Lançamento do Conselho de Paz expõe isolamento de Trump
Evento em Davos reuniu poucos aliados do presidente dos Estados Unidos e evidenciou resistência de líderes europeus à iniciativa
247 - O lançamento do chamado Conselho de Paz, idealizado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ocorreu em um ambiente marcado por esvaziamento político e baixa adesão internacional durante o Fórum Econômico Mundial de Davos. Embora Trump tenha entrado no mesmo salão onde discursara à elite global no dia anterior, a plateia desta quinta-feira (22) era restrita e formada majoritariamente por aliados ideológicos e líderes conhecidos por posições controversas no cenário internacional, segundo a Bloomberg.
Entre os participantes estavam o presidente da Argentina, Javier Milei, entusiasta declarado de Trump, além do primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, e do presidente da Indonésia, Prabowo Subianto. O público não chegou a 20 pessoas, e o clima foi descrito como contido, com aplausos discretos. Também compareceram representantes diplomáticos de monarquias do Oriente Médio e de países do Leste Europeu, incluindo Belarus, cuja presença causou desconforto entre diplomatas europeus.
Durante a cerimônia, Donald Trump comentou de forma informal sobre os convidados presentes. “Todos eles são meus amigos, alguns vamos ver, alguns eu gosto, alguns eu não gosto”, afirmou, antes de completar: “Não, eu gosto, na verdade, desse grupo. Eu gosto de todos eles, conseguem acreditar?”. As declarações foram feitas enquanto os participantes aguardavam para assinar, em duplas, a carta que oficializou a criação do conselho.
O presidente dos Estados Unidos posicionou-se entre o presidente do Azerbaijão e o primeiro-ministro da Armênia, países com histórico recente de conflitos. Trump voltou a sustentar que teria contribuído para encerrar oito guerras ao redor do mundo, incluindo disputas envolvendo essas duas nações. Apesar da retórica, a ausência de líderes das principais economias foi evidente. Poucos representantes europeus compareceram, com exceção de Orbán, que viajou a Davos exclusivamente para o evento, mesmo sendo crítico histórico do Fórum Econômico Mundial.
“Este é um dia muito empolgante, que levou muito tempo para ser construído. Todos querem fazer parte disso”, disse Trump, minimizando o baixo comparecimento. “Vocês são as pessoas maiores e mais poderosas do mundo”, acrescentou, dirigindo-se ao grupo reduzido.
Nos bastidores, diplomatas europeus expressaram reservas à iniciativa. Governos que condenam a invasão da Ucrânia pela Rússia demonstraram resistência em integrar um conselho que inclui Vladimir Putin. Argumentos como limitações constitucionais e necessidade de aprovação parlamentar têm sido utilizados para justificar a não adesão. Um representante europeu afirmou haver receio de que o órgão se transforme em uma vitrine de lideranças politicamente controversas.
O enviado especial dos Estados Unidos, Steve Witkoff, integrante do conselho executivo, reconheceu as dificuldades de mobilização. “Este não é um lugar tão fácil de chegar”, afirmou em entrevista à Bloomberg Television. Witkoff, empresário do setor imobiliário e parceiro de golfe de Trump, concebeu a proposta ao lado de Jared Kushner, genro do presidente, após a apresentação de um plano de paz para Gaza, discutido anteriormente em um encontro no Egito que atraiu público significativamente maior.
Ao longo do evento, Trump retomou discursos já conhecidos no cenário internacional, exaltando supostos sucessos diplomáticos e reiterando críticas ao multilateralismo. Diante das críticas de que o novo conselho poderia enfraquecer o papel das Nações Unidas, o presidente dos Estados Unidos afirmou que a iniciativa atuará “em conjunto” com a ONU, apesar de ter classificado a organização, criada há oito décadas, como ineficaz na resolução de conflitos.
A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, declarou o lançamento um sucesso. “Parabéns, presidente Trump. A carta agora está em pleno vigor, e o Conselho de Paz é oficialmente uma organização internacional”, afirmou. Jared Kushner anunciou que a primeira conferência do grupo será realizada em Washington nas próximas semanas, possivelmente de forma virtual.
Apesar do anúncio oficial, nem todos os países citados pela Casa Branca confirmaram apoio. A Bélgica, por exemplo, negou ter assinado a carta do conselho, mesmo após ter sido listada como apoiadora da iniciativa pelo governo dos Estados Unidos, aprofundando as dúvidas sobre o real alcance internacional do novo organismo.


