HOME > Mundo

Irã propõe aos EUA plano de 14 pontos para encerrar guerra

Plano prevê garantias contra ataques, fim de sanções e novo mecanismo para o Estreito de Ormuz

EUA-Irã (Foto: Prensa Latina )

247 - O Irã apresentou aos Estados Unidos uma proposta de 14 pontos para encerrar a guerra, com garantias contra novos ataques, fim de sanções, liberação de ativos congelados e criação de um novo mecanismo para o Estreito de Ormuz. O plano surge em meio a uma trégua frágil e a um impasse diplomático com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que afirmou estar analisando a proposta, mas indicou dúvidas sobre a possibilidade de acordo com Teerã.

As informações são da Al Jazeera, que detalhou os principais pontos da iniciativa iraniana e as reações em Washington. A agência iraniana Tasnim informou que o documento de 14 pontos foi elaborado em resposta a um plano americano de nove pontos. O documento iraniano foi entregue ao governo do Paquistão, que exerce o papel de mediador.

Apesar da pausa nos combates desde 8 de abril, Estados Unidos e Irã ainda não conseguiram transformar o cessar-fogo em um acordo permanente. Teerã quer encerrar a guerra de forma definitiva, enquanto Trump exige que o Irã ponha fim ao bloqueio efetivo do Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passa cerca de um quinto das exportações globais de petróleo e gás. O presidente dos Estados Unidos também definiu a capacidade nuclear iraniana como uma “linha vermelha”.

O bloqueio de fato do estreito por Teerã ocorreu após os ataques lançados pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã em 28 de fevereiro. Mesmo após o cessar-fogo, a decisão da administração Trump de manter um bloqueio naval aos portos iranianos elevou a tensão. Os dois países seguem atacando, capturando e interceptando embarcações um do outro, sinalizando que a guerra naval no Estreito de Ormuz continua em andamento.

O que prevê o plano iraniano

De acordo com relatos da mídia iraniana citados pela Al Jazeera, a proposta de Teerã tenta substituir a lógica de mera prorrogação do cessar-fogo por uma negociação voltada ao encerramento da guerra. O Irã defende que todas as questões sejam resolvidas em 30 dias.

Entre as exigências estão garantias contra futuras agressões, retirada de forças americanas das proximidades do Irã, liberação de ativos iranianos congelados avaliados em bilhões de dólares, levantamento das sanções, reparações de guerra, fim de todas as hostilidades, inclusive no Líbano, e a criação de “um novo mecanismo para o Estreito de Ormuz”.

O Irã, que também foi atacado pelos Estados Unidos e por Israel em junho do ano passado, busca garantias formais contra novas ações militares. Teerã também quer assegurar o direito ao enriquecimento de urânio, alegando sua condição de signatário do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares. Esse ponto, porém, permanece como um dos principais obstáculos, já que Trump insiste que a questão nuclear é inegociável.

Outro ponto central é o fim de décadas de sanções, que atingiram profundamente a economia iraniana. A navegação pelo Estreito de Ormuz e as reparações de guerra também aparecem como temas sensíveis nas conversas.

Após entregar a proposta, o vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Kazem Gharibabadi, afirmou, segundo a emissora estatal iraniana IRIB: “Agora a bola está no campo dos Estados Unidos para escolher o caminho da diplomacia ou a continuação de uma abordagem confrontacional.”

Impasse sobre urânio e Ormuz

Paul Musgrave, professor associado de governo na Universidade Georgetown, no Catar, disse à Al Jazeera que o Irã “suavizou ligeiramente” sua proposta.

“As notícias sobre isso indicam que há uma leve suavização na proposta, ou melhor, uma preparação para discutir a proposta, a saber, que o lado iraniano pode ter abandonado sua pré-condição de que os EUA cessem seu bloqueio distante ao tráfego iraniano [no Estreito de Ormuz]”, afirmou Musgrave.

