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Índia adere formalmente à declaração Pax Silica em cúpula global de IA em Nova Déli

Iniciativa liderada pelos EUA combina segurança de cadeias de suprimentos e inteligência artificial

India AI Impact Summit (Foto: Agência ANI)

247 – A Índia assinou nesta sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026, a Declaração Pax Silica, aderindo formalmente à iniciativa durante o Global AI Impact Summit, realizado em Nova Déli, capital do país. A assinatura ocorreu à margem do encontro, que reúne formuladores de políticas públicas, líderes empresariais, acadêmicos e representantes da sociedade civil para discutir governança responsável e avanço tecnológico inclusivo.

Segundo a agência ANI, o ato de assinatura contou com a presença do embaixador dos Estados Unidos na Índia, Segio Gor, de Jacob Helberg, subsecretário de Estado dos EUA para Crescimento Econômico, Energia e Meio Ambiente, e do ministro indiano de Tecnologia da Informação, Ashwini Vaishnaw.

O que é a Pax Silica e o que a declaração defende

A Pax Silica é descrita como a iniciativa “carro-chefe” do Departamento de Estado dos EUA para inteligência artificial e segurança de cadeias de suprimentos, com o objetivo de construir um novo consenso de “segurança econômica” entre aliados e parceiros considerados confiáveis. Na prática, a proposta combina dois eixos que hoje se sobrepõem no tabuleiro global: a corrida tecnológica em IA e a disputa por insumos estratégicos, rotas de fornecimento e resiliência industrial.

De acordo com as informações divulgadas, a Declaração Pax Silica sublinha que uma cadeia de suprimentos confiável é indispensável para a segurança econômica mútua, ao mesmo tempo em que reconhece a IA como força transformadora para a prosperidade de longo prazo. Ao associar governança tecnológica e segurança material, o documento coloca a IA não apenas como inovação, mas como infraestrutura estratégica que depende de componentes, minerais e logística.

Essa moldura política torna a adesão da Índia especialmente relevante porque o país vem se posicionando como um grande polo de inovação e serviços digitais, e agora entra formalmente em um esforço liderado por Washington para organizar alianças em torno de padrões tecnológicos e de uma agenda de “segurança econômica”.

As falas de Washington e a disputa de narrativa sobre tecnologia

Antes e durante o ato, Segio Gor destacou a determinação indiana e a ampliação do escopo de cooperação bilateral. Ao dar as boas-vindas à Índia na iniciativa, ele enquadrou a Pax Silica como uma escolha política com implicações diretas sobre quem controlará os setores estratégicos da economia global.

Em sua declaração, Gor afirmou: “Nós damos as boas-vindas à Índia por se juntar e cofundar o futuro. Pax Silica é sobre sociedade livre, sobre se sociedades livres vão controlar os pontos de comando da economia global. É sobre se a inovação acontece em Bangalore e no Vale do Silício ou em Estados de vigilância, que usam tecnologia para monitorar e controlar seu povo. Nós escolhemos a liberdade, escolhemos a parceria. Escolhemos a força. E hoje, com a entrada da Índia na Pax Silica, escolhemos vencer.”

A fala organiza a adesão indiana em torno de um contraste binário, entre “sociedades livres” e “Estados de vigilância”, e sugere uma disputa de hegemonia tecnológica que extrapola a economia e entra no campo político e ideológico. Ao citar Bangalore e o Vale do Silício, Gor reforça a ambição de posicionar centros de inovação do Sul Global em uma arquitetura liderada pelos EUA, com a Índia como ator-chave.

Na mesma linha, Jacob Helberg também celebrou a adesão indiana e conectou o debate econômico à segurança nacional. Segundo ele, a medida evidencia a importância de a segurança econômica se traduzir em segurança nacional e representaria uma resposta a práticas que “minam a prosperidade” de países.

Helberg disse que o movimento ocorre “diante de coerção e chantagem” que afetariam o desenvolvimento das nações, reafirmando o tom geopolítico do anúncio no momento em que a IA, a infraestrutura digital e a cadeia de fornecimento se tornam terreno de competição entre potências e blocos.

Minerais críticos, cadeias de suprimento e a política externa indiana

A assinatura também foi apresentada como um desdobramento de conversas recentes entre Índia e Estados Unidos. A agência ANI informa que a parceria ocorre pouco depois de a Índia ter participado, no início de fevereiro, do Critical Minerals Ministerial, convocado pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e representado pelo ministro das Relações Exteriores indiano, S Jaishankar.

A menção a “minerais críticos” dá uma pista sobre a lógica material por trás do discurso de IA. Sistemas de inteligência artificial dependem de data centers, chips e equipamentos cujo fornecimento está ligado a cadeias globais complexas. Ao mesmo tempo, a transição digital e energética pressiona a demanda por insumos estratégicos, aumentando o peso de iniciativas que combinam tecnologia e segurança econômica sob uma mesma arquitetura diplomática.

Nesse contexto, a adesão da Índia à Declaração Pax Silica sinaliza uma tentativa de alinhar interesses em torno de cadeias de suprimento consideradas “confiáveis”, enquanto a narrativa oficial norte-americana coloca a parceria como resposta a riscos de coerção. Para Nova Déli, a presença no centro dessas iniciativas pode ampliar oportunidades de cooperação tecnológica, mas também intensifica o peso das disputas entre grandes potências sobre padrões, regras e dependências estratégicas.

A cúpula em Nova Déli e o papel do Sul Global no debate sobre IA

O India AI Impact Summit 2026, descrito como o primeiro encontro global de IA sediado no Sul Global, reuniu autoridades públicas, executivos, pesquisadores e representantes da sociedade civil com a proposta de debater governança responsável e avanço tecnológico inclusivo. Ao abrigar o evento em Nova Déli, a Índia também projeta a ambição de participar da definição de regras e diretrizes para a IA em escala global, e não apenas de adotar padrões definidos por centros tradicionais de poder.

A assinatura da Declaração Pax Silica, no entanto, mostra que as discussões sobre ética e inclusão convivem com acordos de caráter estratégico, nos quais a IA aparece ligada à segurança de cadeias de suprimentos e a uma reorganização de alianças. O movimento indica que, cada vez mais, fóruns de governança tecnológica servem também como palco para pactos políticos e econômicos que moldam o futuro da inovação, das indústrias e das relações internacionais.

Ao final, a entrada formal da Índia na Pax Silica consolida um passo adicional na aproximação com Washington em temas de tecnologia e segurança econômica, ao mesmo tempo em que expõe a disputa de narrativas sobre o uso da tecnologia, a soberania digital e o controle dos setores decisivos da economia global.

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