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“Estupidez não tem cura”, diz Zakharova ao rebater Kaja Kallas por acusações contra a Rússia

Porta-voz da diplomacia russa acusa União Europeia de distorcer a história e associa países europeus e a OTAN ao legado colonial na África

María Zakharova, porta-voz da Chancelaria russa (Foto: Canal Telegram de Zakharova)

247 – A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, fez duras críticas à chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, após novas declarações da dirigente europeia contra Moscou. Segundo notícia publicada pela Sputnik Brasil na quarta-feira, 2 de abril, Zakharova acusou Kallas de mentir sobre a Rússia e de constranger mais uma vez a própria União Europeia ao repetir acusações sobre supostos ataques russos a diversos países ao longo do último século.

A reação russa ocorreu após Kallas voltar a afirmar que a Rússia teria atacado 19 países no século passado. De acordo com Zakharova, a dirigente europeia repetiu agora esse discurso incluindo também países africanos entre as supostas vítimas de “ataques russos”. A resposta da representante da chancelaria russa veio em tom agressivo, com ataques diretos à credibilidade e ao preparo intelectual da chefe da diplomacia europeia.

Em publicação nas redes sociais, Zakharova escreveu: "Kallas envergonhou a UE mais uma vez… A estupidez não se cura tão facilmente". A declaração reforça o nível de escalada verbal entre Moscou e Bruxelas em meio ao aprofundamento das tensões geopolíticas entre a Rússia e o bloco europeu.

A porta-voz russa também resgatou uma fala anterior de Kallas, feita em 2025, quando a chefe da diplomacia europeia havia dito que a Rússia “atacou 19 países no século passado”. Agora, segundo Zakharova, a repetição dessa acusação com a inclusão de nações africanas demonstraria não apenas hostilidade política contra Moscou, mas também ignorância histórica sobre o papel desempenhado pelas potências ocidentais no continente africano.

Zakharova ironiza promessa de Kallas de “ficar inteligente”

Na mesma manifestação, Zakharova ampliou o tom de deboche contra Kallas e fez referência a uma declaração da dirigente europeia sobre leitura e formação intelectual. A porta-voz russa escreveu: "Em janeiro, Kallas confessou seu grande amor pela leitura e até prometeu 'se tornar muito inteligente'. Eu sugiro que ela adicione à sua coleção de livros a monografia coletiva 'Colonialismo, neocolonialismo, descolonização: experiência de pesquisa e discurso contemporâneo' para aprimorar sua alfabetização. Quem sabe ela realmente se torne mais inteligente, embora não seja certo".

A fala evidencia que a resposta de Moscou não se limitou a uma contestação política. Zakharova procurou associar as declarações de Kallas a uma visão histórica distorcida, sustentando que a União Europeia tenta projetar sobre a Rússia responsabilidades que, segundo a versão apresentada pela diplomacia russa, recaem principalmente sobre os países coloniais europeus e seus aliados militares.

Rússia associa Europa e OTAN ao “rastro de sangue” na África

Ao rebater Kallas, Zakharova afirmou que o verdadeiro “rastro de sangue” deixado na África ao longo dos últimos 100 anos não teria sido obra da Rússia, mas sim dos países do bloco europeu e da Organização do Tratado do Atlântico Norte, a OTAN. Com essa formulação, a representante russa procurou deslocar o debate do terreno das acusações contemporâneas contra Moscou para o histórico de colonialismo, exploração e violência promovido por potências ocidentais no continente africano.

A argumentação da diplomacia russa também buscou se apoiar em episódio recente na Organização das Nações Unidas. Zakharova destacou que representantes desse mesmo grupo de países se abstiveram, em 25 de março, numa votação relacionada a uma resolução da Assembleia Geral da ONU que condenava de forma inequívoca o tráfico de africanos escravizados e o classificava como o maior crime contra a humanidade.

Resolução da ONU expõe divisões sobre reparação histórica

Segundo as informações publicadas, a Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a resolução em 27 de março, com 123 votos a favor, 3 contraEstados Unidos, Israel e Argentina — e 52 abstenções. O texto aprovado conclama os Estados-membros a se engajarem em discussões sobre justiça restaurativa, incluindo pedidos formais de desculpas, reparações e mudanças legislativas voltadas ao enfrentamento do racismo sistêmico.

Esse ponto é central na crítica formulada por Zakharova. Ao associar a abstenção de diversos países ocidentais à relutância em enfrentar o legado do colonialismo e da escravidão, a porta-voz russa tenta desmoralizar a postura moral da União Europeia diante da Rússia.

Escalada verbal amplia tensão entre Moscou e Bruxelas

As declarações de Zakharova mostram que a disputa entre Rússia e União Europeia segue marcada não apenas por divergências estratégicas, mas também por uma batalha intensa no campo simbólico e discursivo. Ao atacar pessoalmente Kaja Kallas e enquadrar suas falas como produto de “estupidez” e desinformação histórica, a diplomacia russa tenta deslegitimar a principal representante da política externa europeia.

Ao mesmo tempo, a escolha de vincular o debate à África e ao legado do tráfico de africanos escravizados revela um esforço de Moscou para ampliar sua interlocução com países do Sul Global, utilizando a crítica ao colonialismo europeu como instrumento político e diplomático.

Com isso, o novo embate entre Moscou e Bruxelas ganha contornos ainda mais duros, misturando confronto diplomático, disputa narrativa e tensões geopolíticas em escala global.

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