HOME > Mundo

Gabbard renuncia ao cargo de chefe da inteligência dos EUA

Tulsi Gabbard deixará o cargo em 30 de junho após citar câncer raro do marido, enquanto fontes apontam atritos com a Casa Branca

Tulsi Gabbard (Foto: REUTERS/Nathan Howard)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

247 - Tulsi Gabbard anunciou que deixará o cargo de diretora de Inteligência Nacional dos Estados Unidos, uma das funções mais sensíveis do governo Donald Trump, em 30 de junho, após afirmar que seu marido, Abraham Williams, foi diagnosticado com uma forma rara de câncer ósseo. A decisão ocorre em meio a relatos de desgaste interno e divergências com a Casa Branca sobre temas centrais da política externa norte-americana, informa a Reuters.

Gabbard comunicou sua intenção de sair durante uma reunião no Salão Oval, segundo relato publicado inicialmente pela Fox News Digital. Em carta divulgada na plataforma X, ela agradeceu ao presidente pela oportunidade de comandar o Gabinete do Diretor de Inteligência Nacional, órgão responsável por supervisionar as 18 agências de inteligência dos Estados Unidos.

“Estou profundamente grata pela confiança que o senhor depositou em mim e pela oportunidade de liderar o Gabinete do Diretor de Inteligência Nacional no último ano e meio”, escreveu Gabbard na mensagem dirigida a Trump.

Ao justificar a saída, Gabbard afirmou que a decisão está ligada à saúde do marido. “Não posso, em sã consciência, pedir que ele enfrente essa luta sozinho enquanto continuo neste cargo exigente e que consome tanto tempo”, declarou.

Trump elogia Gabbard e anuncia substituto interino

Donald Trump afirmou em sua rede Truth Social que Aaron Lukas, principal vice-diretor de Inteligência Nacional, assumirá interinamente o comando do órgão. Lukas é ex-oficial e analista da CIA e atuou no Conselho de Segurança Nacional durante o primeiro mandato de Trump.

O presidente elogiou a atuação de Gabbard e disse que ela fez “um ótimo trabalho”. Trump acrescentou que, diante do diagnóstico de câncer do marido, “ela, com razão, quer estar ao lado dele, trazendo-o de volta à boa saúde enquanto os dois enfrentam juntos uma batalha difícil”.

Apesar da versão oficial, uma fonte familiarizada com o caso disse à Reuters que Gabbard teria sido afastada por decisão da Casa Branca. “Ela foi empurrada para fora pela Casa Branca”, afirmou a fonte. “A Casa Branca está descontente com ela há bastante tempo".

A Casa Branca não respondeu ao pedido de comentário da Reuters sobre essa afirmação. Davis Ingle, porta-voz da Casa Branca, publicou no X que Gabbard estava deixando o cargo em razão do diagnóstico do marido.

Atritos com Trump já vinham sendo apontados

A saída de Gabbard acontece após meses de sinais de tensão com o governo. Trump já havia indicado diferenças em relação à posição dela sobre o Irã, ao afirmar em março que Gabbard era “mais branda” do que ele na abordagem sobre as ambições nucleares de Teerã.

Em abril, fontes ouvidas pela Reuters já haviam indicado que Gabbard poderia perder o cargo em uma possível reformulação mais ampla do gabinete. Na ocasião, um alto funcionário da Casa Branca afirmou que Trump havia demonstrado insatisfação com ela nos meses anteriores. Outra fonte com conhecimento direto do assunto disse que o presidente havia consultado aliados sobre possíveis nomes para substituí-la no comando da inteligência.

Gabbard também teria ficado ausente de deliberações entre Trump e seus principais assessores de segurança nacional sobre temas relevantes de política externa, incluindo a operação militar dos Estados Unidos que depôs o ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro, a guerra no Irã e Cuba.

Mandato foi marcado por controvérsias

A nomeação de Gabbard para o cargo já havia sido considerada incomum. Ex-deputada democrata pelo Havaí, ela não tinha experiência profunda na área de inteligência quando foi escolhida por Trump para liderar o órgão criado após os ataques de 11 de setembro de 2001, com a missão de coordenar as agências de inteligência norte-americanas.

Integrante da Guarda Nacional do Havaí, Gabbard serviu no Iraque entre 2004 e 2005, tornou-se oficial, transferiu-se depois para a Reserva do Exército dos Estados Unidos e chegou ao posto de tenente-coronel.

Após deixar o Congresso, ela passou a adotar posições conservadoras, apoiou Trump na eleição presidencial de 2024 e filiou-se ao Partido Republicano. Sua trajetória, no entanto, continuou sendo alvo de críticas de diferentes setores políticos.

Gabbard recebeu questionamentos bipartidários por comentários interpretados como alinhados à narrativa russa de responsabilizar a Otan pela invasão da Ucrânia em 2022. Também foi criticada por ter se reunido com o ex-presidente sírio Bashar al-Assad em uma viagem a Damasco em 2017, durante a guerra civil na Síria, na qual Assad recebeu apoio da Rússia e do Irã.

Democratas acusaram uso político do cargo

Depois que Gabbard assumiu a função, democratas passaram a acusá-la de usar o posto para apoiar iniciativas de Trump contra adversários políticos e para reforçar esforços relacionados a alegações já desacreditadas de fraude na eleição presidencial de 2020.

A fonte ouvida pela Reuters apontou ainda incômodo com atividades do grupo conhecido como Director’s Initiatives Group, criado sob Gabbard. A equipe trabalhou na desclassificação de documentos sobre a morte do ex-presidente John F. Kennedy, investigou a segurança de máquinas eleitorais e examinou as origens da covid-19.

Outro ponto de atrito citado foi a decisão de Gabbard, em agosto, de revogar credenciais de segurança de 37 autoridades atuais e antigas dos Estados Unidos, medida que expôs o nome de um oficial de inteligência que atuava disfarçado no exterior.

Gabbard defendeu uma série de iniciativas sob o argumento de combater a politização da comunidade de inteligência. Ela também aprovou a retirada de credenciais de segurança de ex-integrantes do setor, incluindo o ex-diretor da CIA John Brennan.

Warner critica politização da inteligência

O senador Mark Warner, principal democrata no Comitê de Inteligência do Senado e um dos críticos mais frequentes de Gabbard, afirmou a jornalistas em Manassas, na Virgínia, que o cargo havia se tornado excessivamente politizado.

“Esta posição, agora mais do que nunca, precisa ser ocupada por um profissional de inteligência independente e experiente”, disse Warner.

Segundo o senador, o próximo chefe da inteligência nacional deve compreender que o diretor da área deve se concentrar em inteligência estrangeira, e não se envolver em episódios domésticos relacionados a eleições.

A renúncia de Gabbard encerra um período de forte exposição política à frente da inteligência dos Estados Unidos e abre uma nova disputa sobre o perfil de liderança que Trump pretende escolher para comandar o setor em meio a crises internacionais e divisões internas em Washington.

Artigos Relacionados