Irã vê avanços preliminares em negociações com os EUA
Antes de novas negociações com Washington, Teerã registra “sinais encorajadores” para o encontro da próxima quinta-feira
247 - O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, afirmou que as tratativas nucleares com os Estados Unidos já produziram “sinais encorajadores”, mas advertiu que Teerã está preparada para qualquer desdobramento antes da próxima rodada de negociações, prevista para quinta-feira (25), em Genebra. As declarações foram feitas em meio à intensificação da presença militar norte-americana no Golfo e a alertas de Washington sobre possíveis consequências caso não haja acordo.
As informações foram divulgadas pela Al Jazeera, que acompanha a evolução das negociações indiretas entre os dois países. Segundo a emissora, Omã confirmou que o novo encontro ocorrerá na Suíça, dando continuidade às conversas retomadas neste mês.
Em publicação na rede X, Pezeshkian destacou o compromisso iraniano com a estabilidade regional. “O Irã está comprometido com a paz e a estabilidade na região”, escreveu. Ele acrescentou que “as negociações recentes envolveram a troca de propostas práticas e produziram sinais encorajadores. No entanto, continuamos a monitorar de perto as ações dos EUA e tomamos todas as providências necessárias para qualquer cenário potencial”.
O ministro das Relações Exteriores de Omã, Badr Al Busaidi, que atua como mediador nas negociações indiretas, confirmou a nova rodada. “Tenho o prazer de confirmar que as negociações entre os EUA e o Irã estão agora agendadas para Genebra nesta quinta-feira, com um esforço positivo para avançar ainda mais rumo à finalização do acordo”, afirmou.
As conversas foram retomadas inicialmente em Omã e tiveram uma segunda etapa em Genebra na semana passada. Apesar de ambas as partes terem descrito o diálogo em termos positivos, ainda não houve avanço significativo.
Pressão militar
O contexto das negociações inclui o reforço militar dos Estados Unidos no Oriente Médio. De acordo com veículos de imprensa norte-americanos citados pela Al Jazeera, Washington mobilizou mais de 120 aeronaves para a região nos últimos dias, além de enviar o porta-aviões USS Gerald R Ford para se juntar ao grupo liderado pelo USS Abraham Lincoln, já posicionado no Mar Arábico. Trata-se do maior deslocamento aéreo desde a invasão do Iraque em 2003.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, alertou para “coisas realmente ruins” caso não se alcance um entendimento sobre o programa nuclear iraniano. Seu enviado especial para as negociações, Steve Witkoff, declarou que Trump questiona por que o Irã ainda não aceitou limitar seu programa nuclear.
“Não quero usar a palavra ‘frustrado’, porque ele entende que tem muitas alternativas, mas está curioso para saber... por que eles não cederam”, disse Witkoff em entrevista à Fox News.
Ele acrescentou: “Por que, sob essa pressão, com o volume de poder naval e marítimo ali, eles não vieram até nós e disseram: ‘Declaramos que não queremos uma arma, então aqui está o que estamos dispostos a fazer’? E, no entanto, é meio difícil levá-los a esse ponto”.
Resposta iraniana
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, reagiu às declarações. “Curiosos para saber por que não capitulamos?”, escreveu ele na rede X. “Porque somos iranianos.”
Em entrevista à CBS, Araghchi classificou o programa nuclear iraniano como questão de “dignidade” e “orgulho” nacional. Segundo ele, a tecnologia foi desenvolvida de forma independente ao longo de duas décadas marcadas por sanções norte-americanas, assassinatos de pesquisadores iranianos e ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel a instalações nucleares em junho do ano passado.
“Nós desenvolvemos essa tecnologia por nós mesmos, por nossos cientistas, e ela é muito valiosa para nós porque fomos nós que a criamos – pagamos um custo enorme por isso”, afirmou. “Não vamos desistir dela. Não há razão legal para isso enquanto tudo é pacífico e está sob salvaguarda” da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), acrescentou.
Araghchi reiterou que, como membro “comprometido” do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), o Irã está “pronto para cooperar plenamente com a agência”, mas ressaltou que o país tem “todo o direito de usufruir de energia nuclear pacífica, incluindo o enriquecimento”.
“O enriquecimento é uma parte sensível de nossas negociações. A equipe americana conhece nossa posição, e nós conhecemos a deles. Já trocamos nossas preocupações, e acho que uma solução é possível”, declarou.
Divergências e papel de Israel
O chanceler iraniano também afirmou que a delegação de Teerã está concentrada exclusivamente nas questões nucleares, rejeitando tentativas de Washington de ampliar o escopo das negociações para incluir o programa de mísseis balísticos e o apoio iraniano a grupos armados na região.
Ele informou que o Irã prepara uma proposta que poderá “acomodar as preocupações de ambos os lados” e sugeriu que um eventual acordo pode superar os termos do pacto firmado em 2015, durante o governo de Barack Obama. “Há elementos que poderiam ser muito melhores do que o acordo anterior”, disse. “Neste momento, não há necessidade de muitos detalhes. Mas podemos concordar que o nosso programa nuclear permaneça pacífico para sempre e, ao mesmo tempo, que mais sanções sejam levantadas.”


