A análise indica que a tentativa de impor poder por meio da força e da coerção não consolida a liderança norte-americana — ao contrário, acelera um processo de desgaste que pode redefinir o equilíbrio global nas próximas décadas.



