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Governo Lula avalia conselho da paz proposto por Trump e busca articulação internacional

Brasil consulta países convidados e estuda resposta conjunta ao presidente dos Estados Unidos diante de dúvidas políticas e jurídicas sobre novo órgão

Luiz Inácio Lula da Silva (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

247 - O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) iniciou uma rodada de consultas diplomáticas com países convidados a integrar o chamado Conselho da Paz antes de definir se o Brasil aceitará participar da iniciativa proposta pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A avaliação no Palácio do Planalto e no Itamaraty é que uma eventual resposta ao convite precisa ser articulada com a comunidade internacional, tanto para reduzir riscos diplomáticos quanto para ampliar a capacidade de negociação sobre os termos do novo organismo, segundo reportagem da Folha de São Paulo.

A composição do grupo e o posicionamento adotado por outros países têm peso central na análise brasileira. O Conselho da Paz integra a segunda fase do plano dos Estados Unidos para tentar encerrar o genocídio na Faixa de Gaza, mas também teria atribuições mais amplas relacionadas a crises e disputas internacionais.

Nesse contexto, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, manteve conversas recentes com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e com o presidente do Conselho Europeu, António Costa. A intenção, segundo diplomatas, é ampliar o diálogo com outros governos para compreender melhor as informações disponíveis sobre o conselho e medir o grau de adesão ou resistência à proposta apresentada por Trump.

Um diplomata envolvido nas discussões afirmou que o cenário considerado ideal é uma resposta coordenada entre diversos países. A preocupação central é evitar exposições individuais que possam resultar em pressões ou retaliações por parte dos Estados Unidos. Há também o entendimento de que uma articulação conjunta pode abrir espaço para negociar mudanças no desenho institucional do conselho, de forma a atender demandas de um número maior de nações.

O caso da França é citado como exemplo dentro do Itamaraty. O governo francês anunciou que não pretende aderir ao conselho e, no mesmo dia, Trump ameaçou impor tarifas de 200% sobre vinhos e champanhes franceses. Apesar disso, integrantes do governo brasileiro minimizam a possibilidade de um agravamento automático das relações bilaterais, argumentando que o presidente dos Estados Unidos tende a separar temas globais de questões estritamente bilaterais.

No entorno de Lula, a proposta é vista com cautela. A decisão final, no entanto, ainda depende de análises políticas e jurídicas em andamento. O governo pretende usar os próximos dias para avaliar os impactos internacionais da iniciativa antes de definir sua posição. O convite formal chegou ao presidente brasileiro na sexta-feira (16), por meio de carta direta enviada pela Casa Branca.

Além de Lula, o presidente dos Estados Unidos convidou líderes como Javier Milei, da Argentina, Vladimir Putin, da Rússia, e chefes de governo de países como Alemanha, França, Turquia, Egito, Polônia, Uzbequistão, Cazaquistão e Belarus, entre outros. Ao todo, cerca de 60 países foram chamados a participar do grupo, número que, segundo auxiliares do governo brasileiro, representa menos de um terço dos membros da Organização das Nações Unidas.

Dentro do governo, há preocupação de que o Conselho da Paz possa se sobrepor às atribuições do Conselho de Segurança da ONU, o que poderia enfraquecer o sistema multilateral já existente. Diplomatas avaliam que uma recusa explícita é pouco provável sem uma manifestação formal, enquanto outros consideram possível simplesmente não responder ao convite, alternativa vista como forma de evitar atritos diretos com Trump.

Caso o Brasil decida responder, a comunicação deverá ocorrer diretamente entre os presidentes, já que o convite foi feito de maneira pessoal. O estatuto do Conselho da Paz prevê mandatos de três anos para os Estados-membros, com possibilidade de renovação. O financiamento seria baseado em contribuições voluntárias, e países que aportarem pelo menos US$ 1 bilhão garantiriam um assento permanente.

Trump já divulgou alguns nomes que integrariam a estrutura inicial do conselho, como o senador Marco Rubio, o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, os enviados para o Oriente Médio Steve Witkoff e Jared Kushner, além do bilionário Marc Rowan, do presidente do Banco Mundial, Ajay Banga, e do assessor Robert Gabriel. Mesmo com esses anúncios, os detalhes operacionais do novo organismo seguem indefinidos, reforçando as dúvidas que cercam a decisão brasileira.

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