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Migrantes sul-americanos são expulsos dos EUA e enviados à República Democrática do Congo

Quinze cidadãos da Colômbia, Equador e Peru relatam que fizeram trajeto algemados e permanecem há cinco dias em hotel em Kinshasa

Bandeiras dos Estados Unidos e do Congo, junto a uma miniatura, nesta ilustração feita em 22 de abril de 2026 (Foto: REUTERS/Dado Ruvic)

247 - Quinze migrantes sul-americanos expulsos dos Estados Unidos relataram terem sido enviados à República Democrática do Congo após uma viagem de 27 horas sob algemas. O grupo, formado por colombianos, equatorianos e peruanos, permanece há cinco dias em um hotel nos arredores de Kinshasa. As informações são da RFI.

Segundo os relatos, os migrantes disseram que foram informados sobre o destino apenas na véspera da expulsão. Gabriela, colombiana de 30 anos, afirmou: "Eu não queria ir para o Congo. Estou com medo, não conheço a língua".

A República Democrática do Congo recebeu, pela primeira vez, esse tipo de transferência no dia 18 de abril, passando a integrar uma lista de países africanos que aceitaram participar de um mecanismo dos EUA para envio de estrangeiros em situação "irregular" a territórios terceiros.

Entre os países envolvidos estão Guiné Equatorial, Gana, Ruanda, Sudão do Sul, Camarões e Essuatíni. Esses acordos costumam incluir apoio financeiro ou logístico.

Condições e restrições

Desde a chegada, os migrantes permanecem em um complexo hoteleiro próximo ao aeroporto de Kinshasa. Eles afirmam que não podem sair do local e relatam a presença de viaturas policiais e militares. Também mencionam a circulação de integrantes de uma empresa militar privada não identificada.

A Organização Internacional para as Migrações (OIM) informou que pode oferecer "retorno voluntário assistido aos migrantes que solicitarem", após a concessão de autorizações temporárias de permanência pelos países de destino.

Relatos de saúde e pressão

Os migrantes disseram ter recebido cerca de US$ 100 da OIM e afirmam que não podem receber visitas. Segundo Gabriela, parte do grupo apresentou sintomas de doença. "Vários dos nossos companheiros ficaram doentes, eu também", relatou. "Tivemos febre, vômitos, problemas estomacais. Mas nos dizem que é normal e que precisamos nos adaptar."

Quatro migrantes informaram ter recebido visto de sete dias, com possibilidade de prorrogação por até três meses. Eles afirmam que, após o período inicial, há risco de perder apoio e permanecer sem assistência.

"Eles nos pressionam, dizendo: 'Se vocês não aceitarem o programa de retorno aos seus países de origem, vão ficar presos nessa situação aqui no Congo'", disse Gabriela. "É desumano e injusto."

Contexto local e reações

A situação ocorre em Kinshasa, cidade com mais de 17 milhões de habitantes e com grande parte da população sem acesso regular a serviços básicos como água e eletricidade. Dados do Banco Mundial indicam que quase três quartos da população vive abaixo da linha da pobreza.

A chegada dos migrantes gerou reações na sociedade civil e nas redes sociais do país. Entre os relatos, há preocupação com o futuro diante da falta de permissão para trabalhar e da incerteza sobre a permanência.

Hugo Palencia Ropero, colombiano de 25 anos, afirmou: "Tenho mais medo de estar aqui na África do que na Colômbia". Ele disse ainda que está disposto a aceitar "qualquer documento de viagem" para deixar o país.

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