Irã usa estética de filme da Disney e lança vídeo de IA que retrata Trump como 'divertimento do mal'
A produção faz referências diretas ao caso Epstein e ao bombardeio à escola de Minab, no sul do Irã, episódio que resultou em cerca de 170 mortos
247 - O governo iraniano lançou nesta quinta-feira (12) uma ofensiva de guerra psicológica no campo digital: divulgou um vídeo produzido com inteligência artificial que utiliza a estética do filme "Divertida Mente", da Disney, para retratar o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como um líder movido por impulsos de mentira e violência.
A produção faz referências diretas ao caso Epstein e ao bombardeio à escola de Minab, no sul do Irã, episódio que resultou em cerca de 170 mortos, a maioria crianças, e que se tornou um dos pontos mais sensíveis do conflito entre os dois países.
A peça audiovisual, amplamente difundida nas redes sociais iranianas, reproduz o formato narrativo do longa-metragem da Disney para construir uma sátira política de forte impacto visual. Na cena inicial, Trump aparece em uma coletiva de imprensa sendo questionado por repórteres sobre o ataque à escola iraniana. O presidente responde afirmando que os Estados Unidos não têm como alvo civis no território do Irã.
A narrativa mergulha no interior da mente do político republicano, onde figuras semelhantes a diabos o incentivam a mentir diante dos jornalistas e acionam um painel com o botão "mentira" — posicionado ao lado do botão "matar" e de um globo com a inscrição "Epstein". De volta à coletiva, Trump declara que os EUA não possuem mísseis Tomahawk e que "os EUA amam o povo iraniano".
Preso em 2019, o financista Jeffrey Epstein foi acusado de cometer pelo menos 250 abusos de meninas menores de idade. Ele tirou a própria dentro da prisão um mês após ser detido. O presidente Donald Trump manteve uma relação de amizade com o controverso bilionário entre os anos 1990 e 2000. O político do Partido Republicano alega ter cortado laços com o empresário assim que as denúncias de exploração sexual de menores se tornaram públicas.
Contexto
O vídeo surge em meio a um conflito de proporções crescentes. Os Estados Unidos iniciaram ataques contra o Irã no dia 28 de fevereiro. Desde então, mais de 1,3 mil pessoas morreram apenas em solo iraniano. Considerando o envolvimento de outros países no conflito, o número de vítimas fatais se aproxima de 2 mil. O governo Trump justificou a ofensiva com a acusação de que o Irã implementava medidas para o desenvolvimento de uma bomba nuclear.
Mas o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Grossi, afirmou que inspetores da ONU não encontraram provas de que o país conduzia um programa coordenado para a produção de armas nucleares, contrariando as alegações feitas por Israel e pelos Estados Unidos. O atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chegou a declarar vitória no conflito, tendo afirmado dias antes que o fim da guerra estava próximo.
Do lado iraniano, o tom é de desafio. O novo líder supremo do país, Mojtaba Khamenei, que assumiu o cargo após a morte do pai, fez sua primeira declaração pública lida na televisão estatal e adotou postura intransigente. "O Irã vingará o sangue de seus mártires, manterá o Estreito de Ormuz fechado e atacará as bases norte-americanas", disse Khamenei, exigindo ainda que os Estados Unidos encerrem todas as suas instalações militares na região.
Estreito de Ormuz
O fechamento do Estreito de Ormuz representa a resposta iraniana de maior impacto para a economia global. O corredor marítimo, localizado entre o território iraniano e Omã, conecta o Golfo Pérsico ao Mar Arábico e é responsável pelo escoamento de cerca de 20% de todo o petróleo negociado no mundo.
Grandes produtores da Opep — entre eles Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Iraque e Kuwait — dependem dessa passagem para exportar sua produção aos mercados asiáticos, europeus e americanos. O Quartel-General central do exército iraniano foi categórico: declarou que não permitirá "que nem um único litro de petróleo passe pelo Estreito de Ormuz em benefício da América e de seus aliados".
Efeitos no mercado
Os efeitos sobre o mercado de energia já são severos. Os preços globais do petróleo superaram a marca de US$ 100 por barril pela primeira vez desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022. No pico recente, o barril chegou a ultrapassar US$ 120, recuando para a faixa dos US$ 90 após declarações otimistas do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre uma possível aproximação do fim do conflito.
Nesta quarta-feira (11), as cotações voltaram a subir cerca de 5%: os contratos futuros do Brent avançaram para US$ 91,98 por barril, enquanto o WTI norte-americano encerrou a sessão a US$ 87,25. Teerã chegou a advertir que o mundo deveria se preparar para o barril a US$ 200, enquanto a Agência Internacional de Energia recomendava a liberação massiva de reservas estratégicas para conter um dos piores choques energéticos desde os anos 1970.
População dos EUA rejeita a guerra
No plano doméstico americano, a guerra enfrenta resistência crescente. Uma pesquisa nacional realizada pela Reuters em parceria com o Ipsos, concluída no dia 1º de março, mostra que apenas 27% dos americanos apoiam os ataques conduzidos em conjunto por Washington e Tel Aviv — operação que resultou na morte do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei. Outros 43% rejeitam a ofensiva, e 29% não têm posição definida. Cerca de 90% dos entrevistados afirmaram ter conhecimento, ao menos parcial, dos bombardeios iniciados na madrugada de 28 de fevereiro.
O desconforto não se limita à oposição. Metade dos americanos — incluindo um em cada quatro eleitores do próprio partido do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump — avalia que ele recorre ao poder militar com disposição excessiva. Entre os democratas, a rejeição à guerra é quase unânime: 74% desaprovam os ataques, contra apenas 7% favoráveis. A sensibilidade econômica também pesa: 45% dos entrevistados afirmaram que reduziriam seu apoio às operações caso os preços do petróleo e da gasolina subissem nos Estados Unidos — percentual que inclui 34% dos republicanos e 44% dos eleitores independentes.
Os números se refletem na popularidade presidencial. A taxa de aprovação de Donald Trump recuou um ponto percentual em relação à pesquisa anterior da Reuters/Ipsos, realizada entre 18 e 23 de fevereiro, chegando a 39%. Internamente, assessores do presidente pressionam nos bastidores da Casa Branca pelo encerramento das operações militares, segundo informações divulgadas pelo Wall Street Journal na segunda-feira (9).


