Epstein lucrou no pico do risco soberano do Brasil em 2016, às vésperas do impeachment de Dilma
E-mails indicam lucro milionário com CDS do Brasil no auge da crise que antecedeu o impeachment de Dilma
247 - Mensagens atribuídas ao financista Jeffrey Epstein indicam que ele obteve um ganho financeiro expressivo ao encerrar, em janeiro de 2016, uma posição ligada ao aumento do risco soberano do Brasil, justamente no período de maior tensão política que antecedeu o impeachment da então presidente Dilma Rousseff. Os registros sugerem que a operação foi encerrada no momento em que a percepção de risco internacional sobre o país atingia seu ponto mais elevado durante aquela crise.
A revelação foi publicada pelo site Brazil Stock Guide, que afirma ter analisado e-mails internos classificados como confidenciais, datados de sexta-feira, 15 de janeiro de 2016. O material aponta instruções para desmontar uma posição atrelada ao CDS soberano brasileiro de cinco anos — instrumento usado no mercado como proteção contra calotes e frequentemente adotado como termômetro do risco de crédito de um país.
De acordo com os e-mails, a orientação era para “unwind at 462 bp” — expressão em inglês que indica o encerramento da posição no patamar de 462 pontos-base. Em seguida, a correspondência menciona que a ordem seria deixada com o operador “good for the day”, ou seja, válida apenas durante aquele pregão, sugerindo uma tentativa de executar a operação no ápice da tensão do mercado.
Os registros também descrevem os preços ofertados no momento da transação. Segundo o conteúdo, o banco responsável pela intermediação apresentou uma oferta de compra a 452 pontos-base e uma oferta de venda a 467 pontos-base para a proteção de CDS do Brasil. O encerramento teria implicado um pagamento de unwind de US$ 1.278.512.
As mensagens citadas ainda indicam que aproximadamente US$ 491.941 haviam sido desembolsados inicialmente para a entrada na operação. Com base nesses valores, o lucro estimado obtido por Epstein teria sido de US$ 786.571, o equivalente a um retorno aproximado de 160% sobre o capital aplicado. Considerando a cotação aproximada de R$ 5,20 por dólar, o ganho representaria cerca de R$ 4,1 milhões em valores atualizados.
A operação foi intermediada pelo Deutsche Bank, segundo o material analisado. Os e-mails apontam que o encerramento foi sugerido pela instituição e executado a partir da orientação do executivo Vahe Stepanian, então vice-presidente encarregado da cobertura de single family offices nos Estados Unidos. As mensagens o descrevem como responsável por oferecer a esses clientes acesso à plataforma global do banco, incluindo produtos como derivativos e operações apoiadas no balanço da instituição.
Embora os documentos não indiquem quando a posição foi aberta, o tamanho do lucro sugere que a estratégia pode ter sido montada meses antes, ainda em 2015, período em que o CDS brasileiro era negociado a níveis inferiores, antes do aprofundamento da crise e da deterioração do ambiente político e fiscal.
No início de 2016, o Brasil enfrentava simultaneamente uma recessão severa, piora acelerada das contas públicas, rebaixamentos do rating soberano e uma escalada da crise institucional no Congresso, que caminhava para o afastamento presidencial. Esse cenário levou a uma forte reprecificação do risco do país e impulsionou o custo dos instrumentos de proteção de crédito vinculados à dívida brasileira.
A votação do impeachment de Dilma Rousseff só ocorreria mais tarde, em abril de 2016, mas o período registrado nos e-mails coincide com o auge da percepção de risco. Segundo a reportagem, aquele patamar de estresse soberano não voltaria a ser observado nem mesmo em episódios posteriores de turbulência, como a greve dos caminhoneiros em 2018 ou o choque global provocado pela pandemia de Covid-19.
O conteúdo analisado não aponta qualquer indício de coordenação política, contato com agentes públicos ou uso de informação privilegiada. Ainda assim, o timing da operação chama atenção por ter ocorrido no ponto mais crítico do mercado, quando a instabilidade política e econômica elevava o prêmio de risco exigido por investidores internacionais.
Jeffrey Epstein foi encontrado morto em sua cela nos Estados Unidos em agosto de 2019 e posteriormente tornou-se figura central de um escândalo global envolvendo acusações de abuso sexual, irregularidades financeiras e relações com autoridades públicas e bilionários. A Brazil Stock Guide afirma que procurou Vahe Stepanian por e-mail para comentar a operação e as mensagens citadas, mas não obteve resposta até o momento.


