EUA ampliam lista de empresas chinesas ligadas ao setor militar e decisão aumenta a tensão entre os dois países
Alibaba, Baidu, BYD e outras gigantes de tecnologia entram em relação do Pentágono em meio à rivalidade entre Washington e Pequim
247 – Os Estados Unidos incluíram Alibaba, Baidu, BYD e outras grandes empresas chinesas de tecnologia em uma lista de companhias que, segundo Washington, ajudam o setor militar de Pequim. A decisão divulgada nesta segunda-feira (8) pode elevar a tensão entre as duas maiores economias do mundo.
A medida, segundo a agência Reuters, reforça a visão de Washington de que setores como comércio eletrônico, busca na internet, automóveis, chips, biotecnologia, telecomunicações e robótica fazem parte de uma disputa estratégica mais ampla com Pequim. A iniciativa amplia a pressão sobre empresas chinesas que operam nos Estados Unidos em um momento de rivalidade tecnológica, militar e industrial entre os dois países.
A atualização da lista nesta segunda-feira substitui uma relação publicada no início de 2025 e ocorre menos de um mês após o presidente dos EUA, Donald Trump, se reunir com o presidente chinês, Xi Jinping, em Pequim, onde os dois líderes mantiveram uma frágil trégua na guerra comercial.
A nova lista inclui parte expressiva das principais empresas de tecnologia da China, vistas por Washington como relevantes para o avanço militar e industrial chinês. A medida reflete as preocupações de segurança dos EUA em um cenário de intensa disputa geopolítica com Pequim.
Em fevereiro, quando a viagem de Trump à China ainda estava pendente, o Pentágono chegou a publicar brevemente uma versão atualizada da lista, conhecida como 1260H ou CMC. O documento foi retirado logo depois, com poucas explicações.
A versão divulgada nesta segunda-feira repete em grande parte a lista retirada em fevereiro. A diferença está na inclusão das fabricantes chinesas de chips de memória CXMT e YMTC, duas empresas que tinham ficado fora da versão anterior, o que provocou críticas de parlamentares e analistas mais duros em relação à China em Washington.
Além de Alibaba, Baidu e BYD, o Pentágono acrescentou à relação a empresa de biotecnologia WuXi AppTec, a companhia de robótica guiada por inteligência artificial RoboSense Technology e a Unitree, uma das principais fabricantes chinesas de robôs humanoides e quadrúpedes. Em 1º de junho, a Nvidia, fabricante norte-americana de chips de inteligência artificial, afirmou que planeja trabalhar com a Unitree na construção de robôs para pesquisadores.
A embaixada da China em Washington afirmou que Pequim se opõe à criação de "listas discriminatórias" contra empresas chinesas e disse que as companhias do país cumprem leis e regulamentos locais.
"Os EUA deveriam interromper sua prática errada e criar um ambiente justo, equitativo e não discriminatório para as empresas chinesas", afirmou um porta-voz da embaixada em comunicado.
Empresas entram e saem da lista
A atualização também retirou algumas companhias da relação. Entre elas estão duas entidades ligadas à estatal chinesa de petróleo China National Offshore Oil Corporation, a CNOOC China Ltd e a CNOOC International Trading. Ao mesmo tempo, o Departamento de Defesa incluiu a subsidiária China BlueChemical Limited e afirmou no documento que a CNOOC está sob controle direto do governo chinês.
Segundo a Reuters, isso não significa necessariamente que os Estados Unidos tenham concluído que as empresas retiradas não mantêm vínculos com o setor militar chinês. A retirada pode ocorrer porque uma companhia deixou de operar nos Estados Unidos ou porque houve mudança de nome.
Alibaba, Baidu, CXMT, YMTC, Unitree, CNOOC e Nvidia não responderam imediatamente aos pedidos de comentário da Reuters.
A WuXi AppTec afirmou que sua inclusão foi "claramente um erro" e disse que adotará medidas imediatas para "corrigir essa designação errônea".
O Pentágono declarou em seu documento que as empresas listadas se qualificam para a designação de "companhias militares chinesas" e operam nos Estados Unidos. A atualização anual da lista cumpre a exigência prevista em lei norte-americana. As empresas podem pedir remoção da relação.
O presidente do Comitê Especial da Câmara dos Representantes sobre a China, John Moolenaar, afirmou que a nova lista envia um alerta ao setor privado e ao governo norte-americano.
A atualização "é um aviso às empresas americanas, a todos os níveis de governo e ao povo americano. Essas empresas chinesas estão trabalhando com o Exército chinês contra nossos interesses nacionais", disse Moolenaar.
O Pentágono também incluiu a fabricante de equipamentos de telecomunicações Baicells. A Reuters informou no ano passado que a companhia estava sob investigação do FBI e do Departamento de Comércio dos Estados Unidos.
Impacto para contratos militares
A inclusão na lista não impõe sanções formais às empresas chinesas. Ainda assim, uma lei recente dos Estados Unidos proibirá o Departamento de Defesa, a partir do fim deste mês, de contratar diretamente companhias incluídas na relação. A compra de produtos ou serviços dessas empresas por meio de terceiros ficará vetada a partir de 2027.
Essas restrições podem gerar custos relevantes para as companhias chinesas e seus parceiros. A presença na lista também transmite uma mensagem negativa a fornecedores do Pentágono e a outras agências do governo dos Estados Unidos sobre a avaliação militar norte-americana a respeito dessas empresas.
Algumas companhias já processaram o governo dos Estados Unidos por causa da inclusão na relação.
Craig Singleton, especialista em China da Fundação para a Defesa das Democracias, em Washington, afirmou que a publicação da lista funciona como um choque de realidade após a cúpula entre Trump e Xi sobre o grau de competição entre os dois países.
"Washington não está mais tratando essas empresas como casos isolados. Está tratando toda a pilha tecnológica como estrategicamente contestada", disse Singleton.



