"A ONU não pode ficar silenciosa", diz Lula ao defender reforma da governança global
Presidente critica inação da ONU diante de conflitos e defende mudanças na governança global e maior cooperação entre países
247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou neste sábado (18) que a reforma da Organização das Nações Unidas (ONU) e o fortalecimento do multilateralismo são fundamentais para enfrentar conflitos globais e proteger a democracia, durante reunião internacional em Barcelona, na Espanha. Segundo ele, a falta de ação do organismo diante de crises evidencia a necessidade de mudanças estruturais. As declarações foram feitas durante a 4ª Reunião de Alto Nível do Fórum em Defesa da Democracia.
Lula defendeu maior representatividade e capacidade de resposta da ONU, além de reforçar a importância da cooperação entre países. Ele destacou que os desafios globais exigem instituições mais eficazes e alinhadas à realidade geopolítica atual.
Durante o evento, o presidente ressaltou que a responsabilidade pela democracia é interna a cada país, mas que a cooperação internacional permanece central. “A democracia em cada país nosso é da nossa responsabilidade, da responsabilidade cultural do nosso povo. Nós vamos nos virar e o povo de cada país vai encontrar o seu jeito de fazer democracia. Mas o que nos move com muita força é a questão do multilateralismo e a relação entre as nações. Isso é o que me preocupa”, declarou.
Crítica à estrutura da ONU
Lula apontou que o atual modelo da ONU não acompanha as transformações globais e criticou a atuação do Conselho de Segurança. Para ele, o órgão não tem cumprido seu papel diante do aumento de conflitos armados no mundo.
“O Conselho de Segurança da ONU não se reúne. Os seus membros titulares não comparecem. Precisamos exigir que o secretário-geral da ONU convoque reuniões extraordinárias, mesmo sem pedir para os cinco membros do Conselho de Segurança. A ONU não pode ficar silenciosa e ver o que está acontecendo no mundo”, afirmou.
O presidente também questionou o poder concentrado nas mãos dos membros permanentes do Conselho. “Hoje as Nações Unidas não representam aquilo para o qual ela foi criada. Os cinco membros do Conselho de Segurança, que quando se criou o Conselho era para garantir a paz no mundo após a Segunda Guerra Mundial, viraram os senhores da guerra”, disse.
Desafios globais e regulação digital
Ao abordar temas contemporâneos, Lula destacou a necessidade de regulação internacional das plataformas digitais, classificando o tema como um desafio global.
“Controlar plataformas digitais e por regras democráticas é uma questão mundial, não é uma questão de um país ou de outro. No Brasil, estamos tentando fazer a nossa parte. Porque a verdade, nua e crua, é que a mentira ganhou da verdade”, afirmou.
Segundo ele, a disseminação de desinformação exige respostas coordenadas entre os países e instituições internacionais.
Soberania e governança global
Lula também defendeu que a soberania digital seja tratada de forma multilateral, com regras comuns para evitar interferências externas em processos eleitorais.
“A ONU é um instrumento muito valioso se ela funcionar. E ela precisa funcionar para garantir que, por exemplo, as plataformas sejam reguladas no mundo inteiro, para todo mundo. Não pode um presidente da República de um país interferir na eleição de outro”, declarou.
Impactos das guerras e desigualdade
O presidente alertou ainda para os efeitos econômicos e sociais das guerras, especialmente sobre populações mais vulneráveis.
“O Trump invade o Irã e aumenta o preço do feijão no Brasil. Aumenta o preço do milho no México. Aumenta a gasolina no outro país. Ou seja, é o pobre que vai pagar a irresponsabilidade de guerras que ninguém quer”, afirmou.
Ele também destacou a contradição entre investimentos militares e necessidades sociais globais. “O mundo não está precisando de guerra. Temos mais de 760 milhões de pessoas passando fome”, acrescentou.
Defesa da paz e agenda internacional
Ao final de sua participação, Lula reforçou a posição do Brasil em favor da paz e do desenvolvimento.
“Temos que falar todo dia: o Brasil não quer guerra com os Estados Unidos, com a China, com a Rússia, com o Uruguai, com a Albânia, com a Bolívia. Eu quero paz, quero que o meu país se desenvolva”, concluiu.
A agenda do presidente na Espanha incluiu compromissos com autoridades locais e discussões sobre cooperação bilateral, incluindo acordos na área de minerais estratégicos e regulação de plataformas digitais.


