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Governo Lula vê nova onda de influência do bolsonarismo no governo Trump

Diplomacia brasileira aponta influência de aliados de Bolsonaro em articulação para classificar PCC e CV como terroristas

Presidente dos EUA, Donald Trump 27/02/2026 REUTERS/Elizabeth Frantz (Foto: REUTERS/Elizabeth Frantz)

247 - O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalia que a possível classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas pelos Estados Unidos pode resultar de uma articulação política envolvendo aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro e setores da extrema direita ligados ao movimento trumpista. Segundo o G1, a avaliação é de que a iniciativa poderia criar um novo foco de tensão diplomática entre Brasília e Washington.

 integrantes do governo brasileiro interpretam a movimentação como parte de uma estratégia política para pressionar o Planalto em um ano eleitoral. A hipótese analisada por autoridades brasileiras é que a medida abriria espaço para sanções contra instituições financeiras do país e até justificativas para eventuais intervenções norte-americanas em território brasileiro, sob o argumento de combate ao terrorismo.

Itamaraty acompanha articulações com cautela

A diplomacia brasileira optou por evitar manifestações públicas desde que veio à tona a movimentação dentro do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para discutir a classificação das facções PCC (Primeiro Comando da Capital) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.

Nos bastidores, no entanto, diplomatas demonstram forte preocupação com a iniciativa. Um integrante do Itamaraty ouvido sob condição de anonimato criticou a articulação e afirmou que setores da direita radical tentam criar novos conflitos entre os dois países.

“Já produziram o tarifaço e os prejuízos do ano passado. Seguem tentando causar dano a qualquer custo. Só mudou o assunto, depois que o tarifaço naufragou”, afirmou a fonte.

Influência de aliados do trumpismo

Entre os nomes citados como influentes nas discussões sobre o Brasil dentro do governo norte-americano está Darren Beattie, assessor do presidente dos Estados Unidos responsável por temas ligados ao país sul-americano.

Segundo fontes diplomáticas, aliados do movimento Maga (Make America Great Again) buscam novos temas para a agenda política após repercussões negativas internas relacionadas à guerra no Irã e a ações do serviço de imigração norte-americano em Minnesota.

Governo brasileiro atua para conter medida

Embora não haja confirmação de que a classificação das facções brasileiras como organizações terroristas vá de fato avançar, o governo brasileiro iniciou uma articulação diplomática para tentar impedir a medida.

No último sábado, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, conversou por telefone com o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio. Durante o contato, o chanceler pediu que qualquer decisão sobre o tema seja adiada até que ocorra um encontro entre Lula e Donald Trump, ainda sem data definida.

As notas oficiais divulgadas após a conversa não mencionaram o assunto diretamente, apesar de Brasil e Estados Unidos cooperarem em diferentes frentes de combate ao crime organizado.

Processo nos EUA estaria avançado

De acordo com autoridades norte-americanas ouvidas pela reportagem, a etapa técnica do processo para classificar as facções já estaria concluída. O próximo passo seria o envio da proposta ao Congresso dos Estados Unidos, decisão que depende de Marco Rubio.

Caso o Congresso aprove a classificação, a palavra final caberá ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Paralelamente, a Embaixada do Brasil em Washington intensificou conversas com parlamentares norte-americanos — especialmente do Partido Democrata — na tentativa de evitar que a proposta avance no Legislativo.

Estratégia política para tensionar relações

Paulo Renato de Oliveira Figueiredo Filho, neto do ex-presidente da ditadura militar João Baptista de Oliveira Figueiredo, afirmou à GloboNews que o objetivo de parte dos articuladores é justamente gerar desgaste nas relações entre Brasil e Estados Unidos.

“Pra gente é bom que esse assunto mantenha a tensão entre os dois países”, disse.

Ele acrescentou que o processo estaria em estágio avançado, embora a decisão final dependa de fatores políticos. “A parte técnica está bem adiantada, vamos chamar assim. Mas só eles sabem ao certo. E, claro, a decisão final passa pela política. Está avançado mas não tem como termos certeza. O governo Lula jogou tudo que tem pra isso não acontecer. Eles estão sendo bem sucedidos em atrasar o passo”, declarou.

Encontro entre Lula e Trump pode definir rumos

Dentro do governo brasileiro, a expectativa é que um encontro bilateral entre Lula e Donald Trump possa ajudar a reduzir tensões diplomáticas. A avaliação de diplomatas é que a reunião deveria ocorrer antes do início mais intenso do calendário eleitoral.

Como parte dessa estratégia, o Ministério da Justiça elaborou um dossiê com ações do Brasil no combate ao crime organizado. O documento inclui iniciativas contra lavagem de dinheiro, tráfico de armas e cooperação internacional para investigação de líderes de organizações criminosas e recuperação de ativos ilegais.

No entendimento de autoridades brasileiras, a decisão do governo norte-americano sobre a classificação das facções poderá indicar qual será o tom das relações entre a Casa Branca e o governo Lula nos próximos meses, especialmente no período que antecede as eleições de outubro no Brasil.

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