Irã aposta em “frota de mosquitos” para manter pressão no Estreito de Ormuz
Estratégia com barcos rápidos, drones e mísseis sustenta ameaça iraniana no estreito mesmo após perdas militares recentes
247 - A estratégia do Irã baseada na chamada “frota de mosquitos” continua sendo um dos principais instrumentos de pressão no Estreito de Ormuz, mesmo após ataques que reduziram significativamente sua capacidade naval convencional. O modelo, sustentado por embarcações pequenas, drones e mísseis, mantém o risco sobre uma das rotas marítimas mais importantes do mundo. Os relatos sobre a estratégia iraniana foram publicados neste sábado (18) pelo The New York Times.
A tática consiste no uso de barcos leves e velozes, capazes de realizar ataques rápidos e dispersos contra navios comerciais e militares, dificultando a reação de forças adversárias e garantindo presença constante na região. O Estreito de Ormuz é considerado um ponto estratégico global, por onde passa cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo, o que o torna vital para a economia internacional . Nesse cenário, mesmo ações pontuais têm potencial de gerar impactos significativos no comércio e na segurança energética.
Guerra assimétrica e mobilidade
A chamada “frota de mosquitos” integra as forças navais da Guarda Revolucionária iraniana, uma estrutura separada da marinha tradicional do país. O foco dessa unidade é a guerra assimétrica, com operações rápidas, descentralizadas e de difícil detecção.
De acordo com o especialista Saeid Golkar, ouvido pela reportagem, “a marinha do IRGC funciona mais como uma força de guerrilha no mar”. Ele acrescenta: “Ela é focada em guerra assimétrica, especialmente no Golfo Pérsico e no Estreito de Ormuz. Em vez de depender de grandes navios de guerra e batalhas clássicas, aposta em ataques rápidos e fugazes.”
Além das embarcações, o Irã combina o uso de drones e mísseis lançados tanto do mar quanto de bases terrestres camufladas, o que amplia o alcance e dificulta a identificação das origens dos ataques.
Perdas militares e capacidade residual
Apesar de operações conduzidas por Estados Unidos e Israel terem causado danos significativos à infraestrutura militar iraniana, a estratégia permanece ativa. Autoridades americanas afirmaram que mais de 90% da frota da marinha regular do Irã foi destruída, além de parte das embarcações rápidas da Guarda Revolucionária.
Ainda assim, estimativas indicam que o país mantém centenas ou até milhares de barcos leves, muitos ocultos em bases costeiras ou cavernas, prontos para mobilização rápida. Essa dispersão dificulta o monitoramento por satélite e garante capacidade operacional contínua.
Durante o conflito recente, ao menos 20 embarcações foram alvo de ataques na região, segundo dados da Agência Marítima Internacional. Analistas apontam que muitos desses ataques podem ter sido realizados com drones lançados de plataformas móveis em terra.
Tensão persistente e resposta dos EUA
A crise no estreito se intensificou após o bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos a embarcações iranianas. O presidente Donald Trump declarou que a situação em Ormuz estava “resolvida”, mas indicou que as restrições continuarão até que haja um acordo de paz.
Mesmo com o poderio militar americano, especialistas destacam que a natureza imprevisível da estratégia iraniana mantém o risco elevado. O almirante aposentado Gary Roughead afirmou: “O grupo continua sendo uma força perturbadora. Nunca se sabe exatamente o que eles estão fazendo ou quais são suas intenções.”
Como resposta, forças dos EUA têm evitado permanecer dentro do estreito, operando em áreas mais amplas, como o Golfo de Omã e o Mar Arábico, onde há maior espaço para manobras.
Origem e evolução da estratégia
A doutrina da “frota de mosquitos” remonta à Revolução Islâmica de 1979, quando o Irã passou a investir em estruturas militares paralelas e táticas não convencionais. A estratégia foi consolidada durante a guerra contra o Iraque, nos anos 1980, quando Teerã optou por evitar confrontos diretos com potências superiores.
Ao longo das décadas, o país aprimorou sua capacidade com o desenvolvimento de embarcações mais rápidas, submarinos de pequeno porte e drones marítimos. Algumas dessas lanchas ultrapassam velocidades de 100 nós, o equivalente a cerca de 185 km/h.
Impacto geopolítico
A persistência dessa estratégia reforça a instabilidade em uma das regiões mais sensíveis do planeta. O Estreito de Ormuz é a única ligação marítima entre o Golfo Pérsico e o oceano aberto, sendo essencial para exportações de petróleo e gás de vários países .
Mesmo sem um bloqueio total, ataques esporádicos e ameaças constantes são suficientes para elevar tensões, encarecer seguros marítimos e afetar o fluxo global de energia.
A possibilidade de ampliação das operações iranianas para outras rotas, como o Mar Vermelho, também é vista como fator adicional de risco, ampliando o alcance da estratégia de pressão indireta adotada por Teerã.


