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Epstein tentou comprar outra agência de modelos no Brasil, revela empresária: "repugnante”

De acordo com os arquivos, após mirar a Ford Models, Epstein passou a tratar da possível compra da Joy Models

Bilionário Jeffrey Epstein tentou comprar outra agência de modelos brasileira e empresária Liliana Gomes relembra negociação (Foto: Reprodução)

247 - Epstein, bilionário condenado por crimes sexuais e morto na prisão em 2019, tentou avançar sobre mais de uma agência de modelos brasileira, segundo documentos tornados públicos recentemente nos Estados Unidos. A revelação foi publicada pelo Extra. 

De acordo com os arquivos, após mirar a Ford Models, Epstein passou a tratar da possível compra da Joy Models, de São Paulo, por meio de Ramsey Elkholy, seu representante. As mensagens indicam reuniões com os sócios Liliana Gomes e Marcelo Fonseca e até um encontro nos bastidores do desfile da Victoria’s Secret, em 2016, quando o tema teria sido discutido de maneira informal.

A primeira demonstração de interesse, segundo os e-mails, ocorreu em agosto de 2016. Elkholy escreveu que estrangeiros só poderiam deter 30% de uma empresa brasileira, mas acrescentou que “tem outros meios para conseguir isso”. Na sequência, informou que a Joy “está à venda” e recebeu de Epstein a orientação direta para apurar o valor do negócio. “Pegue os números”, escreveu o bilionário. “Da agência toda?”, perguntou o intermediário. “Sim”, determinou Epstein.

As tratativas, porém, avançaram lentamente. Em setembro daquele ano, Elkholy informou que tentaria organizar uma reunião, mas disse que o Brasil “é devagar” e que ainda não tinha novidades. Em outubro, voltou a escrever afirmando que retomara as conversas com a Joy e que a opção seria “melhor do que a Ford”, mencionando supostos problemas fiscais e trabalhistas da concorrente. Ele também sugeriu apresentar o dono da Joy a Epstein em Nova York, caso ambos estivessem na cidade.

Uma semana depois, o intermediário confirmou que iria encontrar o sócio da agência, mas as mensagens seguintes mostram um hiato de informações até janeiro de 2017, quando Epstein cobrou atualizações. Elkholy respondeu que ainda não tinha clareza sobre os planos da Joy e comentou que Marcelo, um dos proprietários, poderia tentar impressionar o investidor “no jeitinho brasileiro”, o que, segundo ele, significaria “exagerar, inflar todos os números”. 

No mesmo e-mail, acrescentou que “as meninas (as modelos) estão lá” e que a empresa buscava expandir negócios pelo Leste Europeu.Procurados, os donos da Joy Models confirmaram que houve contatos e encontros, mas negaram qualquer intenção de vender a empresa e disseram que o nome de Epstein jamais foi mencionado. Em nota, Liliana Gomes afirmou: “Somos frequentemente procurados por empresas interessadas em investir no nosso mercado, ou propondo parcerias. Em 2016, recebi um contato de uma pessoa que se apresentou justamente desta forma: ele se identificava como Ramsey, se dizia interessado em investir no mercado do Brasil. Disse que havia feito pesquisa das maiores agências do país e que estava contatando algumas delas, além de revistas brasileiras, porque queria se associar e realizar um concurso de modelos. Ele nunca se apresentou como representante de alguém. O ouvi durante um desfile, agradeci e recusei, porque minha agência nunca esteve a venda. É repugnante”.

Antes de abordar a Joy, o mesmo intermediário já havia sondado a Ford Models. Reportagem  mostrou que Elkholy sugeriu a Epstein que uma associação com um concurso de modelos poderia ser estratégica. Em uma das mensagens, ele escreveu: “Isso implicaria ter acesso a todas as garotas, e você poderia decidir o que fazer com elas. É raro a vencedora desses concursos alcançar o estrelato; geralmente é outra garota que passou despercebida, e é por isso que eu gosto disso — para você, quero dizer. Basicamente, você poderia levar essas garotas para qualquer lugar nos EUA (existe uma agência brasileira que cuida dos vistos americanos), ou para Paris ou para o Caribe”.Sobre a Ford, Elkholy afirmou que a agência seria comandada por “um cara que nunca teve investidores” e que estaria “aberto a receber algum apoio”. A empresa, porém, nega qualquer relação com Epstein. O CEO, Decio Restelli Ribeiro, declarou que a marca nunca esteve à venda e que não mantém vínculo com o bilionário. “— Eu posso ter feito uma reunião, como faço muitas. Mas eu lembraria se alguém quisesse comprar a minha empresa. A Ford nunca esteve à venda e não tem nenhuma relação com Jeffrey Epstein. Fico chateado e enojado de ver a marca, que faz 80 anos, citada por quem tem interesses escusos. Eu nunca venderia a Ford.”

Jeffrey Epstein foi um gestor de fortunas que circulou entre políticos e celebridades e passou a ser alvo de acusações graves de abuso e exploração sexual de menores no início dos anos 2000. Entre 2008 e 2009, cumpriu 13 meses de prisão após um acordo judicial duramente criticado, que reduziu sua pena e lhe garantiu imunidade a novas acusações federais por anos.O caso voltou ao centro do debate público em 2019, quando ele foi novamente preso sob acusações federais de tráfico sexual. Pouco mais de um mês depois, em 10 de agosto, foi encontrado morto na prisão, antes de ir a julgamento.Na última sexta-feira, 30 de janeiro, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos tornou público um vasto conjunto de arquivos sobre o caso, com cerca de três milhões de páginas de e-mails e documentos, além de milhares de vídeos e imagens. A divulgação tem revelado novos detalhes sobre os vínculos de Epstein com figuras públicas como Donald Trump, Bill Clinton, Bill Gates, o ex-príncipe Andrew Mountbatten-Windsor e Noam Chomsky, e ajuda a reconstituir o alcance de suas tentativas de influência, inclusive no mercado de modelos no Brasil.

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