Família de enfermeiro assassinado por agentes do ICE acusa governo Trump de mentiras e pede investigação independente
Parentes de Alex Jeffrey Pretti dizem que ele tentou proteger uma mulher durante ação violenta e rejeitam versão federal de “tiros defensivos”
247 – O assassinato a tiros do enfermeiro Alex Jeffrey Pretti, 37, em Minneapolis (Minnesota), no sábado, 24 de janeiro de 2026, incendiou ainda mais os protestos contra o ICE (Serviço de Imigração e Controle de Aduanas) e aprofundou a crise política em torno da política migratória do presidente Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos. Em vigílias e manifestações, a indignação se ampliou porque vídeos e relatos públicos passaram a confrontar, ponto a ponto, a versão oficial do governo federal sobre o que ocorreu durante a operação.
Segundo reportagem da teleSUR, Pretti era cidadão norte-americano e trabalhava como enfermeiro de terapia intensiva em um hospital de veteranos de Minneapolis. Ele nasceu no estado de Illinois, estudou Enfermagem na Universidade de Minnesota e concluiu o curso em 2021. No mesmo dia em que foi assassinado, moradores se reuniram em vigília no Whittier Park, a poucas quadras do local do tiroteio, num ambiente já marcado por forte tensão social.
O caso ocorreu em meio a protestos massivos contra ações violentas do ICE, intensificados dias após outro episódio que gerou comoção: o assassinato de Renee Nicole Good, em 7 de janeiro, quando agentes federais a mataram a tiros dentro do carro durante um operativo. A sequência de casos elevou o repúdio popular e transformou Minneapolis em um dos principais centros de contestação às operações migratórias do governo Trump.
Declaração da família: “Estamos destruídos e muito revoltados”
Em um comunicado encaminhado à CNN, a família de Pretti disse estar “de coração partido”, mas também “muito zangada” com o que classificou como um assassinato sem sentido. Segundo a nota, Alex era “uma alma bondosa” e se dedicava à família, aos amigos e também aos veteranos norte-americanos atendidos por ele como enfermeiro de UTI no hospital de veteranos de Minneapolis.
“Alex queria fazer diferença no mundo. Infelizmente ele não estará aqui para ver seu impacto”, afirmou a família. Em outro trecho, os parentes sustentam que ele agiu para proteger uma mulher no momento em que foi atacado: “Não uso o termo herói de forma leviana. Mas seu último pensamento e ato foi proteger uma mulher.”
A família também atacou duramente a versão da Casa Branca e do aparato federal, acusando o governo Trump de espalhar mentiras para justificar o que ocorreu. “As mentiras repugnantes contadas sobre nosso filho pela administração são reprováveis e nojentas”, diz a nota.
Vídeos e relatos desafiam a narrativa do governo Trump
Após o assassinato, o governo federal apresentou uma justificativa semelhante à utilizada em episódios anteriores. A porta-voz do Departamento de Segurança Nacional, Tricia McLaughlin, disse em comunicado que os agentes federais realizavam uma operação migratória e dispararam “tiros defensivos” depois que um homem com uma pistola teria se aproximado e “resistido violentamente” quando os agentes tentaram desarmá-lo.
A teleSUR ressalta que essa justificativa passou a ser imediatamente contestada por denúncias públicas e pelo conteúdo de vídeos divulgados nas redes.
Segundo o relato, as imagens mostram mais de meia dúzia de agentes de imigração imobilizando Pretti e utilizando spray de pimenta antes de dispararem à queima-roupa. Em um dos vídeos, ele aparece segurando um telefone, e não uma arma, apontando-o na direção de um dos agentes.
A família reforçou esse ponto ao afirmar que Pretti “claramente não estava segurando uma arma quando foi atacado” e que ele tinha “o telefone na mão direita”, enquanto levantava a mão esquerda vazia, tentando proteger uma mulher que havia sido empurrada por agentes.
“Execução em plena rua”, dizem críticos do ICE
O material audiovisual descrito na reportagem também indicaria agressões físicas antes dos disparos, com Pretti cercado e contido por vários agentes. O texto afirma que, em determinado momento, um dos agentes estaria sobre as costas de Pretti enquanto outro o golpeia repetidamente perto da cabeça.
