EUA pressionam Síria a abandonar sistemas chineses de telecomunicações
Washington pedem que Damasco priorize tecnologia estadunidense ou de aliados, enquanto autoridades sírias apontam sanções como entraves
Reuters — Os Estados Unidos alertaram a Síria contra a dependência de tecnologia chinesa em seu setor de telecomunicações, argumentando que isso contraria interesses estadunidenses e ameaça a segurança nacional dos EUA, segundo três fontes familiarizadas com o assunto.
A mensagem foi transmitida durante uma reunião não divulgada entre uma equipe do Departamento de Estado dos EUA e o ministro das Comunicações da Síria, Abdulsalam Haykal, em San Francisco, na terça-feira (24).
Washington vem coordenando de perto com Damasco desde 2024, quando o atual presidente da Síria, Ahmed al-Sharaa, destituiu o antigo líder Bashar al-Assad, que mantinha uma parceria estratégica com a China.
A Síria está explorando a possibilidade de adquirir tecnologia chinesa para apoiar suas torres de telecomunicações e a infraestrutura de provedores locais de internet, segundo um empresário sírio envolvido nas negociações de compra.
"O lado dos EUA pediu esclarecimentos sobre os planos do ministério em relação a equipamentos chineses de telecomunicações", disse outra fonte informada sobre as conversas.
Autoridades sírias, no entanto, afirmaram que os projetos de desenvolvimento de infraestrutura são urgentes e que Damasco busca maior diversificação de fornecedores, acrescentou a fonte.
Autoridades sírias citam controles de exportação dos EUA como obstáculo nas telecomunicações
A Síria está aberta a parcerias com empresas dos EUA, mas a questão é urgente e os controles de exportação e o chamado "excesso de conformidade" continuam sendo um problema, segundo uma pessoa familiarizada com a reunião em San Francisco.
Um diplomata dos EUA a par das discussões afirmou à Reuters que o Departamento de Estado "instou claramente os sírios a utilizarem tecnologia americana ou de países aliados no setor de telecomunicações".
Não estava claro se os Estados Unidos ofereceram apoio financeiro ou logístico à Síria para viabilizar essa alternativa.
Em resposta a questionamentos da Reuters, um porta-voz do Departamento de Estado dos EUA declarou: "Incentivamos os países a priorizar a segurança nacional e a privacidade em detrimento de equipamentos e serviços mais baratos na aquisição de infraestrutura crítica. Se parece bom demais para ser verdade, provavelmente é."
O porta-voz acrescentou que os serviços de inteligência e segurança chineses "podem legalmente obrigar cidadãos e empresas chinesas a compartilhar dados sensíveis ou conceder acesso não autorizado aos sistemas de seus clientes" e que promessas de empresas chinesas de proteger a privacidade dos clientes são "totalmente incompatíveis com as próprias leis e práticas consolidadas da China".
A China tem rejeitado reiteradamente acusações de que utiliza tecnologia para fins de espionagem.
O Ministério das Telecomunicações da Síria informou à Reuters que quaisquer decisões relacionadas a equipamentos e infraestrutura são tomadas "de acordo com padrões técnicos e de segurança nacionais, garantindo a proteção de dados e a continuidade dos serviços".
O ministério acrescentou que também prioriza a diversificação de parcerias e de fontes tecnológicas para atender ao interesse nacional.
A infraestrutura de telecomunicações da Síria tem dependido fortemente de tecnologia chinesa devido às sanções dos EUA impostas aos sucessivos governos de Assad em razão da guerra civil iniciada em 2011.
A tecnologia da Huawei representa mais de 50% da infraestrutura das operadoras Syriatel e MTN, as únicas empresas de telecomunicações do país, segundo uma fonte graduada de uma das companhias e documentos analisados pela Reuters. A Huawei não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.
A Síria busca desenvolver seu setor privado de telecomunicações, devastado por 14 anos de guerra, por meio da atração de investimento estrangeiro.
No início de fevereiro, a maior operadora de telecomunicações da Arábia Saudita, STC, anunciou investimento de 800 milhões de dólares para "fortalecer a infraestrutura de telecomunicações e conectar a Síria regional e internacionalmente por meio de uma rede de fibra óptica com extensão superior a 4.500 quilômetros".
O Ministério das Telecomunicações afirmou que as restrições dos EUA "prejudicam a disponibilidade de muitas tecnologias e serviços americanos no mercado sírio", ressaltando que acolhe a ampliação da cooperação com empresas dos EUA quando essas restrições forem suspensas.
A Síria possui infraestrutura de telecomunicações insuficiente, com cobertura de rede fraca fora dos centros urbanos e velocidades de conexão que, em muitas áreas, mal ultrapassam alguns quilobits por segundo.

