Italianos vão às ruas contra presença do ICE nos Jogos de Inverno
Manifestação questiona envio de agentes do órgão imigratório para "segurança" da delegação estadunidense na Itália
247 - Uma manifestação marcada para este sábado (31) em Milão, na Itália, protestará contra a presença de agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês) nos Jogos Olímpicos de Inverno. O ato, organizado por organizações civis e partidárias de esquerda e centrais sindicais, adota o lema "Agentes do ICE em Milão? Não, obrigada". As informações são da RFI.
Na terça-feira (27), autoridades dos Estados Unidos confirmaram que agentes da divisão investigativa do ICE estarão na Itália. De acordo com o anúncio, a atuação se dará no apoio à segurança da delegação estadunidense e na mitigação de riscos associados a organizações criminosas transnacionais. O órgão está no centro de controvérsias após o assassinato de dois civis em Minneapolis, além de diversas violações de direitos humanos.
Entre os organizadores do protesto, destaca-se a Associação Nacional dos Partigianos Italianos, histórica organização ligada à resistência ao fascismo. Os participantes foram orientados a levar apitos, instrumento também utilizado por manifestantes nos atos realizados nos EUA contra a atuação violenta do ICE.
Rejeição à presença do ICE mobiliza partidos e autoridades locais
O secretário metropolitano do Partido Democrático, Alessandro Capelli, um dos organizadores da mobilização, afirmou que o objetivo do ato é rejeitar a atuação do órgão em solo italiano. "Uma grande mobilização democrática e pacífica [ocorrerá] para dizer que não queremos as patrulhas do ICE na nossa cidade, para dizer que queremos as Olimpíadas dos direitos humanos e para dizer que estamos do lado de quem luta pelos direitos humanos, de Minneapolis ao resto do mundo", declarou.
Partidos italianos de centro-esquerda defendem que os agentes do ICE não atuem no país. O prefeito de Milão, Giuseppe Sala, classificou o órgão como uma "milícia que mata" e afirmou que seus integrantes não são bem-vindos na cidade. No Conselho Regional da Lombardia, políticos progressistas exibiram cartazes com a frase "Fora ICE".
As críticas, embora concentradas na esquerda, também alcançaram setores do centro-direita. O líder do partido Noi Moderati, Maurizio Lupi, escreveu nas redes sociais que, apesar de cada delegação estrangeira decidir sobre sua própria escolta, a presença de agentes do ICE na Itália seria inoportuna no momento.
Parlamento Europeu pressiona por veto à entrada de agentes do ICE
A controvérsia chegou ao Parlamento Europeu. Os líderes do grupo A Esquerda enviaram uma carta à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e à chefe da diplomacia do bloco, Kaja Kallas, solicitando que agentes do ICE sejam impedidos de entrar em território europeu.
"Diante das informações de que agentes do ICE serão encarregados de fornecer segurança durante os Jogos Olímpicos de Inverno na Itália, ainda neste mês de fevereiro, o aumento da violência e da repressão associadas ao ICE terão impacto direto sobre os cidadãos europeus. A União Europeia deve tomar medidas para impedir a entrada dessas forças em seu território", afirma o documento.
O grupo Renovar a Europa também se manifestou, classificando a presença do ICE como inaceitável. "Na Europa, não queremos pessoas que ignoram os direitos humanos e evitam o controle democrático", diz uma publicação do grupo nas redes sociais. Até o momento, a Comissão Europeia não se pronunciou oficialmente sobre o tema.
Governo Meloni busca equilíbrio entre aliança com EUA e pressão interna
O governo da primeira-ministra de extrema direita Giorgia Meloni tem tratado o tema com cautela, com o objetivo de evitar uma crise diplomática com os Estados Unidos. Considerada a principal aliada de Donald Trump entre os países da União Europeia, Meloni não se pronunciou diretamente sobre o caso. Ministros têm afirmado que a segurança dos Jogos será responsabilidade exclusiva das forças italianas.
O ministro do Interior, Matteo Piantedosi, informou em nota que analistas do ICE atuarão apenas em escritórios diplomáticos, como o consulado dos Estados Unidos em Milão, sem presença nas ruas. "Os investigadores do Homeland Security Investigations não serão representados por pessoal operacional, como os envolvidos no controle migratório em território dos Estados Unidos, mas por profissionais exclusivamente especializados em investigações", diz o texto. Piantedosi deverá prestar esclarecimentos formais ao Parlamento italiano na próxima quarta-feira (4).
Na quinta-feira (29), o ministro das Relações Exteriores, Antonio Tajani, afirmou que apenas três agentes do ICE irão à Itália, com a função de colaborar com a polícia local por meio do fornecimento de informações. "Não há motivo para alarmismo. Quando há eventos desse porte, é natural que os países enviem suas próprias forças para colaborar na segurança. Eles não sairão pelas ruas em trajes de combate. Três funcionários que vão ao consulado não me parece um perigo para a democracia ou para a segurança dos cidadãos italianos", declarou.
O embaixador dos Estados Unidos na Itália, Tilman Fertitta, também afirmou, em nota, que a atuação do ICE será restrita ao assessoramento, com foco no fornecimento de inteligência voltada ao combate a crimes cibernéticos e a ameaças à segurança nacional.


