Reuters: guerra contra o Irã revela a economia como ponto fraco de Trump
Conflito no Oriente Médio eleva preços de energia, pressiona economia dos EUA e acelera busca por solução diplomática
247 - A guerra envolvendo os Estados Unidos e o Irã evidenciou uma fragilidade central da estratégia do presidente Donald Trump: a dependência da estabilidade econômica interna. O controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz, essencial para o fluxo global de petróleo, provocou alta nos preços de energia, ampliou temores inflacionários e aumentou o risco de recessão, intensificando a pressão doméstica sobre a Casa Branca, segundo a agência Reuters.
Após sete semanas de conflito, o Irã não foi derrotado nem cedeu às exigências de Washington, mas demonstrou capacidade de impor custos econômicos relevantes. Analistas avaliam que o cenário revelou limites na disposição de Trump em sustentar uma guerra prolongada diante dos impactos internos.
O confronto teve início em 28 de fevereiro, quando os Estados Unidos se uniram a Israel em ataques contra alvos iranianos, alegando ameaças relacionadas ao programa nuclear de Teerã. Em resposta, o Irã utilizou seu controle sobre o Estreito de Ormuz para restringir o tráfego, desencadeando um choque energético global descrito por especialistas como um dos mais severos da história.
Mesmo sem depender diretamente do volume de petróleo que passa pela região, os Estados Unidos foram afetados de forma indireta. O aumento dos combustíveis pressionou consumidores, elevou custos logísticos e impactou diversos setores econômicos. O Fundo Monetário Internacional (FMI) também alertou para o risco de desaceleração global.
A pressão política interna cresceu com a proximidade das eleições legislativas de meio de mandato. Republicanos aliados de Trump enfrentam disputas acirradas, o que amplia a urgência por uma solução que minimize os efeitos econômicos da guerra.
Para especialistas, o Irã explorou estrategicamente essa vulnerabilidade. “Trump está sentindo o aperto econômico, que é seu calcanhar de Aquiles nesta guerra de escolha”, afirmou Brett Bruen, ex-conselheiro de política externa do governo Obama.
A Casa Branca afirma que trabalha para conter os impactos no mercado de energia. O porta-voz Kush Desai declarou que o governo busca resolver problemas “temporários” e manter o foco na agenda econômica interna. “O presidente Trump consegue andar e mascar chiclete ao mesmo tempo”, disse.
A mudança de postura de Trump, que passou de ofensivas militares para negociações diplomáticas em abril, foi influenciada pela reação negativa dos mercados financeiros e por pressões dentro de sua base política. Setores como o agrícola também foram afetados pela interrupção no fornecimento de fertilizantes, enquanto o aumento do combustível elevou os custos do transporte aéreo.
Apesar de um cessar-fogo temporário mediado pelos Estados Unidos e da decisão iraniana de manter o estreito aberto durante a trégua, especialistas alertam que os efeitos econômicos podem persistir por meses ou até anos.
As negociações entre Washington e Teerã ainda enfrentam impasses, incluindo o destino do estoque de urânio enriquecido do Irã. Trump afirmou que um acordo pode envolver a transferência do material para os Estados Unidos, mas autoridades iranianas negaram qualquer compromisso nesse sentido.
O conflito também gerou preocupações entre aliados internacionais sobre a previsibilidade da política externa americana. Gregory Poling, especialista do Center for Strategic and International Studies, afirmou: “O alerta que está soando para os aliados agora é como a guerra mostrou que a administração pode agir de forma errática, sem muita consideração pelas consequências".
Países europeus e asiáticos avaliam os desdobramentos com cautela. Governos como os do Japão, Coreia do Sul e Taiwan podem rever suas estratégias diante da percepção de incerteza. Na Europa, cresce a preocupação com os impactos econômicos e com o futuro do apoio dos Estados Unidos à Ucrânia.
No Oriente Médio, países árabes do Golfo defendem o fim rápido do conflito, mas alertam para a necessidade de garantias de segurança. “O fim deste conflito não deve criar uma instabilidade contínua na região”, afirmou Anwar Gargash, assessor diplomático dos Emirados Árabes Unidos.
Embora Trump ainda mantenha apoio significativo entre seus eleitores, analistas apontam sinais de desgaste político. “Ele sabe que uma parte significativa do país, inclusive alguns dentro de sua base, é fortemente contra o que ele fez”, disse o estrategista Chuck Coughlin. “E acho que o preço vai chegar".