“Além disso, porém, muitas das coisas que supostamente estão na proposta incluem a manutenção da capacidade soberana do Irã de enriquecer urânio, seu programa nuclear e, é claro, o que ela delicadamente chama de ‘mecanismo de controle’ sobre a navegação no Estreito de Ormuz”, acrescentou.

Segundo Musgrave, nas duas questões mais relevantes — o enriquecimento de urânio e a transferência do urânio altamente enriquecido — Estados Unidos e Irã continuam “muito distantes”.

“O presidente Trump tem sido inflexível ao afirmar que o Irã deve entregar sua capacidade nuclear”, disse o professor.

Kenneth Katzman, pesquisador sênior do Soufan Center, organização sediada em Nova York, avaliou que a desconfiança de Teerã em relação a Trump continua sendo um obstáculo maior.

“As diferenças nas questões nucleares, na verdade, já não são uma diferença tão grande assim. Ainda é substancial, mas pode ser reduzida. A questão é que o Irã realmente desconfia de Trump e dos Estados Unidos e não quer avançar, de fato, para uma discussão plena até que esse bloqueio seja suspenso”, afirmou Katzman.

“Esse é um problema que pode levar a uma escalada dos EUA. Como Trump sabe, ele precisa quebrar esse controle iraniano do estreito, então é aí que está a questão”, acrescentou.

Apesar da frustração dos dois lados, Katzman disse que nenhum deles deve abandonar as negociações no curto prazo.

Resposta de Trump

Donald Trump afirmou que está revisando a proposta iraniana, mas advertiu que Washington pode retomar ataques caso Teerã “se comporte mal”. Ao falar com jornalistas na Flórida, antes de embarcar no Air Force One no sábado, o presidente dos Estados Unidos confirmou ter sido informado sobre o “conceito do acordo”.

Questionado sobre a possibilidade de retomada dos bombardeios, Trump respondeu: “Se eles fizerem algo ruim, há uma possibilidade de que isso aconteça.”

O presidente dos Estados Unidos também afirmou que Washington está “indo muito bem” e disse que o Irã estaria desesperado por um acordo porque teria sido “dizimado” por meses de conflito e pelo bloqueio naval.

Trita Parsi, do Quincy Institute for Responsible Statecraft, disse à Al Jazeera que o custo econômico do bloqueio aos portos iranianos superou o que a Casa Branca previa, mas argumentou que o dano estratégico mais amplo aos Estados Unidos provavelmente é ainda maior.

“O Irã esteve sob todos os tipos de pressão econômica e sanções por 47 anos”, afirmou Parsi. “Nenhuma delas conseguiu quebrar os iranianos ou forçá-los a capitular”, disse.

Mais tarde, em publicação na Truth Social, Trump afirmou que era difícil imaginar que a proposta iraniana fosse aceitável, dizendo que Teerã “ainda não pagou um preço alto o suficiente pelo que fez à Humanidade e ao Mundo nos últimos 47 anos”.

Para Musgrave, da Universidade Georgetown, Trump parece ter rejeitado a nova proposta iraniana “sem lê-la ou ser informado sobre ela”.

Propostas anteriores fracassaram

A nova proposta do Irã aparece após três semanas de trégua frágil, iniciada em 8 de abril, que suspendeu a guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. Um dia antes do cessar-fogo, Teerã havia apresentado um plano de paz de 10 pontos, com fim dos conflitos na região, protocolo para passagem segura pelo Estreito de Ormuz, levantamento de sanções e reconstrução, segundo a agência estatal IRNA.

Trump classificou o plano iraniano de 10 pontos como uma “proposta significativa”, mas “não boa o suficiente”.

A proposta iraniana de 7 de abril foi elaborada em resposta a um plano de 15 pontos redigido pelos Estados Unidos em 25 de março. Segundo o Canal 12 de Israel, o plano americano previa um cessar-fogo de um mês enquanto as partes negociavam os termos para acabar com a guerra, com mediação do Paquistão.

