O Ocidente perdeu sua alma, mas os iranianos estão buscando a deles, diz Alastair Crooke
Ex-oficial britânico afirma que o Ocidente vive crise de valores enquanto o Irã busca nova consciência e pode influenciar mudanças globais
247 - O ex-oficial de inteligência britânico Alastair Crooke afirmou que o Ocidente atravessa uma profunda crise de valores, enquanto o Irã estaria em um processo de reconstrução de sua identidade intelectual e espiritual, com potencial impacto global. Segundo ele, essa diferença de trajetória pode redefinir o equilíbrio geopolítico e cultural no cenário internacional contemporâneo. As declarações foram dadas em entrevista ao Brasil de Fato, que publicou a terceira parte da conversa exclusiva com Crooke.
O analista, que também atuou como conselheiro da União Europeia para a Ásia Ocidental, apresentou reflexões sobre a revolução islâmica iraniana, a tradição filosófica xiita e os desafios do mundo contemporâneo.
Ao abordar a formação intelectual das lideranças iranianas, Crooke destacou a combinação entre filosofia ocidental e pensamento islâmico. Para ele, esse equilíbrio proporciona uma visão mais ampla do mundo. “Era algo em que o Imã Khomeini insistia, que é preciso estudar a filosofia ocidental em conjunto com a filosofia islâmica”, afirmou.
Ele citou o exemplo do ex-presidente do Parlamento iraniano Ali Larijani, que estudou Immanuel Kant, mas também é conhecedor da filosofia de Suhrawardi. Segundo Crooke, essa dualidade permite uma leitura crítica do pensamento ocidental e amplia a compreensão da realidade.
Durante a entrevista, o ex-agente relatou uma conversa marcante que teve no Irã com um religioso que posteriormente se tornou aiatolá. “O problema que eles têm com o Ocidente não é a ideologia, é a maneira de pensar deles. E a maneira de pensar deles é tão prejudicial para o mundo como um todo”, recordou.
Para Crooke, essa crítica está relacionada ao que ele define como “niilismo pós-moderno” do Ocidente, caracterizado por uma visão materialista e individualista. Em contraste, ele vê no Irã uma tentativa de superar esse paradigma por meio de uma elevação da consciência coletiva.
“O sistema ocidental perdeu completamente, não sei a palavra certa, mas perdeu sua ‘ânima’. Mas os iranianos estão buscando”, declarou. Ele acrescentou que processos semelhantes estariam em curso também na Rússia e na China, com movimentos de resgate cultural e crítica à ocidentalização.
Segundo o analista, esses países estariam passando por uma fase de revisão histórica e reconstrução de identidade. Ele mencionou, por exemplo, o retorno a tradições culturais na China e o resgate de valores históricos na Rússia, como parte de uma busca por novos modelos de desenvolvimento.
Crooke também avaliou que o momento atual representa uma transição global. “Sempre disse que o que estamos passando agora é um processo de catarse”, afirmou. Para ele, essa transformação pode envolver uma “destruição criativa” das estruturas existentes, abrindo caminho para novas formas de organização social e econômica.
O ex-oficial alertou ainda para riscos geopolíticos, especialmente em relação ao Oriente Médio. Ele expressou preocupação com a possibilidade de escalada militar envolvendo Israel e o Irã, incluindo o uso de armas nucleares.
“Precisamos entender Israel não através do racionalismo secular. É preciso entendê-lo de uma maneira escatológica”, disse. Segundo Crooke, há componentes religiosos e messiânicos que influenciam decisões políticas, tanto em Israel quanto nos Estados Unidos.
Ele mencionou ainda que setores políticos estariam classificando o conflito com o Irã como uma “guerra santa”, o que, na sua avaliação, aumenta o risco de uma escalada de grandes proporções.
Ao final da entrevista, Crooke relembrou sua trajetória diplomática, incluindo sua atuação em negociações de cessar-fogo no Oriente Médio e seu trabalho com diferentes grupos políticos da região. Ele também destacou a criação do Conflicts Forum, organização voltada à análise e mediação de conflitos na Ásia Ocidental.


