Irã denuncia estratégia dos EUA para desestabilizar o Oriente Médio
Presidente iraniano afirma que ações militares e retórica de Washington agridem a paz e o direito internacional
247 - O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, denunciou os Estados Unidos por conduzirem uma estratégia deliberada para desestabilizar o Oriente Médio, ao combinar movimentos militares, pressões políticas e operações de guerra psicológica. Segundo o mandatário, essas ações não contribuem para a segurança regional e tendem a ampliar a instabilidade em países da Ásia Ocidental.
As declarações foram divulgadas pela Telesur, com base em informações da Presidência do Irã, após um telefonema entre Pezeshkian e o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman. O contato ocorreu em meio à intensificação da presença militar norte-americana na região e ao aumento das tensões diplomáticas envolvendo Teerã e Washington.
Durante a conversa, Pezeshkian alertou que “as ameaças e operações psicológicas dos americanos visam perturbar a segurança da região e não conseguirão nada além de instabilidade”. O presidente iraniano relacionou o cenário atual à chegada do porta-aviões norte-americano Abraham Lincoln ao Oriente Médio e ao endurecimento do discurso oficial dos Estados Unidos contra o Irã.
O chefe de Estado também afirmou que, desde o início de seu governo, houve um crescimento constante da hostilidade por parte dos Estados Unidos e do regime israelense, incluindo pressões econômicas, uma ofensiva militar de 12 dias e o que classificou como envolvimento direto na incitação de distúrbios violentos em território iraniano. “Eles imaginaram que poderiam transformar o Irã em outra Síria ou Líbia”, declarou. Segundo Pezeshkian, essas tentativas fracassaram diante da mobilização popular: “Eles não reconheceram a verdade, a natureza e a grandeza da nação iraniana. A presença consciente e generalizada do nosso povo no terreno frustrou suas conspirações”.
Os comentários ocorreram após ataques armados coordenados registrados nos dias 8 e 9 de janeiro contra delegacias de polícia, bases militares e infraestruturas civis em várias cidades iranianas. As autoridades de Teerã afirmam que os ataques tinham como objetivo provocar um grande número de vítimas e desestabilizar centros urbanos. O governo iraniano atribui os atos a grupos terroristas apoiados por atores externos hostis.
Nesse contexto, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baqai, criticou reportagens de veículos ocidentais que apontaram até 80 mil mortes durante os protestos. Ele classificou essas informações como “uma grande mentira ao estilo Hitler” e afirmou que dados oficiais registram 3.117 mortes no total, sendo 2.427 de civis inocentes e agentes de segurança mortos por ações terroristas.
Antes disso, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, havia advertido o Irã sobre possíveis ataques caso, segundo ele, fossem mortos “manifestantes pacíficos”. Autoridades iranianas rejeitam essa narrativa e acusam meios de comunicação ocidentais de difundir informações falsas, além de denunciarem o apoio externo às ações violentas.
Ao abordar as negociações internacionais, Pezeshkian demonstrou ceticismo quanto à postura do Ocidente. “Estávamos em conversações com os americanos quando lançaram um ataque militar contra nós à vista de todo o mundo”, afirmou, ao relembrar a ofensiva norte-americana e israelense de 12 dias ocorrida antes da sexta rodada de diálogos nucleares. Ele acrescentou que, embora o Irã tenha alcançado entendimentos com países europeus, foram as autoridades dos Estados Unidos que interromperam o processo. “Para eles, ‘negociação’ significa simplesmente executar o que ditam. Isso não é diálogo”, disse.
Apesar das críticas, o presidente iraniano reiterou que o país está disposto a participar de qualquer iniciativa que, dentro do marco do direito internacional, contribua para a paz e a prevenção de conflitos, desde que os direitos do povo iraniano sejam plenamente respeitados. Para Pezeshkian, “a unidade e a coesão dos países islâmicos são a única garantia verdadeira para uma estabilidade e paz duradouras na região”.
No campo bilateral, o mandatário destacou que seu governo prioriza o fortalecimento das relações com países islâmicos com base na fraternidade e na cooperação regional. “Acredito sinceramente que a Ummah islâmica é uma comunidade fraterna. Juntos, podemos construir uma região segura, desenvolvida e avançada para nossas nações”, afirmou, agradecendo em especial o apoio demonstrado pela Arábia Saudita durante os recentes ataques.
Mohammed bin Salman, por sua vez, concordou com a necessidade de ampliar a cooperação regional. “Todos os nossos esforços para estabelecer estabilidade e segurança na região e conduzir os países rumo à prosperidade e ao desenvolvimento estão alinhados com os interesses das nações”, declarou. O príncipe herdeiro saudita também classificou como “inaceitável” qualquer agressão ou ameaça contra o Irã e reafirmou a disposição de Riad em colaborar com Teerã e outros parceiros regionais para consolidar uma paz e segurança sustentáveis.
A conversa telefônica é vista como mais um sinal de aproximação diplomática entre dois atores historicamente rivais da Ásia Ocidental, em um cenário marcado por tensões crescentes com potências ocidentais e pela defesa, por ambos os lados, da solidariedade islâmica como elemento central para enfrentar pressões externas e promover um novo equilíbrio regional.