O documento apoiado por Washington incluía o desmantelamento das instalações nucleares iranianas em Natanz, Isfahan e Fordow, compromisso permanente do Irã de nunca desenvolver armas nucleares, entrega do estoque iraniano de urânio enriquecido à Agência Internacional de Energia Atômica, monitoramento da infraestrutura nuclear remanescente por parte da ONU, reabertura do Estreito de Ormuz, fim de todas as sanções contra o Irã e encerramento do mecanismo da ONU que permite a reimposição de sanções.

Teerã rejeitou o plano por considerar que um cessar-fogo temporário daria aos Estados Unidos e a Israel tempo para reorganizar forças e lançar novos ataques. Em resposta, apresentou seu plano de 10 pontos, agora substituído por uma proposta mais ampla de 14 pontos.

Tensão militar permanece elevada

Mesmo com o cessar-fogo, a Guarda Revolucionária Islâmica afirmou no sábado que permanece em “estado de alerta máximo” diante da possibilidade de retomada das hostilidades. A justificativa foi a falta de compromisso dos Estados Unidos com tratados anteriores.

Em publicação no X no domingo, a unidade de inteligência da Guarda Revolucionária Islâmica declarou: “Só há uma maneira de interpretar isso: Trump precisa escolher entre uma operação militar impossível ou um mau acordo com a República Islâmica do Irã. O espaço para a tomada de decisões dos EUA diminuiu.”

O impasse também é agravado por obstáculos técnicos para a reabertura do Estreito de Ormuz, incluindo a presença de minas marítimas iranianas. Teerã fechou o estreito desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, provocando forte impacto sobre os preços globais de petróleo e gás.

Para pressionar o Irã a reabrir a passagem, os Estados Unidos impuseram, em 13 de abril, um bloqueio a todos os portos iranianos. A medida ampliou a crise energética. Na sexta-feira, o petróleo Brent estava cotado a US$ 111,29 por barril às 8h08 GMT, contra cerca de US$ 65 antes da guerra.

A tensão aumentou ainda mais depois de Trump classificar o bloqueio naval dos Estados Unidos como um “negócio muito lucrativo”.

“Nós nos apoderamos da carga. Nos apoderamos do petróleo, um negócio muito lucrativo. Quem diria, somos meio que piratas, mas não estamos para brincadeira”, disse Trump em evento na Flórida no sábado.

O Ministério das Relações Exteriores do Irã reagiu às declarações e as classificou como uma “admissão condenatória de pirataria”.

Bloqueio pode dificultar diplomacia

Trita Parsi afirmou à Al Jazeera que o bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos teve efeito contrário ao pretendido por Trump e vem agravando a crise.

“As negociações estavam em curso e poderiam ter continuado independentemente do bloqueio”, disse.

“O bloqueio não tem nada a ver com a presença dos iranianos na mesa de negociações. Na verdade, está impedindo o progresso diplomático mais do que qualquer outra coisa”, observou Parsi.

Segundo ele, Trump já havia obtido sua maior vantagem pela via diplomática antes da imposição do bloqueio.

“Assim que conseguiu o cessar-fogo, a principal pressão sobre ele, a própria guerra e a forma como ela estava elevando os preços do gás, foi aliviada. Se ele tivesse permanecido nesse cenário e usado o tempo a seu favor, estaria em uma posição muito mais forte em relação aos iranianos, porque estes não conseguiram o principal objetivo: o alívio das sanções.”

Parsi argumentou ainda que, ao impor o bloqueio, Trump retirou mais petróleo do mercado.

“Os preços do petróleo estão agora mais altos durante o cessar-fogo do que estavam durante a própria guerra. Todos esses indicadores econômicos mostram que o bloqueio está piorando a situação para Trump”, afirmou.

Ainda assim, Trump tem analisado alternativas para enfrentar a crise do petróleo, incluindo a criação de uma coalizão naval chamada Força Marítima de Liberdade, MFC na sigla em inglês, destinada a restaurar a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz.

Segundo relatos da mídia americana citados pela Al Jazeera, a coalizão teria como principais funções compartilhar informações de inteligência entre países-membros, coordenar esforços diplomáticos e aplicar sanções para controlar o tráfego marítimo no estreito.

Artigos Relacionados