Forças do governo da Síria retomam áreas controladas pelos curdos após acordo
Movimento em Hassaké ocorre após meses de tensões e confrontos no país
247 - Forças governamentais da Síria entraram, nesta segunda-feira (2), na cidade de Hassaké, reduto da população curda no nordeste do país, após a assinatura de um acordo com Damasco que integra áreas controladas pelos curdos ao Estado sírio. O entendimento foi anunciado na sexta-feira (30), depois de meses de tensões e confrontos entre tropas do governo e forças curdas. As informações são da RFI.
Durante a guerra civil, entre 2011 e 2024, os curdos haviam estabelecido uma administração autônoma no norte e no nordeste da Síria. O acordo é considerado um avanço político para o presidente Ahmed al-Charaa, que tem defendido a unidade territorial como prioridade de seu governo.
Acordo prevê incorporação de forças curdas ao Exército sírio
O comandante das Forças Democráticas Sírias (FDS), Mazloum Abdi, confirmou que a implementação do acordo teria início nesta segunda-feira. Segundo ele, uma "força de segurança interna limitada" entraria em alguns setores das duas principais cidades da região curda, Hassaké e Qamichli, acrescentando que "nenhuma força militar entrará em uma cidade ou localidade curda".
As Forças Democráticas Sírias serão incorporadas ao Exército sírio, permanecendo organizadas em uma divisão composta por três brigadas. O grupo atuou em operações de combate ao Estado Islâmico na Síria em uma campanha liderada pelos Estados Unidos, que agora apoiam o novo governo.
Toque de recolher é decretado em cidades curdas
Em Hassaké, autoridades locais decretaram toque de recolher no centro da cidade, área habitada por curdos e árabes, com o objetivo de "garantir a segurança dos habitantes". Medida semelhante deve ser adotada em Qamichli nesta terça-feira (3). O novo comandante das Forças de Segurança Interna da província de Hassaké, Marwan al-Ali, nomeado por Damasco, orientou seus subordinados a "executarem as missões de segurança conforme os planos estabelecidos e respeitarem plenamente as leis e regulamentos".
Na sexta-feira (30), o ministro sírio da Informação, Hamza Mustafa, afirmou que o acordo estabelece a transferência ao governo central, no prazo de dez dias, de campos petrolíferos antes controlados pelos curdos. O texto também prevê a entrega do aeroporto de Qamichli, ocupado por forças russas até a semana passada, e de postos de fronteira.
Kobane volta ao controle governamental e curdos obtêm garantias
O acordo também prevê o envio de forças governamentais ao enclave curdo de Kobane, mais a oeste, na província de Aleppo. A cidade, separada da antiga zona autônoma curda, tornou-se símbolo da primeira vitória das forças curdas contra o Estado Islâmico, em 2015, e atualmente está cercada por tropas governamentais.
O texto garante aos curdos avanços em direitos nacionais, civis e educacionais, além do retorno de todos os deslocados às suas regiões de origem. Além disso, o acordo concede aos curdos o cargo de governador da província de Hassaké, mantém a polícia curda responsável pela segurança interna de seus territórios e prevê postos de comando para representantes curdos dentro do Exército sírio. Os combatentes estrangeiros deverão deixar o país em direção ao Iraque ou ao Irã.
Damasco recupera 80% do território curdo e busca controle total
A partir desta segunda-feira (2), forças do Ministério do Interior devem se deslocar para duas das três localidades curdas no norte, onde as FDS seguem entrincheiradas. Três semanas de ofensiva do Exército sírio no nordeste permitiram a Damasco recuperar cerca de 80% do território da região, encerrando o projeto de autonomia curda. O presidente Ahmed al-Charaa busca impor autoridade sobre todo o território nacional.
Com a entrada das tropas na zona curda, apenas a região drusa de Soueida, no sul do país, permanece fora do controle do governo central. Desde que assumiram o poder, as autoridades islâmicas afirmam compromisso com a proteção das minorias, embora o país tenha registrado massacres de alauítas na costa em março do ano passado e episódios de violência contra drusos no sul em julho.

