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Israel causa catástrofe humanitária no Líbano

Deslocamento de 20% da população após ataques de Israel agrava crise humanitária no Líbano e sobrecarrega infraestrutura e serviços básicos

Deslocados buscam abrigo após escalada de violência entre Hezbollah e Israel em Beirute (Foto: Amr Abdallah Dalsh/Reuters)

247 - O deslocamento de cerca de 20% da população do Líbano em menos de um mês, provocado pelos intensos bombardeios israelenses iniciados no começo de março, evidencia uma grave crise humanitária no país, com mais de 1 milhão de pessoas vivendo em condições precárias e sem perspectiva de retorno imediato às suas casas, segundo a Folha de São Paulo.

A escalada começou após Israel ampliar ataques em resposta ao lançamento de foguetes pelo Hezbollah no norte israelense, em meio à tensão envolvendo forças alinhadas ao Irã. Em um território significativamente menor e mais densamente povoado que o Brasil, o impacto da migração forçada é ainda mais severo, concentrando centenas de milhares de deslocados em áreas já sobrecarregadas.

A maioria dos refugiados internos deixou o sul do Líbano, principal alvo das ofensivas, e seguiu para Beirute. A capital, no entanto, não dispõe de estrutura suficiente: os abrigos oficiais comportam cerca de 130 mil pessoas, enquanto o restante da população deslocada se espalha por casas de familiares, barracas improvisadas e até veículos. O resultado é o agravamento do trânsito, falhas no fornecimento de energia e dificuldades no abastecimento.

Mesmo em Beirute, a segurança não está garantida. Bombardeios israelenses atingem principalmente o sul da cidade, onde há presença do Hezbollah e comunidades xiitas, mas também se estendem a outras regiões. Um ataque recente matou oito deslocados que estavam abrigados em tendas na orla de Ramlet al-Baida.

A Agência da ONU para Refugiados (Acnur) alertou que o país enfrenta uma “catástrofe humanitária”. Sem perspectiva de estabilização no curto prazo, autoridades israelenses indicam a manutenção de presença militar no sul do Líbano. O ministro da Defesa, Israel Katz, afirmou que pretende manter uma “zona de amortecimento”, condicionando o retorno da população à segurança israelense. Já o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, defendeu a possibilidade de exercer “soberania” sobre áreas do território libanês.

Além dos mais de 1,26 mil mortos e 3,75 mil feridos, a crise também atinge a infraestrutura. Bombardeios destruíram pontes sobre o rio Litani, dificultando tanto o retorno dos deslocados quanto o envio de ajuda humanitária para regiões isoladas.

No campo da saúde, os efeitos são amplos e persistentes. A coordenadora de saúde dos Médicos Sem Fronteiras (MSF), Tatiane Francisco, destacou que muitos dos deslocados já haviam sido afetados por ataques anteriores e agora enfrentam uma nova onda de fuga. “Muitas pessoas vêm de vários deslocamentos, várias fugas, e não há perspectiva de quando tudo isso vai acabar. Isso vai agregando camadas de sofrimento, de desesperança”, afirmou.

Ela também ressaltou o desgaste emocional generalizado: “Há um cansaço entre as pessoas, elas não têm um horizonte de quando terão paz. E ninguém deveria ter que se acostumar com a guerra".

Os impactos psicológicos atingem adultos e crianças. Entre os mais jovens, são comuns sinais de regressão, como voltar a urinar na cama, retração e dependência dos pais, além de comportamentos agressivos. Já entre os adultos, crescem os casos de ansiedade, depressão e estresse contínuo, agravados pelo ambiente de constante ameaça.

A situação se torna ainda mais crítica para aqueles que fugiram sem qualquer preparação, muitos apenas com a roupa do corpo. A falta de acesso a medicamentos essenciais para doenças crônicas, como diabetes, hipertensão e transtornos psiquiátricos, amplia os riscos à saúde e evidencia a dimensão da crise humanitária em curso no país.

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