Indianos lamentam mortes e cobram medidas após ataque dos EUA matar marinheiros
Ataque dos EUA a petroleiro deixa três mortos e leva Índia a registrar segundo protesto formal a Washington
Reuters – Sushila Devi estava sentada no chão de sua casa, em Deoria, no norte da Índia, chorando após ser informada pelas autoridades de que seu marido era um dos três marinheiros mortos em um ataque dos Estados Unidos contra uma embarcação próxima a Omã.
"Se ele tivesse nos contado sobre os perigos, eu o teria chamado de volta", lamentou, enquanto mulheres da família se reuniam ao seu redor para consolá-la. "O governo não deveria permitir que as pessoas fossem para lá."
A Índia adotou nesta sexta-feira uma medida incomum ao apresentar um segundo protesto formal aos Estados Unidos pelo ataque, ocorrido mais de três meses após o início da guerra envolvendo o Irã. As palavras de Sushila Devi refletem um sentimento que ganha força entre os indianos: a cobrança para que o próprio governo faça mais para proteger seus marinheiros retidos na região do Golfo.
Críticos querem mais do que um "protesto de rotina"
Seu marido, Shivanand Chaurasia, único responsável pelo sustento da família, que inclui dois filhos pequenos, estava entre os 24 tripulantes indianos a bordo do petroleiro Settebello, de bandeira de Palau, atingido na quarta-feira.
O Comando Central das Forças Armadas dos EUA informou que uma aeronave lançou munições de precisão contra a casa de máquinas da embarcação após a tripulação "repetidamente deixar de cumprir instruções das forças americanas".
Segundo os militares, o ataque fazia parte de um bloqueio em curso contra embarques de petróleo ligados ao Irã, iniciado após Teerã restringir drasticamente o tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz, rota que, antes do conflito, era responsável pelo transporte de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito consumidos no mundo.
O Ministério das Relações Exteriores da Índia informou ter convocado o encarregado de negócios dos Estados Unidos para expressar sua "profunda preocupação com o uso de força letal e mortal contra embarcações civis".
"Tais ações são inaceitáveis e comprometem a segurança, a proteção e a estabilidade do comércio marítimo internacional em uma região sensível e em um momento difícil", afirmou o governo indiano.
A Embaixada dos Estados Unidos em Nova Délhi não respondeu a um pedido de comentário.
As mortes levaram a novos apelos para que o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, vá além da apresentação de protestos diplomáticos.
A Índia, segundo maior fornecedor mundial de marítimos, atrás apenas das Filipinas, de acordo com dados oficiais, tem arcado com um custo elevado em um conflito que não ajudou a iniciar, afirmam integrantes da oposição e outros críticos.
Na quinta-feira, outra embarcação com 20 tripulantes indianos foi atacada. Não houve mortos nem feridos.
"Até agora, a Índia respondeu com um protesto diplomático de rotina e aparentes esforços para minimizar a gravidade dos ataques", afirmou Brahma Chellaney, analista de assuntos estratégicos em Nova Délhi.
Oposição diz que Modi deveria falar com Trump
"Se as vítimas fossem marinheiros chineses, Pequim quase certamente teria reagido de forma muito diferente, tratando os ataques como uma provocação direta e letal dos Estados Unidos e elevando o episódio à condição de grande crise internacional", acrescentou.
O partido de oposição Aam Aadmi Party pediu que Modi trate do assunto diretamente com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Os dois líderes devem se encontrar à margem da cúpula do G7 na próxima semana.
O principal partido de oposição, o Congresso Nacional Indiano, afirmou que as políticas do governo "encorajaram potências estrangeiras a agir contra os interesses indianos com impunidade".
"A autonomia estratégica da Índia e seus interesses permanentes devem ser defendidos com clareza e determinação", declarou a legenda.
Ataques desse tipo podem desestimular trabalhadores a ingressarem na carreira marítima, agravando a escassez de mão de obra no setor, avaliou Manoj Yadav, secretário-geral do Sindicato Forward Seamen's Union of India.
"Os incidentes repetidos demonstram a alarmante deterioração das condições de segurança em um dos corredores marítimos mais importantes do mundo", afirmou.