Um levantamento citado pela teleSUR aponta que foram efetuados pelo menos 10 tiros em cerca de cinco segundos, o que reforçou a percepção, entre manifestantes e críticos das operações do ICE, de que não se tratou de contenção, mas de uma execução violenta em plena via pública.
O caso se torna ainda mais explosivo porque, segundo o texto, Pretti tinha uma autorização legal para portar arma, mas teria sido cercado, espancado e desarmado antes de ser atingido pelos disparos.
Quem era Alex Pretti
Familiares afirmaram que Pretti era um amante da natureza e vinha participando das mobilizações que explodiram na cidade após o assassinato de Renee Good. Seu pai, Michael Pretti, afirmou que ele estava indignado com o que considerava abusos cometidos pelo ICE.
Em entrevista citada pela teleSUR, o pai declarou: “Se preocupava profundamente com as pessoas e estava muito indignado com o que estava acontecendo em Minneapolis e em todo os Estados Unidos com o ICE, como milhões de pessoas que estão indignadas.” Em seguida, completou: “Sentia que protestar era uma forma de expressar sua preocupação pelos demais.”
A identidade profissional de Pretti, como enfermeiro de UTI em um hospital de veteranos, deu ainda mais peso à revolta de parte da população local. Em vez de um suspeito armado, como sugeriu a narrativa federal, seus apoiadores o descreveram como alguém ligado ao cuidado de pacientes e comprometido com causas sociais.
Polícia local contradiz tentativa de criminalização
Após o assassinato, o chefe de polícia de Minneapolis, Brian O’Hara, afirmou que o homem baleado era um cidadão branco sem antecedentes criminais graves, com registro apenas de algumas multas de estacionamento.
Nas ruas, o ambiente foi descrito como explosivo. Segundo a teleSUR, uma multidão furiosa se aglomerou e passou a gritar insultos contra os agentes federais, chamando-os de “covardes” e exigindo que fossem embora.
Em meio ao confronto, manifestantes arrastaram contêineres de lixo para bloquear vias e entoaram palavras de ordem, como “Fora ICE agora”. A reportagem também relata que agentes federais utilizaram bastões e lançaram granadas de efeito moral contra manifestantes, evidenciando uma escalada repressiva.
Minnesota exige investigação independente e quer afastar governo federal do caso
Com a pressão aumentando, o governador democrata de Minnesota, Mike Walz, ordenou o deslocamento da Guarda Nacional estadual para “garantir a segurança” em Minneapolis. De acordo com o relato, a cidade teria recebido um contingente de agentes federais muito superior ao efetivo da própria polícia local, por determinação do governo Trump.
Walz afirmou que esteve em contato com a Casa Branca e pediu que os agentes federais fossem retirados do estado. Ele também disse que Minnesota conduzirá a apuração do caso e deixou claro que não confia no governo federal para liderar a investigação.
Em declaração citada pela teleSUR, Walz afirmou: “O estado deve ter a última palavra, como eu disse à Casa Branca sem rodeios esta manhã: não se pode confiar que o Governo federal lidere esta investigação, o estado se encarregará disso, ponto.”
Ele também criticou a tentativa de moldar a narrativa antes de qualquer apuração completa. “Antes de que se realize qualquer investigação, as pessoas mais poderosas do Governo federal estão inventando histórias e publicando fotos de pessoas sem relação com o caso (...) e uma foto de uma arma de fogo para tentar manipular a narrativa”, disse o governador.
Walz ainda publicou uma mensagem exigindo o fim da presença federal em massa: “Tirem os milhares de agentes violentos e sem treinamento de Minnesota. Agora.”
Um símbolo nacional da repressão e do autoritarismo
O assassinato de Alex Pretti se tornou rapidamente um marco da crise política em torno do ICE e das ações do governo Trump. A combinação entre operações migratórias militarizadas, denúncias de violações de direitos humanos, uso de força letal e tentativa de controlar a versão dos fatos elevou o caso a um patamar nacional.
A família, por sua vez, encerrou sua declaração pedindo que a sociedade não aceite a narrativa oficial e mantenha viva a luta por justiça: “Por favor, divulguem a verdade sobre nosso filho. Ele era um bom homem. Obrigado.”


