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Falhas nas defesas russas durante ataque dos EUA revelam fragilidade militar da Venezuela, aponta reportagem

Problemas de manutenção e integração de sistemas S-300 e Buk-M2 facilitaram ação aérea dos Estados Unidos

Ataque dos Estados Unidos contra a Venezuela (Foto: Reuters)

247 - A atuação militar dos Estados Unidos que levou ao sequestro de Nicolás Maduro evidenciou limitações significativas na capacidade de defesa aérea da Venezuela, apesar do histórico de investimentos em armamentos avançados de origem russa. Sistemas considerados centrais para a proteção do espaço aéreo, como os mísseis S-300 e Buk-M2, não estavam plenamente operacionais no momento da ofensiva, permitindo a entrada de aeronaves americanas com baixa resistência.

Segundo informações detalhadas em reportagem do jornal The New York Times, autoridades americanas atuais e ex-integrantes do governo afirmaram que parte desses equipamentos não estava sequer conectada aos sistemas de radar quando helicópteros dos Estados Unidos ingressaram no espaço aéreo de Caracas durante a operação militar conhecida como Absolute Resolve.

Os sistemas russos foram adquiridos a partir de 2009, durante o governo de Hugo Chávez, como parte de uma estratégia de reestruturação das Forças Armadas. Na ocasião do anúncio, Chávez afirmou: “Com esses foguetes, será muito difícil para aviões estrangeiros virem nos bombardear”. Além das defesas aéreas, o pacote incluiu caças Su-30, tanques T-72 e milhares de mísseis portáteis Manpads.

Com o passar dos anos, entretanto, a sustentação técnica desse arsenal tornou-se um desafio. Relatos apontam dificuldades frequentes na obtenção de peças de reposição, entraves logísticos e falta de pessoal especializado para operar e manter os sistemas em condições adequadas. “Após anos de corrupção, logística deficiente e sanções, tudo isso certamente teria prejudicado a prontidão dos sistemas de defesa aérea”, afirmou Richard de la Torre, ex-chefe da CIA no país e atual diretor da Tower Strategy.

Registros visuais analisados após a ofensiva indicam que parte relevante do material estava armazenada, e não posicionada para uso imediato. No sábado (3), explosões atingiram a Base Aérea de La Carlota, em Caracas, onde imagens mostraram restos de lançadores do sistema Buk destruídos.

Outras áreas estratégicas também foram afetadas. Em La Guaira e em Catia La Mar, cidades costeiras que integram o cinturão de proteção da capital, vídeos publicados nas redes sociais mostraram armazéns bombardeados e veículos de comando do sistema Buk danificados, sugerindo que os meios de defesa não estavam em condição operacional. Em Higuerote, outra explosão noturna foi registrada, associada à destruição de um lançador de mísseis.

O analista militar venezuelano Yaser Trujillo avaliou que a resposta das forças armadas foi marcada por falhas sucessivas. “As forças armadas estavam praticamente despreparadas para o ataque dos EUA. Suas tropas não estavam dispersas, o radar de detecção não estava ativado, implantado ou operacional”, disse. Segundo ele, esse conjunto de erros reduziu de forma significativa a capacidade de reação.

Os mísseis portáteis Manpads, cuja presença havia sido destacada por Maduro meses antes da operação, também tiveram participação limitada. Em outubro, ele declarou: “Qualquer força militar no mundo conhece o poder do Igla-S, e a Venezuela tem nada menos que 5.000”. Durante a ofensiva, porém, registros em vídeo mostraram apenas um disparo isolado, seguido de resposta intensa das aeronaves americanas.

O episódio também trouxe consequências para a projeção da Rússia na América Latina. Avaliações indicam que Moscou não conseguiu assegurar a plena integração e manutenção dos sistemas fornecidos. “As próprias demandas de guerra da Rússia na Ucrânia podem ter limitado sua capacidade de sustentar esses sistemas na Venezuela”, avaliou De la Torre. Há ainda a percepção de que o desgaste gradual do equipamento pode ter sido tolerado para evitar um confronto direto com Washington.

Em novembro, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, relativizou a importância estratégica do país sul-americano ao ser questionado sobre o envio de novos armamentos. “Seria impreciso comparar nossa parceria com a Venezuela com nossa união com a República de Belarus”, afirmou. Embora um acordo de parceria estratégica tenha sido assinado em maio, durante visita de Maduro a Moscou, o documento não previa compromissos de defesa coletiva.

Para Brian Naranjo, ex-vice-chefe da missão da Embaixada dos Estados Unidos em Caracas, o impacto político é relevante. “Acho que, ao sair dessa crise, o prestígio da Rússia ficará bastante manchado”, disse. Segundo ele, a presença russa buscava demonstrar alcance estratégico global, mas sem disposição para confronto direto.

Após a captura de Maduro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi destacado em publicação oficial com a frase “este é o nosso hemisfério”. Washington mantém pressão sobre o governo interino venezuelano, incluindo exigências relacionadas ao setor petrolífero e à presença de assessores estrangeiros, enquanto o cenário político e militar do país segue marcado por incertezas.

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