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Inflação nos EUA dispara em março com alta recorde da gasolina

Índice de preços ao consumidor sobe 0,9% impulsionado pela energia e pressiona economia dos EUA em meio à guerra com o Irã

Inflação nos EUA dispara (Foto: Valter Lima)

247 - A inflação nos Estados Unidos voltou a acelerar em março, impulsionada principalmente pela disparada nos preços da gasolina, que levou o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) ao maior avanço em quase quatro anos. O cenário, marcado pela alta de 0,9% no mês, reflete os impactos da guerra com o Irã sobre os custos de energia e amplia a pressão sobre a economia americana.

De acordo com reportagem da Reuters, divulgada nesta sexta-feira (10), o aumento expressivo da inflação ocorre em um momento delicado para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que enfrenta queda em sua aprovação diante da insatisfação popular com o custo de vida e a condução da economia.

Segundo o Departamento do Trabalho, o IPC registrou em março sua maior alta mensal desde junho de 2022. O avanço foi puxado, sobretudo, pelos combustíveis: os preços da gasolina saltaram 21,2%, o maior aumento desde o início da série histórica, em 1967, sendo responsáveis por quase três quartos da alta total do índice. Já outros combustíveis, como o diesel, subiram 30,8%, também em nível recorde.

O choque nos preços da energia está diretamente ligado à escalada do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, que elevou o preço global do petróleo em mais de 30%. Com isso, o valor médio da gasolina nos EUA ultrapassou US$ 4 por galão pela primeira vez em mais de três anos. Apesar do anúncio de um cessar-fogo de duas semanas por Trump, condicionado à reabertura do Estreito de Ormuz por Teerã, analistas avaliam que a trégua ainda é frágil.

No acumulado de 12 meses até março, a inflação ao consumidor subiu 3,3%, acima dos 2,4% registrados em fevereiro, atingindo o maior nível desde maio de 2024. O resultado evidencia os desafios crescentes para o poder de compra da população e eleva o risco político para o governo.

Apesar da forte alta no índice geral, o chamado núcleo da inflação — que exclui alimentos e energia — apresentou comportamento mais moderado, com avanço de 0,2% no mês e 2,6% em 12 meses. Economistas, no entanto, alertam que esse alívio pode ser temporário, já que os dados capturam apenas os efeitos iniciais do aumento nos preços do petróleo.

“A economia acaba de sofrer um impacto direto da inflação como resultado da guerra no Oriente Médio”, afirmou Christopher Rupkey, economista-chefe da FWDBONDS. “Economistas dizem que, uma vez que o gênio da inflação sai da garrafa, é quase impossível cancelar os aumentos de preços e retornar os custos aos níveis anteriores. Só o tempo dirá se os consumidores, fartos da situação, entrarão em greve.”

Outros especialistas destacam que a inflação subjacente foi contida por fatores pontuais, como a queda nos preços de carros usados e planos de saúde, o que não deve se repetir nos próximos meses. Para Sung Won Sohn, professor de economia da Loyola Marymount University, o comportamento dos preços de energia tende a prolongar os efeitos inflacionários. “Mesmo que o aumento de março se mostre temporário, os preços elevados de energia podem persistir nos próximos meses”, disse.

O impacto já começa a se espalhar por outros setores. As tarifas aéreas subiram 2,7%, sinalizando o repasse do custo do combustível para serviços. Além disso, itens como vestuário e bens domésticos também registraram alta, influenciados por tarifas e custos de produção.

Em paralelo, indicadores mostram deterioração no sentimento do consumidor. Pesquisa da Universidade de Michigan revelou que o índice de confiança caiu para um nível recorde de baixa em abril, refletindo o pessimismo diante da inflação e das incertezas econômicas.

No mercado financeiro, a reação foi imediata: as bolsas de Nova York recuaram, o dólar perdeu força frente a outras moedas e os rendimentos dos títulos do Tesouro subiram, indicando preocupação com a trajetória da inflação.

Diante desse cenário, cresce entre economistas a avaliação de que o Federal Reserve dificilmente reduzirá as taxas de juros ainda em 2026. Parte dos analistas, inclusive, já considera a possibilidade de novos aumentos, caso a inflação continue pressionada.

Ainda assim, há divergências. Para James Knightley, economista-chefe internacional do ING, o enfraquecimento do consumo pode limitar a capacidade das empresas de repassar custos, abrindo espaço para cortes de juros. “Cortes nas taxas são mais prováveis do que aumentos”, afirmou.

Com a inflação pressionada e o cenário internacional instável, os próximos meses devem ser decisivos para a economia americana e para a condução da política monetária no país.

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